Posts com a tag ‘brasil’

01

Mar

08

A fantástica história do índio do buraco

A edição de 13 de janeiro da Washington Post Magazine traz uma grande reportagem do jornalista Monte Reel sobre os índios isolados no Brasil. Em especial, conta sobre o último remanescente de uma etnia desconhecida: um índio nômade que vive numa área de selva rodeada de fazendas, no sul de Rondônia. Não é novidade, sabe-se disso há mais de dez anos, mas a cada vez que leio, me encanto com a síntese que esse caso representa de tantas outras histórias envolvendo os primeiros donos da terra Brasil. Seus ingredientes incluem desmatamento, violência, grilagem de terra, corrupção, pressões políticas. Há também aventura, trabalho duro e paciente, reviravoltas, investigação, ciência e tecnologia – imagens de satélite, por exemplo, foram algumas das evidências utilizadas para identificar clareiras feitas pelo índio.

O índio solitário constrói cabanas improvisadas de palha e cava um buraco dentro delas pra se abrigar. Está em permanente fuga e evita o convívio humano, talvez por um forte motivo: há evidências de que seus parentes foram mortos por jagunços. Arredio e hostil, já atacou a flechadas os que chegaram muito perto. Entre seus pertences foi achado um pequeno arco que provavelmente pertenceu a uma criança.

Há dez anos, em janeiro de 1998, tive o privilégio de ouvir o início da saga do “índio do buraco” narrada por um dos principais personagens, o sertanista Marcelo dos Santos. Laura e eu passamos uma tarde conversando com ele na sua casa em Vilhena, Rondônia. Apaixonado pelo modo de vida dos indígenas, conviveu com os Nhambiquara, Mamaindê e Negarotê durante a expansão da fronteira agrícola para o Norte na década de 70. Na época em que o encontramos, Marcelo era chefe do Departamento de Índios Isolados da Funai no estado. Seu cotidiano era enfrentar dias de caminhada na selva, na tentativa de minimizar os danos do eventual contato dos nativos isolados com madeireiros e fazendeiros.

Marcelo foi um dos reponsáveis por contactar pela primeira vez os Kanoê, com somente cinco sobreviventes, e os Akuntsu, com seis. No mato ou nos gabinetes, não tinha papas na língua pra cumprir a missão. Era inevitável que entrasse em rota de colisão com corruptos do serviço público, fazendeiros gananciosos e políticos escroques. Mas voltando àquela tarde em Vilhena. Ele nos contou que fazendeiros locais tinham todo o interesse em fazer o “índio do buraco” desaparecer para evitar que a área fosse protegida como terra indígena. Por isso era imporrante documentar a existência do homem, respeitando o seu direito de permanecer isolado.

As únicas imagens disponíveis do “índio do buraco” foram obtidas depois de um susto: Marcelo e um amigo francês, o cinegrafista Vincent Carelli, se aproximaram de uma cabana onde havia sinal de vida e ficaram algumas horas tentando contato. De repente, Vincent se aproximou demais e o homem lá de dentro disparou uma flecha que passou bem perto do cinegrafista. Decidiram se afastar, mas antes amarraram a câmera ligada a um galho de árvore. Alguns minutos depois, aparecia o índio: nu, cerca de trinta anos, moreno, de bigode, segurando um arco. Desconfiado, saiu da cabana com cautela e desapareceu no mato. Com base nas imagens de vídeo e em indícios antropológicos – entre eles o de que houve um massacre de outros índios que também tinham o costume de fazer buracos no chão -, Marcelo conseguiu que a Justiça Federal concedesse liminar interditando uma área de floresta.

Seu empenho lhe rendeu inimigos poderosos. Foi considerado persona non-grata pela Assembléia Legislativa de Rondônia – para a maioria dos parlamentares, a atuação do sertanista atrapalhava o progresso. As pressões políticas o fizeram deixar o estado e sair da Funai. Mas veja as voltas que o mundo dá: em abril de 1999 ele foi condecorado pelo governo federal com a Ordem de Rio Branco, uma das mais importantes honrarias do país. Atualmente de volta à Funai, Marcelo é responsável pela Coordenação Geral de Índios Isolados – existem 46 informações sobre a possível existência desses índios, a maioria na Amazônia Legal. Graças às evidências que sua equipe recolheu em uma década, no ano passado o governo brasileiro finalmente declarou uma área de floresta mais de 20 mil acres como território protegido para o índio solitário.

Em janeiro de 2007, conta a matéria da Washington Post Magazine, uma expedição liderada pelo sertanista Altair Algayer, parceiro de longa data de Marcelo, se embrenhou na mata e encontrou sinais de que o índio continua vivo: restos de coleta de mel e uma cabana recém-construída. Desfecho feliz, por enquanto, para um símbolo de resistência.

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04

Feb

08

Frank Maia, o retorno

Frank retornou das férias no dia 31, sem motivo pra comemorações: a RBS fechou o AN Capital, suplemento do joinvilense A Notícia. Mais um passo na estratégia do grupo rumo ao monopólio do jornalismo impresso em SC (Cesar Valente, Carlos Damião e Rogério Christofoletti lamentam em seus blogs o fechamento do jornal; Jacques Mick conta como a RBS comprou A Notícia). Todos da redação foram demitidos, com exceção de Frank e de outros dois colunistas. Compreensível: desfazer-se de um dos maiores talentos brasileiros da charge seria uma insensatez para o negócio. Fevereiro começa com o clima pesado, mas pro artista do riso o show tem que continuar. Matéria-prima no noticiário não falta.

p.s.: Pros leitores de outros países ou planetas, o contexto da primeira e da segunda charge.

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24

Jan

08

Álcool nas estradas

Rogério Christofoletti faz um comentário lúcido sobre a decisão do governo de proibir o consumo de bebidas alcoólicas nas rodovias federais brasileiras.

Tenho visto e ouvido muita besteira nos últimos dias sobre a medida do governo que proíbe o comércio de bebidas em estradas federais. Tem chiadeira dos comerciantes, lei da mordaça entre os patrulheiros e algumas manifestações de motoristas. …

O governo está certo? Está. E a medida demorou. Deveria ter sido implementada antes, bem antes. O governo tardou em atuar. E agora, faz apenas o necessário, nada mais que isso. …

A proibição da venda de bebidas em estradas federais não é populista, nem moralista. As mortes no trânsito são questões de saúde pública. As estatísticas são suficientemente claras e trágicas. …

Concordo 100%. Não se trata aqui de uma lei que restrinja o direito individual de colocar a própria vida em risco, como pular de body-jumping ou tomar uma garrafa de uísque todas as noites na varanda de casa. É uma questão de saúde pública em que os infratores colocam em risco direto a vida de outras pessoas.

Não é preciso ser especialista em trânsito – basta ser brasileiro de estatura mediana – pra perceber um detalhe fundamental: só a lei, sem uma campanha forte de educação, periga não pegar. Uma campanha assim precisa ser sistemática (de longo prazo), de abrangência nacional (não só nas estradas federais, como bem coloca o Rogério) e com linguagens diferenciadas pra diversos públicos – motoristas, comerciantes, crianças e adolescentes.

As abordagens também precisam ser diferenciadas e complementares. Meu palpite é que informação sobre os riscos e sobre as punições aos infratores – ou mesmo a estratégia do choque, como outdoors mostrando carros esmagados – tem efeito limitado se não vier acompanhada de mensagens que incentivem comportamentos positivos. Por exemplo, o orgulho de contribuir para a fama do brasileiro como bom motorista (tou delirando?).

Tudo isso só caminha com a vontade política de todas as esferas de governo, o apoio maciço da mídia e o comprometimento coletivo. Mas o tamanho do desafio não deve desanimar. Um passo de cada vez. Espero que as estatísticas pós-carnaval possam indicar um avanço.

p.s.: Botelho, no comentário, toca num ponto fundamental: pra que a lei pegue, é preciso ter como fiscalizá-la. O efetivo da Polícia Rodoviária Federal no país é ridículo.

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08

Jan

08

Epifania na lama amazônica

Essa historinha é do início dos anos oitenta, tempo em que meu sogro Hideharu (Augusto) Tuyama fazia fretes na sua Toyota entre Rondônia, Amazonas e Acre. Na época das águas, muitas estradas da região ficam intransitáveis. As pessoas se sentem pequenas diante da força bruta da natureza e tendem a se irmanar no aperto. Nem todas. Algumas continuam se achando o máximo. Havia um caminhoneiro antipático, daqueles tipos que ignoram os outros e só querem levar vantagem. Ninguém gostava dele. Um dia o sujeito entrou num atoleiro fundo, achando que conseguia passar sozinho, mas ficou preso com lama até o eixo.

Os outros profissionais da estrada foram chegando e o comentário geral era mais ou menos nesses termos: – Deixa esse filhadaputa se lascar pra aprender. Augusto retrucou: – Vamos ajudar! Logo convenceu outras pessoas, arrumaram umas cordas e com esforço conseguiram rebocar o caminhão pra fora. O homem ficou tão agradecido e envergonhado que passou por uma transformação radical. A partir daquele dia ele se tornou um dos viajantes mais solidários, um dos que mais ajudavam os outros. Às vezes é preciso afundar na lama pra se limpar.

~

Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. (…)
Wikipedia

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06

Jan

08

Leia o Mundo, p.s.

Republiquei o post anterior porque eu tinha errado no título e no texto o nome do projeto: é Biblioteca Leia o Mundo, e não Veja como tava escrito. O link permanente pra vocês passarem o recado adiante passa a ser este aqui.

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06

Jan

08

Leia o Mundo e a magia dos livros

Ontem visitamos a Biblioteca Leia o Mundo. É um projeto social desenvolvido no bairro Bom Jardim pela Afeerm – Associação das Famílias, Educadores e Educandos de Rolim de Moura (Rondônia). A iniciativa nasceu em 2001 como biblioteca itinerante que percorria comunidades pobres pra despertar nas crianças e adolescentes o gosto pela leitura (na época o material foi transportado várias vezes por meu sogro Augusto na carroceria da sua Pampa). Chegou a ser premiada pela revista Nova Escola e saiu numa reportagem da Folha de S. Paulo. Os cinco mil reais do prêmio e as doações de livros deram fôlego à pequena biblioteca, que há dois anos ganhou espaço fixo em um salão da prefeitura.

Esta semana chegou luz elétrica, importante avanço na estrutura precária – faltam banheiro e água encanada, o acervo é limitado, não há gente suficiente pra abrir as portas por mais tempo. Mesmo assim, Leia o Mundo já faz diferença no cotidiano de Bom Jardim, onde as opções de lazer e acesso a livros são quase inexistentes. O bairro é a cara do Brasil esquecido pelo país oficial: um conjunto de casas-caixotes de alvenaria, concebidas com recursos federais pela mente de algum arquiteto sádico – muitas têm puxadinhos nos fundos pra suprir a falta de espaço. Ruas esburacadas de barro vermelho, nada de saneamento. Jovens desempregados nas esquinas, mulheres com bebês no colo, crianças brincando por aí enquanto os pais tentam ganhar a vida. Fomos recebidos com muita simpatia pelos moradores.

Assim que a Valdete, presidente da Associação, abriu as portas da biblioteca, a criançada foi chegando como se atraída por mágica. Logo o ambiente era de festa. Uns meninos sentavam em banquinhos pra ler revistas em quadrinhos. Dois irmãos tentavam decifrar palavras: – Olha, tio, ele já sabe ler a palavra osso. E o pequeno, orgulhoso: – Eu tenho quatro anos, mas já vou fazer cinco. Outros mexiam nas estantes e brincavam de se esconder entre os livros. Os menorzinhos pediam papel pra desenhar – papel é material escasso aqui – e enfeitavam os braços com carimbos. Um miúdo fazia a percussão, batendo com uma colher numa panela vazia. Três adolescentes montavam um jogo de palavras cruzadas com peças móveis.

Leia o Mundo é fruto de vontade e idealismo de muita gente. A Afeerm ainda está em processo de formalização como OSCIP, pra que possa receber recursos públicos. O pessoal tem planos de melhorar o acesso à casa, construir um sanitário, instalar tevê e computador, catalogar as obras. A cada dia é adicionado um tijolinho a mais. Entre as obras encontrei Garcia Marquez, Agatha Christie e Julio Verne. Esses escritores iam gostar muito de saber que podem ser lidos no interior de Rondônia.

Na sua casa tem algum livro ou revista pra passar adiante? Pode ser leitura pra adulto, adolescente ou criança. Que tal dar uma força nesse projeto? É muito pouco pra quem dá e tem valor enorme pra quem recebe. Você pode colaborar enviando doações de livros e revistas pra

Biblioteca Leia o Mundo (a/c Valdete ou Ivone)
Rua das Violetas, 6744, Bom Jardim, Rolim de Moura-RO
CEP 78987-000

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14

Dec

07

Pausa pra pegar a estrada

Cada maluco com seu jeito de descansar. A partir deste sábado vou atravessar o Brasil de carro com a família. São uns 3.000 km de estrada de Santa Catarina até Rondônia, cruzando Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Sem pressa, mas sem atravancar o trânsito. Certamente não vai faltar conexão banda larga pelo caminho, mas resolvi ser um cara offline por uns dias. No devido tempo as anotações do diário de bordo vêm pra cá. Aos que me devem alguns caraminguás, favor depositar assim que possível. Credores, não tenham pressa, a gente volta a conversar em 2008. Leitoras e leitores, amigas e amigos, irmãos, primos, sobrinhos e agregados, um ótimo Natal pra vocês!

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09

Dec

07

Os autonautas da cosmopista

Li faz tempo e gostei muito de Os autonautas da cosmopista. Julio Cortázar e Carol Dunlop passaram um mês viajando em um carro-casa pela rodovia Paris-Marselha, que pode ser percorrida em cinco horas. “A estrada deixa de ser um percurso para tornar-se o destino da viagem”, diz a sinopse da Editora Brasiliense. Esse é o meu tipo de viagem – guardadas as proporções pras distâncias enormes do Brasil. E a contagem regressiva já começou.

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08

Dec

07

Nelson Motta na Folha de sexta

Metamorfose ou ouro de tolo?

SALVADOR – Quem diria, o anárquico fanfarrão Raulzito virou lição de filosofia política na boca do presidente da República, que sempre tem opinião formada e categórica sobre tudo. Seria um grande desgosto para ele ouvir a sua libertária “Metamorfose ambulante” a serviço da CPMF e das mudanças de opinião de quem, na luta pelo poder, fez de tudo para passar de pedra a vidraça.
Raul cantava a liberdade da dúvida e da contradição, da inteligência em movimento, em plena ditadura militar, quando a opinião só podia ser radical e estática: contra ou a favor. A ditadura proibia as opiniões contrárias; a oposição proibia mudar de opinião, sob a suspeita de estar servindo à direita ou para levar vantagem pessoal, como sempre.
A esquerda nacionalista sempre desprezou o “americanizado” Raul Seixas: ele era incontrolável, individualista e anárquico, detestava partidos, igrejas, instituições, torcidas, escolas e blocos. E certezas. Mas driblava a censura e ridicularizava os sonhos de felicidade da classe média governista, no “milagre brasileiro” dos anos de chumbo, com “Ouro de tolo”, aquela que diz: “eu devia estar contente /porque tenho um emprego, /sou um dito cidadão respeitável/…
O baiano Raul, auto-intitulado “um magro abusado”, desempenhou com grande coragem, independência e custo pessoal o papel de mosca na sopa dos que têm opinião formada sobre tudo, de esquerda, de direita e de centro, e debochava dos que pensam por slogans e palavras de ordem e mudam de opinião de acordo com os interesses de suas causas, chefes e bolsos.
Quem diria que as palavras de Raul serviriam para legitimar algumas das coisas que ele mais abominava. Coitado, virou camiseta de Che Guevara. O magro abusado não merecia esse abuso.

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25

Nov

07

Ano de mudanças

Informo aos parceiros e clientes que desde 1º de novembro não faço mais parte da equipe do Instituto Observatório Social. É uma “separação amigável”, em que tomei a iniciativa de sair da minha zona de conforto pra enxergar outros horizontes. Foram cinco anos e um mês de aprendizado intenso sobre os direitos fundamentais dos trabalhadores e sobre como funcionam as multinacionais. Por meio do IOS fiz grandes amigos e conheci ativistas extraordinários em direitos humanos. Também vivi situações especiais que me ajudaram a compreender melhor o Brasil.

Como vou esquecer daquela noite de lua e fogueiras numa comunidade quilombola em Alcântara, Maranhão, onde o ritmo ancestral do tambor de crioula me hipnotizou? Das complexas negociações de acordos coletivos com empresas multinacionais? Da comunidade do conjunto Palmeira, em Fortaleza, usando o dinheiro “palma” em um projeto inovador de economia solidária? Das conversas com plantadores de café no Espírito Santo, com cortadores de cana no interior de São Paulo, com crianças em uma escola de circo na periferia de Recife?

Em duas décadas na profissão, o IOS foi o lugar onde mais tive liberdade de exercer o jornalismo com plenitude (eu ia escrever “jornalismo investigativo”, mas é quase uma redundância). E o melhor, com uma equipe azeitada e bem-humorada – as gargalhadas eram nosso antídoto contra o estresse. Os frutos vieram: em apenas 11 números de existência, a revista do IOS foi reconhecida com um prêmio Esso e duas menções honrosas no prêmio Herzog de direitos humanos. É possível, sim, fazer bom jornalismo com pouca grana e fora da grande mídia.

Quando eu disse tchau pros colegas, comparei minha saída com o momento em que se deixa a casa da família. Por um lado fica aquele aperto no coração, a saudade e lembranças do bem vivido. Por outro, entro num estado de excitação criativa pelo que vem. Vou continuar prestando consultoria e serviços eventuais ao IOS. Mas também é hora de meter a mão em outras mídias, xeretar novos ambientes e temas, cavoucar na terra preta do quintal, pegar a estrada. Obrigado, amigos e amigas, pela convivência.

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