Croquê humano
Croquê humano é um tradicional jogo inglês em que alguns participantes formam pares, de mãos dadas e braços erguidos frente a frente, atuando como “aros” por onde os outros devem passar. As “bolas” são pessoas de olhos vendados, cada uma guiada por um jogador. Esta brincadeira de festas não chega a ser jogada no romance da britânica Kate Atkinson, mas tem inegável paralelo com a trama que entrelaça passado, presente e futuro.
A escritora aborda de forma original temas difíceis como estupro, incesto, abandono infantil, violência contra a mulher e espancamento de crianças. Apesar de toda a carga dramática, a história flui com leveza e graça. Grande parte é narrada com observações ferinas em primeira pessoa por uma personagem memorável: Isobel Fairfax, garota de dezesseis anos que vive em uma pequena cidade inglesa em 1960.
Leitora voraz, de personalidade sensível e generosa, Isobel tem um senso de humor sarcástico que a ajuda a lidar com as frustrações da vida. Ela e seu irmão mais velho Charles convivem com um trauma de infância: quando os dois eram pequenos, seus pais sumiram misteriosamente, deixando-os com a avó ranzinza e a tia solteirona. Alguns anos depois, o pai retorna da Nova Zelândia, casado com outra mulher. O núcleo da história é a reconstituição do desaparecimento de Eliza, mãe amorosa e de espírito libertário.
Kate Atkinson utiliza a onisciência de sua protagonista adolescente para levar o leitor a uma aventura que mistura sonho e realidade. Isobel possui o dom de viajar no tempo. Num momento ela está no século 16, quando uma ancestral sua desapareceu na floresta, jogando uma maldição sobre o marido e os descendentes. Em outro desses estados alterados, vê o pai quando criança. Chega até a entrar em contato com William Shakespeare. Estranhas flutuações no tempo também a fazem antever diferentes alternativas de futuro. Paradoxalmente, ela mantém um agudo senso crítico da realidade.
Já Charles é obcecado por histórias de universos paralelos e discos voadores. Ele coleciona objetos de Eliza encontrados pela casa e gosta de imaginar que sua mãe foi raptada por alienígenas. À medida que a história avança, os fragmentos do mistério vão ganhando sentido. Antes nebulosa, a imagem de Eliza se torna concreta e Isobel decifra o enigma. Croquê humano é um livro que mergulha fundo no lado oculto das emoções, mas com delicadeza. Sua leitura surpreende a cada parágrafo. Mesmo depois do final, Isobel permanece como uma doce lembrança na memória do leitor.
Dauro Veras
Publicado originalmente em 2001 no web site da Editora Rocco.







