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“Como conheci Julian Assange – e como os documentos do WikiLeaks vieram parar no Brasil”
Belo texto da Natalia Viana, criadora da agência de jornalismo investigativo Pública. Histórias do WikiLeaks fazendo História.
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Tudo começou com um telefonema mais do que inesperado e misterioso, em novembro do ano passado; menos de duas semanas depois, o Brasil seria o primeiro país a ter acesso aos documentos diplomáticos da embaixada americana, além dos cinco jornais da Europa e dos EUA
Por Natalia Viana, da Pública (livre reprodução desde que citada a fonte)
Só às vezes o meu celular pegava. Eu estava em um bangalô à beira do Rio Tapajós, no Pará, onde ia morar por um mês para fazer uma reportagem. O telefone, portanto, não tocou. Ouvi o recado horas depois. Em inglês britânico: “Alô Natalia, aqui é a Hale, trabalhamos juntas em Londres. Agora estou com uma organização muito influente, queria te passar um trabalho…”
Era 14 de novembro de 2010, quinze dias antes do estrondoso lançamento dos 250 mil telegramas das embaixadas americanas pelo WikiLeaks, e no silêncio da floresta o convite soou longínquo, mal explicado. Decidi entrar em contato com meu ex-chefe, Gavin MacFadyen, diretor do Cento de Jornalismo Investigativo de Londres, onde trabalhara com a tal inglesa, para pedir mais detalhes.
Gavin é um dos mais incríveis jornalistas que eu conheço. Adora as reportagens arriscadas, saboreia os resultados, ri sem parar quando lembra que algum ricaço corrupto foi pego com a boca na botija. E sempre me dá as melhores dicas. Pouco depois do contato, ela volta a me escrever, por email.
“Estamos trabalhando em um grande projeto, extremamente empolgante, que vai ter enorme repercussão no mundo todo. Não é seguro escrever os detalhes, mas tenho certeza que qualquer jornalista gostaria de estar envolvido”, explicava a inglesa. “Todos os meus telefones estão grampeados, mas posso te ligar”.
Ao telefone, a proposta, afinal: que eu estivesse em Londres nos próximos dias, num local indicado. Não saberia o que nem para quem. Numa rápida ligação, Gavin deu uma só dica, preciosa: o trabalho envolveria uma pessoa “recentemente famosa”. Como grande parte dos jornalistas investigativos, eu já conhecia a trajetória de Julian Assange e me entusiasmava pela sua cruzada por documentos secretos. Achei que era ele: “Estou dentro”.
Ora, de Santarém para Belém e de lá para o aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Mil pequenos receios tomam conta quando tomei o táxi para o aeroporto, afinal. Medos prosaicos: de ser tudo mentira; de perder os parcos 4 mil reais que gastara com as passagens; de ser barrada no aeroporto de Londres como tantos brasileiros da minha idade, sem trabalho fixo nem uma boa explicação para dar. Caprichei no ar blasé quando falei com o oficial da imigração: “estou apenas de férias, vou aproveitar para fazer compras”. Deu certo.
Em Londres, devia ir a um endereço – era toda a indicação que eu tinha. Mas quando cheguei ao Frontline Club, em Paddington, um clube aconchegante que promove o jornalismo independente com debates, exibição de filmes e quartos mais em conta para repórteres e documentaristas que vivem de orçamento apertado – ninguém.
Hora e meia depois ela chega, esbaforida. Loira, rabo de cavalo e roupa mal ajambrada que pouco disfarçava a beleza de olhos azuis, boca carnuda e jeito de menina. Hale desabafou: “Sinto muitíssimo, querida, mas você viu o que aconteceu hoje né?”. Eu, não. “Emitiram um mandado de prisão contra ele”.
Ele, como eu imaginara, era Julian Assange, uma das figuras mais controversas do jornalismo mundial – acusado, inclusive, de não ser jornalista. Àquela altura, o WikiLeaks já era conhecido no mundo todo, e já incomodava muita gente. Em julho, havia publicado 75 mil diários sobre a guerra do Afeganistão que provaram assassinatos indiscriminados de civis; em outubro, mais 400 mil relatos secretos sobre o Iraque, provando tortura contra prisioneiros.
Hale parecia mais aborrecida com o atraso nos planos que com a acusação em si. Trava-se de uma queixa na Suécia, feita por duas mulheres, de crimes sexuais. “É uma armação, isso vai embora com o tempo. Mas precisamos ter cuidado”. Muito cuidado, explicou. Meses antes, o Pentágono havia emitido uma ameaça clara: o WikiLeaks deveria devolver todos os documentos secretos e apagá-los do seu site, ou então os EUA “buscariam alternativas de obrigá-los a fazer a coisa certa”. Não tínhamos nem ideia do que podia acontecer.
***
A poucas quadras dali, no andar superior de uma casinha insuspeita em uma alameda de paralelepípedos, estavam meus companheiros de viagem. Agora, era só guardarmos as malas e partirmos, disse Hale, sem explicar aonde. Foi assim que vi pela primeira vez o Julian Assange, com seu rosto fino e nariz marcante, pálido, loiríssimo. Falou pouco, mas sua voz forte chamou a atenção, talvez um pouco menos que a vodka que ele ofereceu assim que sentei à mesa. Islandesa, supreendentemente boa.
Do outro lado, o islandês Kristin Hraffnson sorria. Bonitão, grisalho (teria uns 50 anos?) e com seu ar sério, elogiou o produto de sua terra, enquanto ao meu lado outro rapaz, de óculos, também bebia sem culpa. “Não vou dirigir”. Era um rapaz jovem, magricelo, com um aprumado topete e um ar irônico que só os melhores ingleses conseguem ter (embora seja, na verdade, de uma ex-colônia africana). Seguiu-se então uma discussão, que me pareceu infinita, sobre quem afinal seria o motorista – a escolha era entre um islandês meio bêbado, um africano meio cego e uma inglesa que não dirigia há anos. “Como você pode ver, somos uma organização muito eficiente”, brincou Hale, ao se dar por vencida e assumir a direção.
Pouco antes de sair, Julian me chamou para perto. Me entregou um pedaço de papel rabiscado: “Não fale nada”. Lia-se, na sua letra miúda, 250.000 telegramas de embaixadas americanas de 1966 a 2010. 1/10 não valem nada, 1/50 importantes, 1/250 muito importantes.
Na saída, aproveitei para fumar um cigarro. Kristinn se aproximou: “Você está bem?”. “Estou. Queria poder fazer perguntas”. “Quando estivermos na estrada”, respondeu.
Hale pediu meu casaco, uma espalhafatosa peça de lã azul marinho salpicada de bolinhas verdes. Subiu correndo e desceu rindo uma gargalhada gostosa, que tentava abafar com as mãos. “Eu juro que não vou conseguir dirigir se ele vier vestido assim”. Quando Julian finalmente desceu, todos caímos na risada. Vestia um lenço estampado de cetim sobre a cabeça, meu casaco acinturado, óculos e enchimento nos peitos e nas costas, simulando uma bizarra corcova. Fizemos uma breve sessão de fotos, até ser interrompidos por ele: “vamos, vamos!”
***
Enfim pudemos conversar quando chegamos a um posto de beira de estrada. Enquanto os demais foram comprar comida, Julian ficou no carro por segurança.
Por que queriam uma brasileira?
- Porque o Brasil é um grande país, independente, assim como a Austrália. Não pode ser visto como América Latina, e também tem uma língua própria…
Ele abriu seu pequeno laptop, onde reluzia um gigantesco arquivo de texto, verde e preto. Digitou “Brazil”: 3 mil documentos. “Você vai ter muito trabalho”, disse.
A principal tarefa seria escrever matérias em português (“temos muitos apoiadores no Brasil”) e conseguir parceiros confiáveis na mídia brasileira. “Ah, uma coisa”, ele acrescentou. “Vamos lançar os documentos no dia 28″.
Trabalhar com o WikiLeaks, percebi, é quase sempre tentar realizar o impossível. Ler e processar milhares de documentos era humanamente impossível.
Mas ser do WikiLeaks é isso: idealistas, apaixonados, todos desdobram-se em cinco para concretizar as empreitadas inventadas por Julian ou pelo grupo que o rodeia a toda hora, todo instante. “Em tempos de mentira universal, dizer a verdade é um ato revolucionário”, diz o site da organização.
Uma organização que usa essa frase no seu site é ingênua, ou revolucionária. Ou os dois.
***
Voltando para a estrada, recebemos ordens de desligar computadores e celulares. Ordens mesmo. Entendi rápido que o WikiLeak não é Julian Assange: qualquer decisão será contestada, discutida e rediscutida por todos à sua volta, num exercício de possibilidades e impossibilidades que só vai terminar com o melhor argumento – ou a estratégia mais ousada. Mas, quando se trata de segurança digital, Julian manda, ponto final. No dia seguinte, iria pessoalmente “blindar” todo o equipamento.
Já larga madrugada, a rodovia deu lugar a estradinhas tortuosas, rodeadas por plantações rasteiras e grandes casarões, antigas casas de duques e duquesas. Do lado de fora o campado acolhia as plantações e criações: faisão, patos, pombos brancos. Estávamos em Norfolk, na fazenda de Vaughan Smith, o mesmo dono do Frontline Club.
A mansão dos Smith tem nome próprio, Ellingham Hall. E merece. O estilo é georgiano; e tudo parecia mesmo datar da época de um rei longínquo. Até o odor, e o ranger do piso de madeira, de madrugada.
O casarão guarda histórias de gerações e gerações, que Vaughan e a sua esposa Pramvera, uma inteligentíssima mulher do Kosovo, iam nos contando ao redor da enorme mesa de jantar diante da lareira. Nas paredes, retratos a óleo dos antepassados nos seus melhores trajes -para não ser esquecidos no tempo. Vaughan apontava: “essa era minha tia avó”, “esse meu tataravô era capitão de infantaria”, “meu pai era mensageiro real”. Todos haviam morado naquela casa.
Ellingham Hall tem 10 quartos, quatro andares ligados por uma escada em caracol. Eu dormia com uma advogada mexicana que chegaria dias depois para dividir comigo uma impressão, digamos, mais latina sobre aquilo tudo. No quarto, confidenciávamos estar com medo de chegar a polícia, o serviço secreto britânico, ou a CIA. “Qualquer coisa, somos apenas empregadas!”, brincava ela.
***
No dia seguinte, Julian já se debruçava sobre os nossos laptops. A coisa se mostrou um tanto complicada; a internet funcionava mal e lentamente. Somente à noite conseguimos fazer uma reunião para, finalmente, programar o trabalho.
Para nossa segurança, ficaríamos fechados em Ellingham Hall, evitando chamar a atenção. O local era seguro, isolado de qualquer estrada, e cravado no meio de um enorme terreno de 650 acres – muito difícil, portanto, de ter escutas. Teríamos jornalistas indo e vindo, de muitos países, para escrever sobre os telegramas. As viagens à cidade deveriam ser raras, feitas em pequenos grupos. E só quando muito necessário.
A conversa chegou enfim ao processo sueco, que despertava minha curiosidade e a ansiedade de todos. Tudo indicava que a Interpol iria emitir um mandado de prisão internacional, e Julian não iria mais poder viajar. Ele jamais pensara em se tornar um fugitivo. Mas fato é que se a ordem fosse dada, se tornaria do dia para a noite um homem procurado.
“Me arrependo muito de não ter feito o WikiLeaks como uma empresa” disse, abatido. “Se fôssemos uma empresa que desse lucro, podíamos vender conteúdo sobre os documentos, pronto, todo mundo nos respeitaria”. Raciocínio típico de Julian Assange, perspicaz, original e inesperado; e típico do WikiLeaks, contestado com vigor de manhã cedo até o jantar. Ora essa, uma empresa.
No dia seguinte, recebi enfim os documentos. Quem colocou tudo em tabelas de Excell foi um inglesinho de cerca de 25 anos, de olhos azuis e pouco queixo. James Ball, formado em Oxford, é um jovem jornalista excelente com tabelas, números, documentos, com um tremendo raciocínio lógico – e conservador. Sensato, talvez um pouco demais para o WikiLeaks, sempre batia de frente com Julian ao defender a imprensa britânica. Mas sim, era delicioso assistir ao eterno embate entre o jovem britânico e o hacker (quase) quarentão com tendências a esgarçar limites.
Meses depois, James integrou-se ao time investigativo do Guardian. Deu, em troca, horas de depoimentos sobre o WikiLeaks, recheando o livro sobre Julian que o jornal publicou a toque de caixa e que, meses depois, seria comprado por Steven Spielberg para um filme de Hollywood. Com seu estilo careta, o jovenzinho reclamaria do estilo “errático” da organização, das mudanças de ideia de Julian, e das poucas horas de sono. “Era um grupo de jovens ativistas sem qualquer treinamento profissional”, diria. E são assim contadas as histórias que ficam.
***
Trabalhávamos na sala contígua à de jantar, diante da lareira; nos três sofás, cinco, seis pessoas mergulhadas nos seus laptops enquanto a arrumadeira trazia lenha para manter o fogo aceso de hora em hora, com um café bem aguado. Dormíamos mal, pouco, trocávamos o dia pela noite.
Assim que recebi as duas tabelas de Excell – uma, com os 1947 telegramas de Brasília, outra com 909 dos consulados – fiquei cinco dias sem pregar os olhos. Estava ali um relato inédito da nossa história recente, preciso, datado, delicioso. Afinal, era a conta de todos os anos do governo Lula aos olhos do governo americano, primeiro com Bush e depois Obama. A história de um império em decadência, e de uma nação que desponta. Com seus meandros e suas sacanagens, e seus deliciosos flagrantes.
Eram documentos com valor histórico, e não só noticioso. Através deles, aprenderíamos como se dá na prática a política externa: nomes, datas, detalhes. Organizá-los bem e elaborar uma boa estratégia de divulgação era, portanto, essencial. Queríamos que fossem lidos, repercutidos, abraçados pela mídia e pelos sem-mídia.
Nos telegramas desfilavam Serras, Lulas, FHCs, Amorins, Jobins. Aos poucos os furos iam se revelando e eu, pacientemente, os ia classificando, elencando segundo a urgência e importância. Assombrei-me com a colaboração entre a inteligência brasileira e os americanos nas operações anti-terror; com a ajuda do governo para liberar na justiça os pilotos acusados do acidente da Gol; com a transferência dos agentes da DEA expulsos da Bolívia por espionagem para o Brasil, em silêncio, na surdina – e com o apoio do Minsitério da Justiça e do govenro boliviano. Me surpreendi ao ver que o ministro da defesa, Nelson Jobim, era o “homem mais confiável” para o embaixador, enquanto falava mal do Itamaraty.
- Meu deus! – lembro de ter gritado. Jobim fofocou que Evo tinha um tumor! Que traição!
Silêncio na sala. A verdade é que ninguém entendia os vaivéns da nossa política regional e cabia a mim, avaliar o que era bombástico, o que não. Percebi logo que muitos documentos teriam mais impacto se lançados ainda em dezembro: que o governo de Lula ia acabar. Mas, para isso, o Julian teria que comprar uma enorme briga.
Todos concordávamos que deixar apenas cinco jornais – de países centrais, ocidentais – decidir o que é e o que não é notícia era injusto. Mas o acordo rezava que Guardian, New York Times, Le Monde, El Pais e Der Spiegel teriam exclusividade sobre todos os documentos até janeiro. O problema então era expandir a parceria sem irritá-los.
A solução foi uma verdadeira gambiarra. Eu enviaria à imprensa brasileira, todo dia, as matérias que iria publicar no dia seguinte no site do WikiLeaks. Faltava só achar um parceiro, um grande jornal. E, mais importante, um jornalista confiável.
Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, tinha uma enorme vantagem: ele conhecia o Gavin, sabia que eu trabalhava com ele, e portanto iria levar a sério o único breve telefonema que eu podia dar com segurança, do isolamento do nosso casarão. Consegui contato afinal através do Facebook. “Fernando, preciso falar com vc urgente. Vc pode me dar seu celular?”, digitei.
Ao telefone, podia falar muito pouco. O WikiLeaks queria um parceiro brasileiro, pois tinha em mãos muitos documentos, inclusive do Brasil. A repercussão seria enorme, a Folha com certeza podia dar destaque. Mas eu só poderia abrir o conteúdo no domingo, dia 28 de novembro, pela manhã. Sem mais detalhes.
Claro que não seria fácil segurar um jornal do porte da Folha com a promessa de um enorme furo que não se sabe direito o que é. Fernando seguiu o faro, e fez muito bem; mas é claor que enviava dezenas de emails checando e rechecando a data, perguntando mais sobre o conteúdo. Consegui acalmá-lo, afinal.
***
Na Inglaterra, em pleno novembro, é quase sempre noite. Em volta do casarão, tudo cobriu-se de neve. A rotina seguia intensa. Alívio eram os jantares, com bom papo e bom vinho do porto, tradição que seguíamos todas as noites. Chegaram colaboradores de toda parte – franceses, suecos, israelenses, americanos, ingleses.
Na mesa, evitávamos os temas mais pesados. Ali não estávamos fazendo nada diferente do que as equipes do Guardian, Le Monde, El Pais, faziam nas suas redações. E, no entanto, sob forte ameaça do Pentágono, éramos somente nós que tínhamos o que temer. “Mas esses documentos valem muito mais do que a minha vida. Ou a vida de qualquer um nesta mesa”, disse Julian uma noite. Seguiu-se, claro, um silêncio sepulcral.
A seriedade da situação não impediu que ele, a poucos dias do lançamento, teimasse em ir a Londres para o casamento do Gavin. Isso mesmo: Gavin, beirando os 70, iria se casar com a namorada, e fizera questão de escolhê-lo como padrinho. Mas, àquela altura, com um mandato de prisão iminente, seu paradeiro já gerava especulações em toda a imprensa. Hale o apoiava: “É muito mais romântico!”. Eu argumentava: seria o primeiro lugar onde o procurariam se houvesse um mandado de prisão repentino, ou um processo secreto nos EUA.
Além disso, discutíamos no jantar o meu tópico principal: o nome do lançamento. Julian rejeitava a ideia de algo burocrático como “telegramas das embaixadas”. Também não cabia – e nisso todos concordávamos – nada como “despachos do império”, que cheirasse a sligan de esquerda. Uma manhã mal dormida, Julian apareceu na sala radiante. “Achei um nome: Cablegate”. A maioria não gostou.
Mas ninguém achou nada melhor.
***
Dias depois a notícia do próximo vazamento do WikiLeaks se espalhou na imprensa, embora ninguém soubesse o que íamos publicar. O New York Times procurara o governo americano, e nos dias seguintes Hillary Clinton passou a ligar para governos do mundo todo, pedindo desculpas por antecipação. O Departamento de Estado nos chamava de irresponsáveis: “o material colocará vidas em risco”, anunciou o porta-voz. De nada adiantou a carta, enviada por um emissário em Londres, pedindo que Washington indicasse quais nomes deveriam ser retirados. Não houve resposta.
A internet trazia notícias em quase todas as línguas sobre o que estávamos fazendo ali, naquela sala fria. Julian e Hale já não falavam com ninguém: tudo era terminar os detalhes. Elaboraram um engenhoso esquema que obrigava cada veículo a efetivamente ler os documentos antes de publicá-los. Garantiam, assim, que todos os nomes sensíveis seriam retirados, sob responsabilidade concorrente de todos os parceiros. Ela passava horas conversando com os programadores geeks, rapazes da minha idade, ingleses, franceses. Dava gritinhos de alegria: “eu te amo, você é fabuloso, você é uma lenda”.
No sábado, 27, o casamento do Gavin transcorreu sem maiores percalços. Dois jornalistas do grupo foram até Londres; o padrinho, embora ausente, foi assunto principal e ganhou um brinde dos noivos, com direito a longo discurso do entusiasmado jornalista setentão. A noiva, uma alegre senhora americana, não se importou.
Quanto a nós, em Ellinghan Hall, tínhamos que conter a tensão dos cinco jornais, que começavam a desconfiar um do outro. Quem levaria o “furo do século” ? Será que dava para confiar que segurariam suas reportagens para publicarem todos juntos?
Segurar o embargo para a publicação – domingo, às 21 horas, já parecia impossível. Hale, Julian e Kristinn falavam no chat com um, dois, três jornais ao mesmo tempo. Ninguém deveria furar, e todos torcíamos ferozmente para isso, porque, afinal, o site do WikiLeaks estava longe de ficar pronto.
Mas, no sábado à tarde, o Der Spiegel furou. Publicou, por alguns minutos, uma reportagem que mostrava em detalhes no que consistia o vazamento: 251,287 documentos das embaixadas dos EUA no mundo todo: 15, 652 secretos, 101,748 confidenciais. A redação alegou “erro” e retirou a matéria do ar pouco depois, mas a historia já havia sido reproduzida, pra desespero dos demais jornais.
Para nós, a verdade é que a tensão era boa. Pouco importava quem furaria quem – essa é uma lógica própria das empresas jornalísticas. Para o WikiLeaks, o que importa é espalhar. Que os documentos sejam mais lidos, mais visitados, mais reproduzidos, mais discutidos, que alimentem jornais, TVs, revistas, acadêmicos, ativistas, políticos, cidadãos, sejam de direita, esquerda, de centro, de onde for.
Assim que, quando finalmente liguei para o Fernando na manhã do dia 28, ele mal escondeu a decepção: “Mas é só isso? Não tem nada mais forte?”. Eu abriria a série com uma matéria sobre operações de contra terrorismo no Brasil, dentro da estratégia de priorizar temas internacionais. A Folha receberia esta matéria, e trechos de telegramas.
Para o jornal, a história – que já havia ventilado pela imprensa – não era um “furo”. Fui firme. “É isso por hoje”. E assim as histórias que eu havia colhido nas noites diante da lareira foram criando vida, repercutindo, pautando a mídia nacional: jornais, rádio, TVs. E enquanto comentaristas apostavam o que mais haveria no balaio do WikiLeaks, era só eu, jornalista independente – sem veículo, sem patrão – quem tinha a resposta. Sinal do tempo em que vivemos, definitivo e sem volta.
Às 6 horas do domingo, três horas antes do previsto, não deu mais pra segurar. Hale digitava furiosamente no seu laptop: “O Guardian vai furar”, “O El País quer publicar”. Finalmente o El País soltou a notícia, seguida pelos demais como uma verdadeira enxurrada. Enfim: o maior vazamento da história do jornalismo.
Na cozinha, Pramvera acompanhava pelo twitter a frenesi mundial. As linhas subiam histericamente, centenas de entradas por segundo, impossível de ler. Quanto a mim, olhei para o campo lá fora: não tinha a menor idéia do que seria da minha vida. Em algumas horas, meu nome estaria no site do WikiLeaks, duas palavrinhas que iam mudar tudo.
Já comia a madrugada quando conseguimos estourar a gigantesca champagne, dessas de cinco litros. Brindamos alto: “Ao WikiLeaks!”.
***
Depois do lançamento fiquei apenas três dias na mansão.
Os documentos, claro, trouxe comigo para o Brasil. Improvisei, com apoio da diligente Maria Luisa: enfiei o pendrive dentro de uma meia usada, na mochila de roupas sujas. A despedida foi rápida e intensa. “Vamos ficar com saudade”, disse Hale.
Parti, de trem, agarrada à mochila. Foram horas longas, contornadas pela neve que me seguiu até a capital. Em Londres, causou um caos enorme: os trens não saíam das estações, os ônibus fugiam da rota usual. Consegui um ônibus até o bairro periférico onde passaria a noite, mas ele me deixou a meia hora do meu destino final. Fui andando, arrastando a mala sobre os bocados de gelo que se formavam na calçada. A rua estava deserta. Então voltou a nevar, e o caminho me pareceu infinito. E belo.
* Alguns nomes foram trocados a pedido dos personagens
10
Jul11
07
Jul11
De volta
Ficamos fora do ar desde ontem à noite por causa problemas técnicos insondáveis pra mim, mas que o talentoso @fabricioboppre tirou de letra e acaba de solucionar. Pra quem ainda não conhece, Fabrício é o designer-programador-filósofo que há mais de um ano é meu parceiro numa brincadeira estimulante, sem prazo pra terminar: a construção desta nova versão do blog no WordPress, baseada no conceito estético japonês de wabi-sabi – que, trocando em miúdos, é a aceitação da impermanência. Bola pra frente.
02
Jul11
A escolas acabam com a criatividade
Esta palestra de Ken Robinson no TED Talks é de 2006, mas continua atualíssima. Ele conta, com muito bom humor e ótimos exemplos, como o sistema educacional foi concebido para moldar as crianças pro mercado de trabalho e como isso mata a criatividade.
29
Jun11
O peixe
Tendo por berço
o lago cristalino,
folga o peixe
a nadar todo inocente.
Medo ou receio
do porvir não sente,
pois vive incauto
do fatal destino.Se na ponta de
um fio longo e fino
a isca avista,
ferra-a inconsciente,
ficando o pobre
peixe de repente,
preso ao anzol
do pescador ladino.O camponês também
do nosso Estado,
ante a campanha eleitoral:
Coitado.
Daquele peixe tem
a mesma sorte.Antes do pleito:
festa, riso e gosto.
Depois do pleito:
imposto e mais imposto…
Pobre matuto do
Sertão do Norte.- Patativa do Assaré
28
Jun11
Zé Dassilva no Jô Soares
O amigo Zé Dassilva, cartunista do Diário Catarinense, roteirista da Globo e um dos melhores frasistas que conheço, foi entrevistado ontem no programa do Jô que foi ao ar esta madrugada. Dei boas gargalhadas. Se ele contasse todos os causos que a gente escuta em mesa de bar, precisava de outro programa inteirinho.
28
Jun11
Semana Wikileaks
Esta semana a recém-criada agência de reportagem e jornalismo investigativo Pública está publicando uma série de reportagens inéditas sobre o Brasil, baseadas em documentos obtidos pelo Wikileaks. Uma interessante iniciativa de jornalismo independente e colaborativo. Boa parte do material se refere a despachos de embaixadas – entre elas a dos Estados Unidos – e consulados no Brasil. Compartilho o texto de apresentação:
15 repórteres, 2.500 documentos, 3 dias. O resultado são cerca de 50 matérias inéditas sobre documentos diplomáticos referentes ao Brasil obtidos pelo WikiLeaks, que serão publicados durante esta semana no site da Pública.
A Semana WikiLeaks é uma iniciativa coletiva, capitaneada pela Pública com o apoio do WikiLeaks e a participação de jornalistas independentes que acreditam que histórias de interesse público devem ser contadas.
São eles: Andrea Dip, Anselmo Massad, Tadeu Breda, Julio Cruz Neto, Jessica Santos, Mariana Simões, Igor Ojeda, Tatiana Merlino, Daniel Santini, Glauco Faria, João Perez, Natalia Viana, Débora Prado, Paula Sambo e Ana Aranha.
Nos dias 10, 11 e 12 de junho, esses jornalistas se reuniram voluntariamente na sede da Pública, na Barra Funda, para ler todos os documentos referentes ao Brasil que ainda não foram publicados no site do WikiLeaks. Além de documentos da embaixada em Brasília e consulados em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, a Pública também teve acesso a despachos de outras embaixadas, referentes ao Brasil.
São documentos inéditos, produzidos entre 2004 a 2010, debatendo grandes questões nacionais.
A preocupação da Pública é dar visibilidade a esses telegramas, que contam o que se discute nas relações internacionais – conversa a conversa, reunião a reunião.
Durante esta semana, os documentos originais serão publicados no site da Pública e no site do WikiLeaks. No dia 4 de julho, todos os telegramas brasileiros serão disponibilizados no site do WikiLeaks.
Todas as reportagens são em creative commons, para livre reprodução desde que citada a fonte.
“Meses depois deste vazamento tomar as manchetes da imprensa, há ainda muitas informações importantes nos documentos de todos os países. Estes documentos são mais que notícia, eles contam a história desses países. Até mesmo documentos que já foram publicados no site do WikiLeaks trazem revelações inéditas, e estão ali para serem pesquisados pelo público”, diz o porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson.
27
Jun11
Carvão: relatório corrobora denúncia de mortes
O assunto tratado no post de ontem está em matéria da Folha de S. Paulo de hoje, seção Ambiente.
Relatório sobre carvão ilegal corrobora denúncia de mortes no PA
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
FILIPE COUTINHO
DE BRASÍLIAProdutoras de ferro-gusa do polo de Carajás, na Amazônia, continuam usando carvão de origem ilegal, burlando um instituto que elas mesmas criaram há sete anos para fiscalizar a produção do insumo.
A conclusão é de um relatório produzido pela ONG Observatório Social, que desde 2004 investiga a produção de gusa no polo siderúrgico –o maior do país depois do de Minas Gerais.
O documento corrobora denúncias feitas recentemente pelo casal de líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, cujos assassinatos no final de maio em Nova Ipixuna (PA) levaram o governo federal a montar uma operação para brecar a violência rural na Amazônia.
No relatório, a ONG comparou a produção real de gusa no ano passado e a produção possível com o carvão fiscalizado pelo ICC (Instituto Carvão Cidadão).
O instituto foi criado pelas empresas em 2004 para auditar as carvoarias, em resposta a uma pesquisa do próprio Observatório Social daquele ano, que diagnosticou trabalho análogo ao escravo na produção carvoeira.
O resultado da comparação foi que, no caso de metade das guseiras avaliadas (quatro), a produção real excedeu a produção possível em até 155%. (…)
26
Jun11
Amazônia, jornalismo e interesse público
Reproduzo abaixo a íntegra de um artigo que a jornalista Miriam Leitão publicou em sua coluna de 24 de junho no Globo. Ela se refere à recente pesquisa do Instituto Observatório Social sobre o uso de carvão ilegal e trabalho escravo na cadeia produtiva do aço. No site da Papel Social há links para versão em pdf e repercussão na mídia. Esse trabalho é continuidade de um levantamento que vem sendo realizado há sete anos. Participei de etapas anteriores, a começar pela primeira denúncia, em junho de 2004, com a reportagem Escravos do Aço, que escrevi com Marques Casara e fotos de Sérgio Vignes.
É preciso tirar o chapéu pro Casara e pro Vignes, dois repórteres na verdadeira concepção da palavra. Guardadas as proporções, cobrir pautas de direitos humanos in loco na Amazônia tem semelhança com o risco de cobrir guerras. No arco do desmatamento, impera a lei da bala. Se aprovada a criação do estado de Carajás a partir do desmembramento do Pará, o novo estado será o mais violento do Brasil. Aliás, nenhum outro país tem índice comparável ao de Carajás: 68,1 assassinatos por ano para cada grupo de 100 mil habitantes, segundo dados de 2008. Por mais que a tecnologia possa e deva ser utilizada como aliada, pautas assim não se resolvem por telefone ou pelo Google em salas climatizadas. É preciso ir lá enfrentar os mosquitos, o calor e o medo; conviver com as pessoas que vivem o medo no cotidiano.
Outro ponto a destacar é a importância desse tipo de investigação bancada pelo terceiro setor. Ela aponta a viabilidade da construção de um novo modelo de jornalismo, alinhado ao interesse público e sem os vícios da mídia hegemônica – como a cobertura declaratória, o enfoque infotainement e os escusos interesses político-econômicos. O Instituto Observatório Social (IOS), para o qual tive a honra de colaborar por cinco anos, tem acertado ao investir em reportagens independentes que abordaram temas como discriminação de mulheres, exploração de bolivianos em confecções, maquiagem de acidentes de trabalho e outras do gênero. Parceira do IOS em várias ocasiões, a ong Repórter Brasil vem desempenhando há uma década um papel indispensável na defesa dos direitos humanos, em especial no enfrentamento do trabalho escravo. A Pública, agência de reportagem e jornalismo investigativo lançada este mês, promete trilhar caminho semelhante. A partir de amanhã, vai publicar uma série de reportagens baseadas em documentos inéditos do Wikileaks sobre o Brasil.
Entre os desafios de construir um fazer jornalístico alternativo estão os modelos de financiamento – há propostas bem interessantes, veja os links deste artigo de Victor Barone no Observatório da Imprensa. Outras armadilhas são a tentação do panfletarismo e a interferência de interesses políticos em detrimento dos fatos, risco nada desprezível também entre as organizações e pessoas ditas “progressistas”. Mas isso fica pra outro post – e convido meus leitores, jornalistas ou não, que tiverem interesse no assunto a dialogar sobre ele também em seus blogs.
O artigo de Miriam Leitão:
De pacto em pacto
O crime se infiltra na Amazônia, mesmo nas instituições criadas pra combatê-lo. Os elos se misturam e fortalecem a corrente que abate diariamente a floresta. A cada reportagem, um flagrante; a cada estudo, uma nova prova do velho problema: a mistura do legal com o ilegal na cadeia produtiva vai lavando os crimes. O Brasil avança no combate, mas é mais lento que o crime.
O Observatório Social divulgou esta semana outro estudo que começou num local emblemático: Nova Ipixuna, Pará. Lá, desembarcaram em março dois repórteres, Marques Casara e Sergio Vignes. Lá, em maio, foram assassinados dois ambientalistas, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo. Os jornalistas investigavam o crime de uso de carvão vegetal ilegal na cadeia produtiva do aço, encontraram fornos ilegais e constataram, pelo cruzamento de dados, que as siderúrgicas do Pólo de Carajás estão usando carvão ilegal. José Cláudio e Maria denunciavam o desmatamento ilegal e foram mortos depois de avisarem que estavam marcados para morrer.
O país avança; aos poucos. O progresso usa a estratégia de construir redes de constrangimento e pressão sobre os criminosos. Mas os elos da cadeia do crime têm sido persistentes e há momentos em que se pensa que eles vencerão no final.
No documento do Observatório Social, como em outros que já foram divulgados com o mesmo objetivo, há motivos para desânimo e alívio. A boa notícia é que outras investigações que mostravam a conexão entre grandes empresas e os crimes trabalhistas e ambientais acabaram provocando pactos que permitiram avanços no combate ao trabalho escravo e degradante e ao desmatamento ilegal. Foi com movimentos assim que empresários, ONGs, governos, OIT, Ministério Público assinaram o pacto contra o trabalho escravo em 2004. Ele diminuiu o número de casos; mas não acabou com o absurdo. Houve denúncia contra a soja brasileira; compradores internacionais pressionaram, foi assinada a moratória da soja. Através dela as grandes empresas do setor se comprometeram a não comprar soja de área de desmatamento recente. Houve denúncias de que os grandes frigoríficos compram rebanhos que pastam em áreas desmatadas ilegalmente. Os supermercados foram cobrados pelos consumidores. Alguns aderiram ao compromisso contra a carne de desmatamento; outros, não. O Ministério Público iniciou então a campanha da Carne Legal. Impactantes anúncios mostravam a ligação entre o prato do consumidor e a prática ilegal. Tudo isso vai empurrando o país para a legalidade, apesar de todas as forças que se unem para manter o atraso.
Há casos revoltantes de políticos impunes ou cúmplices; de atrasos inaceitáveis em julgamentos; de perseguição a funcionários do Ministério do Trabalho ou do Ibama que apenas querem que a lei seja cumprida; de denúncias do Ministério Público não levadas em conta; de empresas que fazem vista grossa porque assim reduzem o preço dos seus insumos. De vez em quando o Brasil avança.
Um desses passos à frente foi dado quando houve a primeira denúncia contra trabalho escravo e desmatamento ilegal na indústria siderúrgica brasileira. O centro do problema era em Carajás. Ainda é. Foi criado depois da denúncia sobre os “Escravos do Aço” o Instituto Carvão Cidadão. O objetivo do ICC é exigir que todas as siderúrgicas de Carajás se comprometam a não comprar carvão ilegal, e a verificar se seus fornecedores respeitam as leis trabalhistas, garantem equipamentos de proteção aos operários e usam madeira de extração legal. Houve avanços.
O Observatório Social voltou lá em março e constatou que o crime continua. Marques Casara me disse no programa Espaço Aberto, da Globonews, que algumas das siderúrgicas locais não cumprem o que elas mesmas prometeram e lavam o crime na sua produção. Como? Misturando carvão legal, cascas de babaçu e carvão produzido em fornos ilegais. Tudo misturado faz a liga do ferrogusa que depois é exportado: 90% dos produtos de siderúrgicas como a Sidepar e Cosipar são comprados por grandes consumidoras e traders de aço como a ThyssenKrupp, NMT e Nucor Corporation. Empresas que fornecem para as grandes montadoras de automóveis americanas.
A diretora de sustentabilidade do Instituto Aço Brasil, Cristina Yuan, me disse que as produtoras de ferro-gusa do Pólo de Carajás não fazem parte da associação, que reúne apenas as grandes indústrias siderúrgicas do país. Ela garante que todo o carvão usado pelas empresas do Instituto Aço Brasil vem de florestas plantadas ou de manejo. E de fato não são elas as acusadas neste estudo. Para se separar das empresas desse grupo é que o antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia trocou o nome para Instituto Aço Brasil.
Segundo Casara, a Vale foi procurada antes da divulgação do estudo. Ela é a única fornecedora de minério de ferro para as guseiras do Pará. A empresa disse que vai investigar a denúncia. Em outros momentos a Vale assinou pactos e assumiu compromissos de só fornecer a guseiras que não usam carvão ilegal. Tomara que a Vale investigue logo. Pelos dados do relatório, como se viu na imprensa, se forem cruzados os montantes de ferro-gusa produzido com o total de carvão legal registrado fica claro que grande parte do carvão é ilegal. Só em Nova Ipixuna os dois repórteres encontraram 500 fornos ilegais.
Toda vez que uma investigação ilumina a cadeia produtiva lá encontra os elos da cadeia do crime trabalhista e ambiental. A cada empurrão o Brasil avança um pouco. Essa é a esperança.









