08
Feb08
06
Feb08
Notícias de Cáceres: dia 50
Hoje o acidente automobilístico sofrido por Augusto e Nilza completa 50 dias. A situação dele permanece grave, mas estável. Está inconsciente na UTI do Hospital Regional de Cáceres (MT). Na madrugada de 1 de fevereiro, teve parada cardíaca, foi reanimado e voltou ao respirador mecânico. No dia 2 teve outra arritmia, também controlada. Seu pulmão está com um dreno para retirar secreção. Vários reflexos continuam presentes. Há alguns dias ele encolheu as duas pernas – a primeira vez que fez esse movimento deste o início do coma. O susto da última semana foi superado, mas indica que é preciso esperar um pouco mais antes da transferência para uma enfermaria, como os médicos chegaram a cogitar.
01
Feb08
Dia 45: um susto
Ontem à noite Augusto teve uma arritmia cardíaca, possivelmente provocada pela sobrecarga dos pulmões pra respirar, pois ainda há muita secreção. Ele foi reanimado e colocado outra vez no respirador mecânico. Os médicos vão fazer um procedimento para drenar um pneumotórax – acúmulo anormal de ar entre o pulmão e a membrana (pleura) que reveste o tórax. Ele teve febre, mas foi controlada. Sua condição é estável agora. Hoje é o quadragésimo-quinto dia de coma. A batalha continua.
30
Jan08
Notícias de Cáceres, boletim de 30 de janeiro
Ontem, pela primeira vez, tivemos dos médicos um prognóstico de tempo de saída do coma de Augusto, embora seja ainda uma estimativa. Há sinais – reflexos, movimentos de membros, olhos e boca – de que ele pode despertar daqui a quatro semanas. Parece uma enormidade de dias a esperar, se a gente levar em conta que ele está inconsciente desde 18 de dezembro. Mas pra quem ainda não tinha qualquer perspectiva concreta de prazo, a notícia é muito animadora.
p.s.: Ele foi operado hoje. Mais uma pequena cirurgia pra drenar o líquido que se acumula sob a membrana dural. O procedimento foi bem sucedido.
29
Jan08
Revisão de uma lista de modestas intenções
Escrevi esta lista em 3 de janeiro de 2007. Hora de revisar.
Tenho uma só resolução para esse período que convencionamos chamar de ano novo: me tornar uma pessoa melhor. Isso garante tudo o mais. A lista abaixo não é de resoluções, e sim de modestas intenções.
1. Brincar mais com Miguel e Bruno.
Ok. Passei a trabalhar em casa e isso ajudou bastante.
2. Colocar Miguel na natação.
Ok. Foi uma das grandes conquistas do ano passado.
3. Voltar a nadar.
Em vez disso, comecei a praticar ioga. Nota dez.
4. Fotografar mais.
Ok. Comprei um câmera digital simples, mas que dá pro gasto.
5. Estudar Photoshop.
Pouco avanço. Em compensação passei a usar um ótimo editor de imagens gratuito, o Gimp.
6. Plantar mais árvores.
Plantei poucas, reguei muitas.
7. Fazer mais trilhas.
Falhei miseravelmente. Intenção renovada pra 2008. Comecei light, aqui em Rondônia, com uma trilha de 1 km pela floresta em Cacoal.
8. Reencontrar mais amigos.
Ok. Aliás, hoje acabo de reencontrar via Orkut o Atamir, amigo de adolescência lá de Natal, com quem eu não conversava há uns bons 15 anos.
9. Ler no mínimo 50 bons livros.
Não cheguei a contar quantos, mas acho que cumpri.
10. Concluir pendências de 2006.
Que pendências eram essas mesmo? Nada de importante, pelo visto.
p.s.1: Quanto a me tornar uma pessoa melhor, deixo essa avaliação pra quem convive comigo.
p.s.2: Fiz também cinco modestas intenções culinárias, mas o resultado ficou abaixo do esperado: consegui tomar menos café e comer mais verduras, mas não da nossa horta do quintal, que era muito pequena pra atender a demanda e terminou sendo tomada pelo mato.
26
Jan08
26
Jan08
Impressões sobre a angústia da madrugada
Um dia de cada vez. E uma noite no meio. Algumas são bem difíceis, principalmente quando a insônia ataca. Esta madrugada tive mais um flashback do acidente – às vezes isso me vem em sonho, às vezes acordado. O som da freada e do impacto, meus passos enquanto corria pro local, o resgate, as respirações ofegantes – naquelas horas críticas senti a audição ampliada e o tempo em exasperante câmera lenta. Tenho evitado comentar isso, mas o desabafo me ajuda a exorcizar a angústia. Ao olhar direto pros meus medos (= escrever sobre eles), me fortaleço. Espero que assim ajude os que também estejam precisando.
Fui pra sala. Eram três da manhã e abri o livro O carrasco do amor e outras histórias de psicoterapia, do psiquiatra Irvin D. Yalon (autor do excelente Quando Nietzsche chorou). Na introdução, ao abordar as dificuldades do duplo papel de observador e participante, ele cita uma frase que me chega como uma resposta de oráculo:
Ao escolher entrar completamente na vida de cada paciente, eu, o terapeuta, não somente fico exposto às suas mesmas questões existenciais como também devo estar preparado para examiná-las com as mesmas regras de investigação. Devo aceitar que conhecer é melhor do que não conhecer, aventurar-se é melhor do que não se aventurar; e que a magia e a ilusão, por mais magníficas e fascinantes que sejam, no final enfraquecem o espírito humano. Eu encaro com profunda seriedade as poderosas palavras de Thomas Hardy: “Se existe um caminho para o Melhor, ele exige uma visão completa do Pior”.
…
Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente tagarelar com simpatia e exortar os pacientes a se debaterem corajosamente com os seus problemas. Nós não podemos dizer a eles vocês e os seus problemas. Ao contrário, devemos falar de nós e de nossos problemas, pois nossa vida, a nossa existência, estará sempre presa à morte, do amor à perda, da liberdade ao temor e do crescimento à separação. Nós, todos nós, estamos juntos nisso.
As madrugadas insones, os sonhos e também o sono profundo que se segue a eles nos são dados pra que a gente possa lidar sozinho com nossos fantasmas. Sem essas pausas de aguda percepção e também de esquecimento, talvez a realidade se tornasse insuportável.
Depois de um tempo voltei pro quarto e fiquei no escuro, olhando os meninos. Ri sozinho, tinham invertido as posições: Miguel, que adormecera no lado esquerdo do colchão, agora estava no direito, e Bruno tinha passado do lado direito pro esquerdo. Deitei, apaguei e acordei às oito me sentindo bem mais leve. Estamos no caminho para o Melhor.
24
Jan08
Informe de Cáceres, 24 de janeiro
Como eu já tinha dito antes, Augusto teve alta da UTI, mas permanece lá aguardando vaga na enfermaria do hospital. Continua inconsciente. Nos últimos dias ele expeliu bastante secreção, mas as radiografias não indicam lesão nos pulmões. Hoje a quantidade de secreção é bem pouca – bom sinal, o corpo está fazendo a limpeza interna. A neurologista que cuidava do caso, doutora Olga, passou mal esta semana: teve um problema cardíaco e até precisou ser internada. Ela entrou de licença e foi substituída pelo marido dela, doutor José Roberto. Espero que ela se recupere logo. Ambos têm excelente reputação profissional e somos muito gratos ao apoio que têm nos dado. Uma nova tomografia foi solicitada pela médica de plantão.
Update 15h: uma segunda cirurgia para drenar o líquido que está sob a membrana dural vai ser realizada entre domingo e terça-feira.
23
Jan08
Mil tsurus

O tsuru – cegonha em japonês – é uma ave associada à juventude e à longevidade. É uma das figuras mais conhecidas da antiga arte do origami – dobradura de papel. Diz uma lenda que quem fizer mil tsurus, com o pensamento voltado para aquilo de deseja alcançar, vai alcançar seu desejo.
Uma história mais recente conta que em 1955, Sadako Sasaki, uma menina japonesa de 12 anos, teve leucemia por causa da radioatividade em Hiroshima. Sua amiga lhe contou a lenda e no hospital ela fez muitos tsurus, mas não conseguiu chegar a mil e morreu. Seus colegas de escola completaram o número e decidiram fazer uma campanha pra levantar um monumento em homenagem às crianças feridas ou mortas pelo efeito da bomba. Em 1958 foi construído em Hiroshima o Monumento das Crianças à Paz, também conhecido como Torre do Tsurus. Todos os anos, milhares de tsurus vindos de vários países são colocados no local.
Há uma semana a família Tuyama se inspirou na lenda e resolveu dobrar mil tsurus pela recuperação do marido, pai, avô e genro Augusto. Dobrar um tsuru não é coisa do outro mundo, mas também não é exatamente um trabalho fácil (colaborei mais nas primeiras fases da linha de produção, que requerem o mínimo da habilidade motora). Só que o entusiasmo com a tarefa foi tão grande que em poucos dias as mil aves de papel estavam prontas. Nem foi preciso seguir a sugestão do Carlos de fazer tsurus enormes valendo por dez cada um.
Agora eles estão sendo enfileirados em cordões e a energia gerada nesse esforço coletivo vai fazer seu efeito.
21
Jan08
Informe extra!
Augusto teve alta da UTI. Ele permanece em coma, mas já não precisa daqueles aparelhos todos. No momento não há vaga na enfermaria, então a transferência deve ser feita amanhã.
Update 23/1: Ainda à espera da transferência pra uma enfermaria.









