08
Mar08
Partidas: tio Jacó
Morreu hoje às 10h em Russas, Ceará, meu tio Jacó Severiano da Silva, 82 anos, irmão mais novo do meu pai. Vá em paz, tio.
07
Mar08
Um momento especial em Pasárgada

Pousada Sítio Pasárgada, em Anitápolis, serra catarinense, 18 de agosto de 2007. Sopinha de legumes, vinho tinto e risadas. Meu pai, 82 anos de piadismo, diz: “Gosto muito de Santa Catarina; aqui as mulheres dão sopa!” Ali perto, o rio da Prata borbulha. Cheiro bom de comida caseira no fogão a lenha. Estou sentado ao lado dos dois homens com quem mais aprendi na vida. Na sala inteira, calor de gente amada. O tempo flui leve como uma pena de passarinho.
Da esquerda pra direita: Augusto, eu, Camillo, Laura, Bruno e Maria Rosa. Foto de Leonardo Camillo.
04
Mar08
Dá tempo?
Belíssimo texto da Lígia Fascioni sobre o tempo que nos resta. Tou em sintonia total com essas idéias.
03
Mar08
O mar da Ilha
Sábado molhei os pés no mar pela primeira vez em 2008. E ontem repeti a dose de corpo inteiro. A água do Campeche tava bem fria, mas deliciosa. Pequenos prazeres da vida: tomar cerveja com os amigos na areia da praia e depois fazer xixi no calção olhando o horizonte, com as ondas do mar grosso lavando a alma e tudo mais.
29
Feb08
Frozen Grand Central
Uma performance coletiva bem bacana no Grand Central, o maior terminal de trens do mundo, em New York. Vi no Dharmalog do Nando.
Se você aproveitar a visita a esse ótimo blog pra descobrir o que é dharma, vai ganhar o dia.
28
Feb08
Os mortos na sala de jantar
Recebi hoje pelo correio e sorvi de uma tacada só Os mortos na sala de jantar, do amigo Ademir Demarchi (Realejo Edições, Santos, SP, 2007). Seu livro de poemas ficou mais de vinte anos na gaveta-tumba, até que, no ano passado, foi premiado pra publicação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Ademir passeia por vários formatos de escrita em torno do tema da nossa finitude. Seus textos, longe de oferecer conforto, fazem refletir sobre as idéias prontas que se tem sobre bater as botas.
O poeta se vale de referências irônicas e ácidas sobre história, política, literatura e comportamento pra criticar as fantasias que escravizam as pessoas: “Combato essa sociedade que vende felicidade, vida eterna e morte assépticas conquistadas sobre muita miséria”, diz. “Por isso a poesia que faço tem a pretensão, já de saída conscientemente falimentar, de ser eminentemente crítica. … Combato também as idealizações platônicas que em geral envernizam as mentes de quem se mete com literatura, acreditando em fantasias como A Obra, O Autor, O Livro, O Poema etc.”.
No prefácio, o crítico Raul Antelo assinala que Os mortos na sala de jantar se une a uma rica tradição que inclui artistas como Rubens, Rembrandt, Delacroix, Baudelaire, Marcel Duchamp, André Breton, Drummond e tantos outros. Ele cita o crítico de arte Georges Duhuit, para quem “o cadáver arrasta consigo a evolução dos estilos, serve às experiências perspectivas, aos ajustes de tonalidades, posa para efeitos de claro-escuro, é testemunha da diferença, do sério e até mesmo da majestade de uma personagem notável, instalado, porém, no espaço da função teatral, mero reflexo esverdeado em meio aos bajuladores de um lugar deslumbrante, por onde o homem comum já não pode mais passar”.
Alguns poemas:
Da felicidade e da infelicidadelá vai o viúvo
sorri sua mulher
morreu sua amante
~Epitáfios
epitáfios são epígrafes
de histórias que continuam túmulo adentro
~Leviatan
evita levita
~Amazônia
(in memoriam)descansa em paz
no chão e nos móveis da sala
~Aviso
caminha com cuidado
pisa sobre teus
antepassados
O autor:
ademirdemarchi [arroba ] uol ponto com ponto br
A editora:
Realejo Edições / José Luiz Tahan
(13) 3289-4935
realejolivros [arroba] terra ponto com ponto br
14
Feb08
Mais lembranças de Augusto (82-95)
82. Ele usava boina portuguesa, presente dos amigos. Era muito interessante ver um japonês com uma boina portuguesa, que figura! (Sônia)
83. Augusto pergunta ao Estéfano: você é meu neto? Estéfano responde: Não, Neto é o meu pai. (Sônia)
84. Augusto vai procurar remédio para matar pulgas do Fanto, a atendente informa que há dois tipos de remédio e ele responde: “Pode ser daqueles que mata a pulga uma vez só…” (Sônia)
85. Ele benzia a bebida dizendo umas palavras em latim, terminava com saravá… e estalava os dedos… você lembra da frase, Dauro, será que a mãe lembra? (Sônia)
86. A Laura lembra que era mais ou menos assim: “Saúde, implórivus, anticolórivus”
87. “Como vão os movimentos parados da nação?” (Sônia, Ana, Laura)
88. “Fique com os anjos, arcanjos, querubins, serafins e …. não me amole!”. (Sônia, Ana, Laura, Nilza)
89. Dica para não enjoar em alto mar: amarrar um saco plástico em volta de toda barriga. (Sônia)
90. Uma piadinha de mineiro que ele gostava de contar: “- Cumpadi, o que ocê acha de nudez? – Mió nu deis que no nosso…” (Ana)
91. Uma história do tempo da floricultura: o homem encomendou um buquê de flores pra amante, mas por engano deu o endereço da própria casa. Augusto foi entregar as flores e quando chegou, viu o homem desesperado fazendo sinais de não pela janela. (Laura)
92. Ele tinha costume de trazer animais doentes e feridos pra tratar em casa. (Nilza)
93. Abrigava em casa, às vezes por meses, pessoas que não tinham pra onde ir. (Nilza, Ana, Laura)
94. Assinou uma autorização pra Ana, então menor de dezoito, viajar pra assistir ao primeiro Rock in Rio. (Nilza)
95. Quando a Laura se mudou de Rondônia pra São Paulo, fez um discurso na festa de despedida no Banco do Brasil em que todos choraram. (Carlota)
13
Feb08
Mais lembranças de Augusto (68-81)
O tempo é santo remédio pra aliviar a dor, mas o preço disso é uma parcela da nossa memória. Talvez só assim a gente consiga tocar a vida: graças à abençoada proteção de uma névoa que, com o passar dos meses e anos, suaviza os contornos do que se foi e nos ajuda a ver o presente.
Ainda bem que a escrita e as conversas ajudam a guardar pequenos tesouros de quem nos deixou marcas. Fico contente que as pessoas estão contando aqui suas lembranças de Augusto Tuyama. Elas se somam às primeiras 67 que escrevi.
Passo longe da pretensão de fazer uma biografia ou lista de “melhores momentos”. Muitas dessas lembranças são só pedacinhos do cotidiano, anedotas, fatos curiosos. Algumas podem depois ser desenvolvidas em boas histórias ou melhor contadas, por mim ou por vocês.
Se você o conhecia, seu tributo neste memorial coletivo é muito bem-vindo. Se não teve a sorte de conhecê-lo, pode ter uma idéia de quem foi este homem especial. Imagine que estamos numa mesa de bar em frente ao mar, num papo descontraído, e vamos recordar juntos.
…
68. “Sabon ou saboa?” – perguntando como estávamos. (Fátima Simãozinho)
69. “Este Gurgel é como coração de mãe, sempre cabe mais um.” – Quando ia recolhendo a garotada ao longo do caminho da escola, pra dar carona. (Fátima Simãozinho)
70. O estalar de dedos acompanhado de uma gargalhada, quando ouvia o final de uma história que gostasse muito. (Neto)
71. “Desculpe por tudo. Da próxima vez boto só a metade”. Estas foram as últimas palavras que ouvi dele, em janeiro de 2005, no Campeche. Um dia vamos nos encontrar outra vez, e eu vou poder contar as piadas que guardava para a minha próxima viagem ao Sul e para ouvir mais um pouco da sua sabedoria. (Camillo)
72. Eu ia la no viveiro dele tirar foto das flores e ele me ajudava e mostrava as melhores flores e tal… Depois descobri que o sacana ainda falava: “Um homem daquele tamanho tirando foto de flor” hauhahauhahauah (Paulinho)
73. “De longe é uma grande distância” (ele falava coisas assim com um tom de conversa séria, rindo com os olhos).
74. “Capital das Reservas Futuras” (sobre Novo Horizonte, lugarejo que praticamente só tinha mato, caçoando dessa história de os os municípios pequenos adotarem títulos de capital de alguma coisa).
75. “É poco, né?” (imitando sotaque japonês pra brincar com o nome da cidade matogrossense que pretendíamos conhecer juntos).
76. Ele nunca tirava acessórios antes de vender carros. E quando ia comprar, desistia de imediato do negócio se o vendedor quisesse fazer isso.
77. Quando ia comprar qualquer coisa, jamais botava defeito pra melhorar a oferta. “Se eu não puder elogiar eu fico calado”, era um de seus bordões favoritos.
78. Quando era rapaz, tinha uma namorada cujo pai só deixava ir ao cinema se fosse acompanhada dos irmãos. Pra não ter que pagar a entrada de todos, combinava com a moça: “Eu vou chegar um pouco atrasado, me espere na terceira fila”.
79. Na infância, tinha um cachorro chamado Sil, homenagem ao cantor Sil Farney. O cão o acompanhava no escuro até o lugar onde ele pegava o ônibus pra escola. Na volta ele descia do ônibus, dava um assobio e Sil aparecia.
80. Quando menino, caminhava levando as alpercatas nas mãos pra não gastarem. Um dia levou uma topada no dedão e comemorou: “Ainda bem que estou descalço!”
81. Dona Nilza conta que, quando eram namorados, passeavam na rua no interior de Minas Gerais quando viram uma banquinha de rapadura. Ele perguntou: “O que é isso?” Ela: “Nunca viu rapadura?” Ele: “Não”. Tempos depois ela estava na cidade dele em São Paulo e viu o doce: “Uai, tem rapadura aqui?” “Sim, tem muita”. Aquela pergunta tinha sido só pra puxar assunto.
10
Feb08
Lembranças de Augusto
Hoje me despeço pra sempre do homem que tanta importância teve na minha vida: pai da minha amada, avô dos meus pequenos, amigo, vizinho, colega de ioga, companheiro de viagem e dos almoços de domingo. Digo adeus ao meu segundo pai.
Augusto Tuyama foi uma das pessoas mais fascinantes que já tive a honra de conhecer. Homem de caráter reto. Generoso, espirituoso. Apaixonado pela liberdade e pelos espaços abertos, sempre fez o que quis. No começo dos 80, deixou uma vida confortável de pequeno empresário de automecânica em SP pra desbravar Rondônia, primeiro sozinho em seu Toyota, em seguida com a família. O japonês era voluntarioso, tinha imensa confiança no próprio tino. Viveu com intensidade. Desapego e bondade foram suas grandes marcas. Tinha satisfação em ajudar os outros, participar de movimentos comunitários. E coragem pra recomeçar. Há poucos anos, ele e Nilza resolveram pegar de novo a estrada e se mudaram pra Florianópolis. Assim, Laura, os meninos e eu tivemos o privilégio de um convívio intenso com esse lindo casal.
Ele tinha um senso de humor finíssimo e raros momentos de irritação. Curtia as coisas simples, o trabalho ao sol com as plantas, o bate-papo com os amigos e conhecer gente. Estava sempre plantando sementes e maquinando idéias novas – dispositivos mecânicos e hidráulicos, negócios, viagens.
E foi num acidente estúpido de viagem em Mato Grosso, seguido de sete semanas de coma, que o perdemos. A estrada era sua praia, essa fatalidade podia ter ocorrido na esquina de casa. Por quê?, por quê?, tenho me perguntado. Assim foi. Tinha de ser. Ele não esperava ir tão cedo – nem nós. Tinha só 67 anos, muitos planos e vitalidade de um rapaz de 40. No meio da nossa dor e da saudade imensa, fica o consolo de que o Tuyama era um homem realizado. A missão dele foi cumprida de maneira exemplar. Ficamos agora com a nossa: preservar sua memória; viver e passar adiante seus ensinamentos; e cuidar bem das sementes, pra que virem belas árvores, homens e mulheres de olhinhos puxados que enxergam longe.
67 lembranças de Augusto:
1. o assobio ao chegar
2. sashimi de anchova
3. bastante arroz branco no prato
4. salada no fim do almoço
5. sesta deitado no chão
6. kawai kawai = carinho em animais
7. a árvore da montanha (música)
8. tá na hora de dormir (canção de ninar)
9. “nota sete” (bem humorado, sobre a vida)
10. “ô vidinha sacrificada” (enquanto abria uma latinha e assava peixe no quintal)
11. a piada do homem que trocou o remédio da mulher pelo da vaca
12. relato sobre a paranormalidade da mãe, que trocou Nagasaki pelo Brasil
13. passeios com o Fanto, o buldogue que era o seu xodó
14. catando mariscos no costão; catando sementes de palmeira no aterro do Flamengo
15. falando entusiasmado da árvore indiana nin e do potencial da andiroba
16. conversas inspiradas sobre plantas e gente
17. história amazônica: a carga de banana pra Manaus
18. história amazônica: o caminhoneiro egoísta
19. história amazônica: o caminhoneiro solidário
20. história amazônica:
a carga de peixes
21. infância: fábrica de saquê
22. infância: pescaria com as mãos/natação na represa
23. infância: leiteiro
24. infância: caçada de rãs e jantar
25. juventude: o fiasco do negócio de alisamento de cabelo
26. acampamentos no litoral paulista com os filhos (e o caranguejo dentro do carro)
27. pescarias em alto mar
28. o plano de ir a Portugal, trocado por uma inesquecível pescaria no Pantanal
29. aventuras rondonienses na Toyota, transportando todo tipo de gente: garimpeiros, posseiros. jagunços, policiais, corpos
30. histórias da Juventude Operária Católica: debate com o agitador que pregava a luta armada; os amigos presos, torturados e desaparecidos
31. o encontro com Nilza num evento do hotel Quitandinha, em Petrópolis
32. “90% é pensamento lógico” (dica básica pra resolver problemas)
33. a idéia de fazer um ofurô a energia solar
34. histórias da floricultura e do viveiro de plantas
35. explicando como fez sozinho a drenagem do terreno
36. caçoando do medo de voar: “Eu olho pra minha malinha, olho pro avião e penso: se cair, o prejuízo deles vai ser bem maior”.
37. a lembrança mais forte de Miguel: o vô o buscando na escola
38. vendo comigo um filme de terror na madrugada
39. comentando as pechinchas que conseguiu em compras e negócios
40. seus vasos, placas e bolas de cimento
42. sua discriçäo como confidente
43. sua sabedoria como conselheiro
44. congratulações aos genros e nora: “Parabéns pelo sogro que você tem”.
45. cumprimento maroto: “Deu pra sarar?”
46. para a neta quando era pequena:”Camilinha, eu gosto muito do vô, e você?” E ela: “Também!”
47. o desapego
48. jogo de paciência no computador
49. palavras cruzadas
50. “anjas”, “fìotas” (as netas)
51. um sonho de viagem: descer o rio Madeira até Manaus
52. um projeto da fábrica caseira: banquinhos de cimento
53. as aulas de ioga: ohmmm…
54. uma caminhada na praia e o inusitado convite pra passear nas dunas
55. nossos passeios de barco pela Lagoa da Conceição
56. almoços na praia do Pântano do Sul
57. ele e eu num trapiche do Ribeirão da Ilha comendo peixe no fim de tarde e tomando uma cachacinha artesanal
58. as histórias da Apae
59. as histórias do cooperativismo
60. dica: comer alho antes de entrar na mata pra evitar malária
61. dica: trilha na mata com um saquinho de açúcar e um de sal pra fazer soro
62. as vezes em que tirou meu carro velho do prego
63. passeio com a criançada nas dunas da Joaquina (um fim de tarde feliz)
64. música: “Deve haver um lugar bem distante/outra terra, outro céu, outro mar…”
65. quando eu chegava em sua casa: “Uma cerveja, mestre?”
66. os sorrisos de felicidade imensa no verão de 2007, quando a família se reuniu um mês inteiro em Floripa
67. a preparação da viagem, vendo mapas comigo, e os encontros que tivemos pelo caminho, até o último almoço no restaurante flutuante em Cuiabá (p.s.: a última vez que o vi consciente foi um pouco mais adiante, no portal turístico de Cáceres; papeamos sobre a cidade das pescarias, comemos sirigüelas, encontramos um besouro gigante e ele colocou um carrinho de brinquedo dos meninos ao lado do bicho pra eu fotografar).
Vá em paz, Augusto! O perfume da sua presença fica com a gente pra sempre.
09
Feb08
Adeus
Com tristeza informo que Augusto (Hideharu) Tuyama faleceu nesta sexta às 22h30, hora local, no hospital regional de Cáceres, MT. Em nome da família agradeço o carinho que vocês nos deram nessas sete semanas. Augusto era um homem feliz – nos disse isso várias vezes com palavras e gestos. Deixa quatro filhos, nove netos e muitos ensinamentos. Lembrem dele sorrindo.







