08
Jun09
Os homens que não amavam as mulheres
Mikael Blomkvist é jornalista de economia em Estocolmo, quarentão, coproprietário da revista Millenium e especialista em reportagens investigativas sobre crimes financeiros. Lisbeth Salander é uma punk de vinte e poucos anos, exímia hacker, que trabalha como araponga freelancer. Esses dois personagens são protagonistas do primeiro livro da trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson. Os homens que não amavam as mulheres (Companhia das Letras, 2008) é um romance de suspense de qualidade excepcional. Suas 522 páginas conduzem o leitor por uma trama de investigação do desaparecimento de uma adolescente, integrante de uma dinastia industrial sueca, ocorrido em 1966. A missão, que transforma os dois personagens em aliados, é desvendar uma intrincada rede de conexões que envolvem violência contra mulheres, lavagem de dinheiro, conflitos familiares e bizarrices sexuais.
Questões éticas do jornalismo investigativo associadas aos meandros dos crimes financeiros e das novas tecnologias estão na pauta do romance. O principal dilema enfrentado pelo protagonista é: até que ponto uma informação socialmente relevante deve ser levada a público, quando se sabe que essa revelação pode prejudicar a vida de muitas pessoas? Outra questão que ele enfrenta é sobre o uso de práticas ilegais pra levantar informações que vão embasar uma reportagem sobre um criminoso. Lamentavelmente, a trilogia não vai ter continuação. Larsson, um influente jornalista e ativista político sueco, morreu de ataque cardíaco em 2004 aos 50 anos, pouco depois de entregar os originais aos seus editores. A segunda parte da trilogia, A menina que brincava com fogo, foi lançada em português em abril.
26
May09
O conteúdo das faculdades de jornalismo
O Christofoletti dá a dica, em seu blog, de um excelente artigo de Eugênio Bucci, As faculdades de jornalismo e seu conteúdo, publicado hoje no Observatório de Imprensa. Bucci aprofunda as sugestões que apresentou à comissão que estuda a reforma nas diretrizes curriculares pros cursos de jornalismo. Também aborda de passagem três dimensões da atual crise na profissão: a agonia dos jornais impressos, o vazio jurídico criado com a extinção da Lei de Imprensa e o debate sobre a extinção da exigência do diploma. Ele propõe a articulação do novo currículo em torno de sete eixos:
- Linguagens.
- Democracia e Liberdade.
- Estudos da Comunicação.
- Humanidades.
- Reportagem.
- Cultura e Crítica.
- Gestão e Negócio.
Trechos:
… Além das diretrizes propriamente ditas, ela [a comissão] se viu instada a lidar com outra variável, sugerida pelo próprio ministro da Educação: a de abrir a possibilidade para que pessoas já graduadas por outras faculdades se formem também em jornalismo por meio de um segundo bacharelado, abreviado, mais curto. Teríamos, assim, um curso rápido (de um ou dois anos) para que engenheiros, médicos, economistas, sociólogos, advogados e outros se tornassem também jornalistas. A idéia é boa – é mesmo o caso de dizer que ela é necessária para a melhoria geral da profissão no país. O problema da comissão, um problema espinhoso, é encontrar um modo de colocá-la de pé sem melindrar seriamente o corporativismo. …… Adolescentes que chegam aos bancos do ensino superior movidos por seus sonhos puros e grandiosos encontram verdadeiros paredões de pessimismo e acidez. A marteladas, são forçados a se convencer de que o jornalismo não melhora o mundo, não muda a vida, não traz realização pessoal: é meramente uma ferramenta nas mãos das “elites” perversas que se dedicam sem descanso a dominar corações e mentes. O jornalismo seria a arte de tecer mentiras a favor da “classe dominante”. Em pouco tempo, esses meninos são intimados a se envergonhar, a se arrepender de suas aspirações de criança e, sem perceber, passam a carregar a cruz ressentida das gerações que lhes deveriam servir de inspiração e encorajamento. Em alguns casos, as salas de aula se converteram em câmaras de triturar esperanças e utopias pessoais. Muitas vezes, ensinam a criticar (muito mal e precariamente) a imprensa, mas não estimulam (nem ensinam) a fazer imprensa. É uma pena. …
… Infelizmente, temos visto turmas e mais turmas feridas pelas “desilusões perdidas”, desilusões dos outros, em ambientes que não cultivam o orgulho próprio, que não cultivam a confiança na enorme diferença que uma história bem contada pode fazer no destino de uma pessoa, de uma comunidade, de um país. O jornalismo, muito mais do que o samba, é um privilégio. Por maiores que sejam as crises. É isso o que deveria ser ensinado nas escolas de jornalismo, nosso colégio. Mas não é. Olho em volta e, exceções à parte, não vejo altivez, não vejo convites ao talento, não vejo vibração. …
28
Apr09
A farra continua
“Câmara paga passagens para ex-deputados”. Tá no Congresso em Foco, site noticioso online que primeiro levantou a treta e foi repercutido por toda a grande mídia. A série é de autoria do meu amigo Lúcio Lambranho (ex-aluno do curso de jornalismo da UFSC, onde nos conhecemos) junto com Edson Sardinha e Eduardo Militão. Na lista de ex-deputados que utilizaram a mamata, nomes como o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz (PT-DF), o atual vice-governador de Mato Grosso do Sul, Murilo Zauith (DEM), e o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).
01
Apr09
Jornalismo da UFSC, 30 anos
No dia 30 de março o curso de Jornalismo da UFSC comemorou 30 anos. Tive o privilégio de conviver por seis anos intensos – 1986 a 1991 – com um grupo espetacular de pessoas, entre colegas estudantes, professores, funcionários e agregados. Convivência intensa, às vezes conflituosa, como costuma acontecer com gente assertiva e apaixonada pelo que faz, mas sempre enriquecedora. Com leituras densas (sei, podiam ter sido mais), muita ralação e também muita festa – a síntese disso eram os baixamentos do (multipremiado) jornal-laboratório Zero, em que virávamos a madrugada até concluir todas as páginas.
Não pude ir à cerimônia, mas acabo de receber por e-mail o discurso do professor Paulo Brito, um dos pioneiros do curso, com as memórias dessas três décadas. Suas palavras emocionadas me despertam outras lembranças dessa época maravilhosa, cheia de descobertas e alumbramentos com a profissão. O curso de jornalismo despertou meu fascínio pelo cinema, pela fotografia e por outras áreas das ciências humanas. Lá pude contar com a generosidade e paciência de muitos mestres, com anos de estrada e leituras. Ganhei grandes Amigos, com quem convivo até hoje. O curso foi fundamental na minha formação – embora não a única fonte, pois antes fiz dois anos na UFRN, em Natal, e enquanto estudava na UFSC trabalhei como revisor e repórter no jornal O Estado, outra grande escola.
No momento em que escrevo, o Supremo Tribunal Federal debate o fim da exigência do diploma de jornalista pro exercício profissional. Dia de temperatura alta, com debates acirrados. Sou a favor da regulamentação da profissão, pelos argumentos expostos com brilhantismo neste texto do Cesar Valente. “Aquela lenda urbana, segundo a qual jornalismo se aprende fazendo, não se sustenta”, diz ele, e assino embaixo. Nas redações falta tempo de reflexão, de debate e aprofundamento. Outra grande falácia é que a regulamentação atentaria contra a “liberdade de expressão”. Basta abrir os jornais pra ver como isso é falso. Claro que, pra ser bom jornalista, o diploma não é suficiente. É preciso – citando o César – da “centelha que alumia o tesão”. Mas a desregulamentação da profissão não traz qualquer benefício pra sociedade. Pelo contrário, só favorece as grandes empresas de mídia. Aguardemos a decisão do STF.
UPDATE 2/4/09: Sessão adiada pra 15 de abril.
27
Mar09
Lao Wai
Terminei de ler Lao Wai – Estrangeiro (Editora Letras Brasileiras, 2008), narrativa da jornalista Sônia Bridi sobre os dois anos em que ela viveu na China como correspondente da Rede Globo. Muito bom! Texto saboroso e bem humorado em primeira pessoa, riquíssimo em informação e histórias sobre esse país fascinante. Comentei no Leiturama.
22
Mar09
Crônica de uma Catástrofe Ambiental
Crônica de uma Catástrofe Ambiental é uma reportagem multimídia da revista Fórum sobre o derramamento, pela empresa Servatis, do perigoso agrotóxico endosulfan num afluente do rio Paraíba do Sul, que matou milhares de toneladas de peixes e pode ter contaminado milhões de pessoas. O caso aconteceu no dia 18 de novembro de 2008. Vale conferir, não só pela extrema relevância do assunto (pode ter afetado a água consumida por 80% da população do estado do Rio), como pela maneira como a reportagem foi construída pelos jornalistas André Deak e Paulo Fehlauer utilizando os recursos da internet. O site, baseado em WordPress, traz textos, fotos, áudios, vídeos e um mapa interativo.
“O conteúdo está disponível para download, remixagem e republicação, sob licença Creative Commons. Acreditamos trazer assim mais transparência ao processo de produção de conteúdo jornalístico. O making of da reportagem especial está sendo produzido pelo André e publicado em seu blog: http://www.andredeak.com.br/2009/03/21/making-of- A reportagem também está na edição impressa da revista Fórum, já nas bancas”.cronica-de-uma-catastrofe- ambiental/
20
Mar09
As marolas do jornalismo alternativo
Recebi hoje uma mensagem do amigo Marques Casara que me deixou muito contente. Não sou de ficar relembrando sucessos passados, mas, mesmo correndo o risco de me acharem cabotino, quero compartilhar esta memória aqui – em especial com quem está começando como repórter e sente desânimo com as perspectivas da profissão.
Quase cinco anos depois, é um registro de que o jornalismo pode contribuir pra um mundo melhor. Neste caso, correndo por fora da mídia hegemônica, numa publicação de terceiro setor que teve tiragem de apenas 4 mil exemplares. Às vezes uma marolinha faz coisas que a gente nem imagina. O e-mail foi dirigido a mim e ao repórter fotográfico Sérgio Vignes, parceiro meu e do Marques nessa reportagem.
Caríssimos,
um registro para vossas memórias:
Quarta-feira, auditório da Bolsa de Valores de São Paulo. Todas as poltronas ocupadas, engravatados se espremem na porta. A estimativa era a de que 20% do PIB brasileiro estava presente. Tema do encontro: erradicação do trabalho escravo na cadeia produtiva das empresas. Atualmente, 160 grandes empresas são signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
Abertura do evento: Caio Magri – Instituto Ethos.
Faz a apresentação e avisa que diversas empresas vão apresentar “cases” sobre como estão enfrentando o problema na cadeia produtiva. Última fala de Caio Magri:
“É necessário fazer um registro. Tudo isso está acontecendo e nós todos só estamos aqui hoje porque, em 2004, o Instituto Observatório Social publicou uma corajosa reportagem sobre o trabalho escravo na cadeia produtiva do aço. A partir daquela reportagem houve uma grande mobilização, houve o lançamento de um primeiro Pacto em Brasilia e que culminou com o Pacto que hoje está em vigor e que nós vamos conhecer aqui na Bovespa”.
Na platéia, Paulo Vanucci, ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, a cúpula da Bovespa, direção da Petrobrás, grandes siderúrgicas, as maiores cadeias varejistas do país.
Contem para seus netinhos porque vocês merecem.
abraços
Marques Casara
Papel Social Comunicação
p.s.: A “marolinha” foi a reportagem Escravos do Aço [pdf], que publicamos em junho de 2004, mostrando como as siderúrgicas se beneficiam do trabalho escravo em carvoarias da Amazônia.
p.s.2: Mais sobre trabalho escravo (e links pra outras fontes) aqui no blog.
19
Mar09
Bolsa de Pesquisa
Fiquei bem contente com a notícia que li no blog do Christofoletti: um projeto da Zeca Baldessar foi um dos nove selecionados pela UOL Bolsa de Pesquisa, para incentivar o desenvolvimento de tecnologias e conhecimento de ponta sobre a internet. Ela vai pesquisar O leitor e sua relação com três características do jornalismo online: a interatividade, hipertextualidade e a multimidialidade.
05
Mar09
A farra das passagens e o homem da mala
Mais um “homem da mala” na política brasileira. A reportagem do Congresso em Foco é do amigo Lúcio Lambranho, repórter dos bons, que está sempre farejando histórias quentes (no ano passado ganhou um Prêmio Herzog). Congresso em Foco agora tem como diretor de redação o brilhante jornalista Eumano Silva (coautor do livro-reportagem Operação Araguaia). É um oásis de jornalismo investigativo em meio à pasmaceira geral da mídia reprodutora de releases.
Câmara paga passagem de colaborador de Fernando SarneyPolícia Federal investiga um misterioso bilhete aéreo usado por ex-assessor do Senado para levar mala até São Paulo
Lúcio Lambranho
As investigações da Operação Boi Barrica, da Polícia Federal (PF), chegaram a uma inesperada conexão no Congresso. Um ex-assessor do Senado vigiado pela PF levou uma mala de Brasília para São Paulo, no dia 19 de julho do ano passado, a pedido do empresário Fernando Sarney. A Câmara pagou a passagem, emitida nas cotas dos deputados Carlos Abicalil (PT-MS) e Valadares Filho (PSB-SE).
O homem seguido pela PF se chama Marco Antônio Bogéa. Além de colaborador de Fernando Sarney, Bogéa foi funcionário terceirizado na função de assistente de produção da TV Senado entre os dias 16 de junho de 2004 e 13 de junho de 2007. A descoberta da PF mostrou um pouco mais do complexo mundo do sistema de cotas das passagens aéreas disponível aos parlamentares. Os delegados responsáveis pelo caso acabaram revelando o uso indevido das cotas. (…)
11
Feb09
Algumas considerações sobre a vida de frila
Maurício Oliveira escreveu um excelente texto em seu blog Vila de frila, com dicas pra quem quer enfrentar os ônus e bônus do jornalismo profissional sem as amarras da carteira assinada. Destaco dois itens:
…
- A diversidade e solidez dos meus contatos atuais me dão segurança suficiente para um privilégio: se alguém com o qual nunca trabalhei me procura, só aceito o frila se for divertido ou bem remunerado – ou, melhor ainda, as duas coisas ao mesmo tempo. Trabalho chato e mal pago só topo fazer, e ainda assim muito de vez em quando, para os camaradas de longa data.
- O que escrevi acima tem a ver com a necessidade que sinto hoje de selecionar os frilas, por limitação de tempo, mas aprendi na prática que o trabalho chato ou mal remunerado de hoje pode propiciar o trabalho legal e bem pago de amanhã. Já tive provas disso inúmeras vezes.
…
Hoje faço frilas em período parcial, mas já passei um bom tempo vivendo profissionalmente assim como o Maurício e asseguro que suas orientações são preciosas. Entre as vantagens da vida de frila estão a deliciosa liberdade, conquistada com tempo e suor, de dizer não aos trabalhos chatos e mal pagos (com a ressalva que ele bem faz), gerir os seus próprios horários e – importante – se pautar em projetos próprios, autorais.
O outro lado da moeda é o que Maurício destaca no título do post: a insegurança. Sim, às vezes a vida de profissional liberal pode ser uma montanha-russa que alterna meses de altos rendimentos com outros de vacas magras. Reflexão zen: vida de frila é pra quem tem estômago forte pra aceitar o fato de que a estabilidade é uma ilusão (quem lhe garante que, num emprego fixo, amanhã o seu chefe não acorde de mau humor e lhe dê um pé na bunda?)
Se, mesmo sabendo da “instável” vida de frila, você quer entrar nessa, posso acrescentar alguns pitacos, sem a menor pretensão de achar que estou ensinando regras pétreas. São constatações sobre coisas que valem pra mim (ou deveriam, pois nem sempre consigo abraçar todas como gostaria) e talvez possam servir pra você:
- Faça uma poupança com uma parte da renda, o seu “Fundo de Garantia”. Assim dá pra atravessar as entressafras sem muito estresse.
- Inclua na sua remuneração um valor que cubra o que você teria de rendimento com férias, décimo-terceiro, participação nos resultados etc.
- Separe o dinheiro dos impostos. Gastá-lo como se fosse seu pode ser doloroso depois.
- Os três itens anteriores (fáceis de falar, difíceis de pôr em prática) levam a este: aprenda a cobrar o valor justo. Nem demais que afaste clientes, nem aviltante com o seu trabalho.
- Regue a network. Uma boa rede de contatos, alimentada pelo interesse genuíno nas pessoas e não por intenções imediatistas, é meio caminho andado.
- Desconcordando em parte com o Maurício: reconheço que ser generalista pode ser vantajoso, pois abre o leque de opções. Mas ter uma ou mais especialidades pode ser útil pra atingir certos nichos.
- Amplie o horizonte. O teletrabalho chegou pra ficar. Talvez a oportunidade que não aparece na sua cidade ou estado esteja logo ali, e você nem precise se mudar pra São Paulo pra chegar lá.
- Desenvolva a disciplina. Este é um dos mais valiosos atributos do bom frila. Não só pra levar a bom termo os trabalhos espinhosos, que exigem dedicação em madrugadas, domingos e feriados, como pra administrar com sabedoria o tempo e os rendimentos.
- Continuação do anterior: cumpra os prazos e compromissos. Claro que, com os imprevistos, os deadlines podem ser repactuados com o cliente, mas essa relação precisa ser clara e transparente desde o princípio: o que fazer, como, por quanto, data da entrega e data de pagamento.
- Juntou grana suficiente pras férias? Agende-se e tire férias!
- Crie um “dia desplugado”. Ainda preciso me esforçar nesse ponto, mas tenho tentado dedicar o sábado exclusivamente a assuntos não-profissionais. A ideia básica é que, se você não consegue parar nem um único dia da semana, está faltado algum planejamento.
Fico aqui por enquanto, mas adoraria continuar esse papo com outros profissionais frilas, que certamente têm boas ideias pra compartilhar. Quais são as suas dicas?







