25
Feb09
Frase da vez, hoje e sempre: wasted time
Esta aqui bem que podia ser um mantra pra mim. Peguei no blog zenhabits:
“The time you enjoy wasting is not wasted time.” – Bertrand Russell
24
Feb09
Recordações de Quarta-Feira de Cinzas
Já fui bastante ligado em Carnaval. Não em clubes ou em de escolas de samba, e sim na festa de rua. Tenho belas lembranças dos blocos de sujos de Recife e Olinda da minha infância. Meus pais eram carnavalescos ativos e aqueles dias eram de uma deliciosa alegria ingênua. Primeiro, o “esquenta” em casa, com amigos e agregados. Depois saíamos atrás da muvuca nos bairros e no centro histórico. À noite os adultos deixavam as crianças em casa e iam pros bailes a fantasia, então dessa parte não tenho o que contar. Uma brincadeira comum naquele tempo era jogar água nos motoristas que passavam, usando uma espécie de “seringa” feita com um cano de PVC, um cabo de vassoura como êmbolo e um pedaço de borracha (depois foi proibida porque começaram a usar água de sarjeta e mijo, o que às vezes resultava em facadas e tiros, mas isso foi bem depois). O ritmo das bandas de frevo percorrendo a pé as ladeiras de Olinda reverberava em cada célula do corpo. As fantasias impressionavam pela criatividade. Lembro que o número de brigas era mínimo, considerando a quantidade de gente circulando.
Depois, na adolescência, descobri outros carnavais e já preferia me divertir com os amigos. Em fevereiro de 1982, aos 16 anos, fui acampar com meu irmão André e os amigos Marcello, João Augusto e Atamir em Barra de Maxaranguape, uma vila de pescadores no litoral potiguar, a uma hora de Natal. O lugar tradicionalmente pacato virava uma ferveção, tinha até trio elétrico. Andávamos descalços nas ruas de areia branca da vila, tomávamos banho de mar e misturávamos bebidas, pulando de festa em festa, dia e noite. Pra dormir, nos dividíamos: uns numa barraca no acampamento que montamos na praia, outros dentro duma Variant velha e quem sobrasse deitava numa rede no chão fofo ou ia dançar mais um pouco. Ali pertinho, a foz de um rio ladeado de coqueiros. Todos éramos lisos e desajeitados nas artes da paquera, mas tínhamos fígados novinhos e tamanha fome de viver que aquela folia entrou pra nossa história. Rolou até um diário coletivo em que íamos registrando as loucuras e piadas. Até hoje sou amigo desses caras. A gente raramente se vê, mas quando se encontra, é quase como se aquele carnaval tivesse sido ontem.
Depois disso houve vários carnavais, nenhum tão lindo, mas tiveram seu valor (destaques pra Olinda, Floripa e Laguna, em que a alegria caótica das ruas me ajudou a lidar melhor com pequenas e grandes tristezas). Aí o tempo foi passando, vieram os filhos, a preguiça aumentou exponencialmente. O fato de viver no Sul, há mais de duas décadas longe das minhas raízes carnavalescas nordestinas, talvez tenha contribuído pra esse afastamento gradativo. Agora deixo a folia passar ao largo e aproveito pra descansar, pegar praia, botar as leituras em dia. Com uma pontinha de saudosismo pelos meus velhos carnavais, mas sem a ranzinice de achar que “antigamente era melhor”. Como diz mestre Paulinho da Viola, meu tempo é hoje. Sem esquecer que o tempo passado “foi um rio que passou em minha vida/e meu coração se deixou levar“.
17
Feb09
De volta à piscina
Voltei à natação, depois de uma longa temporada afastado. No primeiro dia nadei mil metros e fiquei todo contente. Na saída da piscina, um homem com uma perna só comentava: “Nadei 2.100 metros”. Tenho um longo caminho pela frente, pensei, entrando no chuveiro.
17
Feb09
Anotação de leitura: "tempo livre"
Alex Castro, no blog Liberal, Libertário, Libertino, cita Adorno:
As pessoas realmente livres não têm “tempo livre” porque não têm “tempo preso”: estão sempre trabalhando em seus próprios projetos pessoais.
São preciosas essas reflexões do filósofo alemão sobre tempo livre e, por extensão, à servidão voluntária à qual a maioria das pessoas se submete. A existência do sábado e do domingo como oposição prazerosa a cinco dias “úteis”, e de um mês de férias a cada ano “produtivo”, às vezes chega a parecer tão natural que nem lembramos disso como invenção humana.
Admiro quem consegue romper com essa lógica e valoriza o próprio tempo de maneira a lhe dar sentido. Alguns com mais equilíbrio, combinando diversão e trabalho com arte e engenho. Outros de maneira atabalhoada ou instintiva, em que a simples negação do sistema os livra de um fardo insuportável, mas os coloca em situação vulnerável, tendo de bater de frente com a sociedade que abomina os “losers”.
Esse assunto me lembra um livro de Somerset Maugham, O fio da navalha. Larry, o protagonista, resolveu viver a vida conforme seu desejo de realização plena, e não a vida que estava moldada pra ele pelo seu meio social. O tema da impermanência também se faz presente:
Mesmo que ao meio-dia a rosa perca a beleza que teve na madrugada, sua beleza naquele momento foi real. Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos. Se a mutabilidade é da essência da existência, nada mais natural do que fazer dela a premissa da nossa filosofia.
09
Feb09
Augusto Tuyama, um ano de saudade
Ontem fez um ano que Augusto Tuyama nos deixou. Quase tudo o que eu tinha a dizer sobre essa tragédia familiar já está aqui no blog – provavelmente o meu desabafo tenha sido fundamental pra que eu conservasse o equilíbrio. O tempo vai transformando a dor em saudade suave.
Nos primeiros meses eu acordava de madrugada revivendo o acidente e as horas intermináveis do resgate. Cheguei a pensar que iria precisar de ajuda profissional – confesso que ainda não afastei essa ideia de vez, mas tou tentando me curar de outras formas.
Nas horas angustiantes, procuro o sossego das árvores, das plantas que o meu sogro tanto amava. Lembro dele dando risada, contando histórias divertidas ou escutando com gentileza. A maneira livre, desapegada, aventureira e generosa com que Augusto Tuyama viveu é um exemplo que vou guardar pra sempre. Tê-lo conhecido foi uma experiência transformadora.
01
Feb09
43 verões
Curti o aniversário ontem no sossego de casa, com a amada, os filhotes e a sogra querida. Na hora do almoço demos um pulinho ao Pântano do Sul pra comer peixe frito no restaurante Ana Maria, olhando os barquinhos na enseada. Depois, banho de mangueira no quintal com os meninos, rede, leituras. À noite um cineminha com a Laura. Aliás, cinemão: O curioso caso de Benjamin Button, com Brad Pitt e Cate Blanchett (magníficos), bela fábula sobre um homem que nasce velho e vai ficando jovem à medida que o tempo passa. Não rolou cerveja nem festa – só uma rápida visita do Frank e da Anninha voltando cansados da praia (Frank, abri o vinho hoje, tá o bicho!) -, mas foi tudibom, um dia suave, quente e preguiçoso. Os melhores presentes foram os telefonemas e as mensagens que recebi de um monte de gente boa. Palavras de encher os olhos dágua. Valeu, pessoal! A amizade de vocês é preciosa.
25
Jan09
O filho eterno
Terminei na sexta-feira, voando entre Brasília e Floripa, O filho eterno, de Cristovão Tezza. Melhor livro que li no ano. Ok, ainda estamos em janeiro, mas vai ser preciso outro muito bom pra mudar minha opinião até dezembro. A história, contada na terceira pessoa, tem fundo autobiográfico: um escritor tem um filho com síndrome de Down e narra a dificuldade que enfrentou pra aceitar a criança. É um relato corajoso, pois ele conta coisas que dificilmente um pai confessaria em público. Por exemplo, que no começo desejou que o bebê morresse, e que por muito tempo teve vergonha de comentar sobre o filho com os amigos. Aos poucos ele vai aprendendo com as dificuldades e se conhecendo melhor enquanto educa o menino e o vínculo entre eles vai aumentando.
Tezza é catarinense, amigo da querida Regininha Carvalho – foi no blog dela, atualmente desativado, que li a primeira resenha sobre o livro – e vive em Curitiba. Seu texto é muito bom. Conta uma história forte, emocionalmente envolvente, sem ser piegas em nenhum momento. Chorei ao ler o livro, pois me identifico muito com o que o escritor conta ali. Tive um irmão com síndrome de Down que morreu em 1999, aos 46 anos de idade, de pneumonia. Leopoldo foi uma bênção divina com quem nossa família teve o privilégio de conviver. Ainda tenho dificuldade em falar ou escrever sobre isso, por isso recomendo que leiam quem conseguiu colocar as emoções em palavras com tamanha beleza e arte.
p.s.: O filho eterno já recebeu três prêmios: Portugal Telecom, o da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Jabuti.
19
Jan09
Notícias do Caribe
O amigo Marcelo Spina, que já foi correspondente de guerra e ultimamente trabalhava nas Nações Unidas, me manda e-mail com uma bela notícia. Depois de um tempo na Coreia do Norte e em Uganda, pediu demissão da ONU e saiu velejando com a mulher, Marina. No momento eles estão em St. Thomas, no Caribe, recém-grávidos e felizes da vida com a visita da mãe dele e da mãe dela. O veleiro se chama MarMar e eles mantêm um blog em inglês. A próxima parada será Cuba e, em breve, algum porto seguro na América Central para a chegada do bebê.
15
Jan09
O Carrasco do Amor
A Laura comenta no Leiturama um livro que li o ano passado:
Acabei de ler ontem “O Carrasco do Amor”, de Irvin Yalom. O autor relata dez experiências em psicoterapia, numa abordagem vívida, humana, emocionante. Nos deparamos com dez desafios que os pacientes enfrentam com coragem, em busca da cura para um sofrimento, seja um abandono, uma doença fatal, a aposentadoria, a necessidade de ser amado, a morte. O autor explica que cada caso é único e que isso descarta as fórmulas prontas de terapia. O mais interessante é ver como o médico está presente, como um companheiro de caminhada. Ele se envolve, se sente atraído, inseguro e até repelido por seus pacientes. Em alguns pontos, parece o relato de um detetive, que vai investigando as várias camadas que encobrem o verdadeiro problema. Vale muito a leitura.
06
Jan09
Viva o ócio
Regininha Carvalho, no último post de seu blog. Fico com saudade dos seus textos cotidianos, mas ao mesmo tempo, orgulhoso pela corajosa decisão da querida de seguir seu sonho.
Tenho três livros à beira da publicação. Tenho mais três livros in progress, na velha prancheta de trabalho. Quero poder me dedicar só a eles, e aos outros que ainda são apenas projetos.
Para escrever um livro, vive repetindo o Tezza, precisamos de ócio. Precisamos de longas caminhadas, para burilar ideias e pensamentos; de longas, às vezes chatíssimas pesquisas; de descanso mental. E de não muita diversificação da atividade mental, pois o excesso dela acaba sendo muito fatigante e conduz – no meu caso, ao menos – a muitas noites de insônia e a dias improdutivos, na seqüência.
Assim, tou indo. Vou nidificar um pouco. Não foi fácil decidir, e não tenho a ilusão de que será fácil manter a decisão. Mas quero perseguir meu sonho, me dou este direito.
E FUI!







