Posts com a tag ‘poesia’

15

Mar

07

Poema contábil

Recebi do Frank, que pegou aqui.

Saldo Negativo

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.

Fernando Correia Pina (Poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha. Portalegre tem cerca de 16 mil almas. Pina é um barnabé municipal lotado no Arquivo Histórico local.)

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31

Jan

07

Neste dia singular

Rubinho Chaves Vargas deixa seu recado rimado:

Neste dia singular/na batida do ponteiro/do berço potiguar/à batida do pandeiro/quantas primas e veras/amigos e fãs/quantos brindes e vinhos/baladas e talismãs/nesta data brindamos este grande brasileiro/filho do Seu Camilo/outro grande guerreiro/e antes que a rima acabe/e a emoção nos embriague/felicidades compadre.

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31

Jan

07

Notas de Viaje

Nicanor Parra *

Yo me mantuve alejado de mi puesto durante años
Me dediqué a viajar, a cambiar impresiones con mis interlocutores
Me dediqué a dormir;
Pero las escenas vividas en épocas anteriores se hacían presentes en mi memoria.
Durante el baile yo pensaba en cosas absurdas:
Pensaba en unas lechugas vistas el día anterior
Al pasar delante de la cocina,
Pensaba un sinnúmero de cosas fantásticas relacionadas con mi familia;
Entretanto el barco ya había entrado al río
Se abría paso a través de un banco de medusas.
Aquellas escenas fotográficas afectaban mi espíritu,
Me obligaban a encerrarme en mi camarote;
Comía a la fuerza, me rebelaba contra mí mismo,
Constituía un peligro permanente a bordo
Puesto que en cualquier momento podía salir con un contrasentido.

* Poeta chileno.
** Um presentão da Adriane Canan.

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22

Jan

07

Moacyr Franco, Rita Lee e a impermanência

Tudo Vira Bosta

Moacyr Franco e Rita Lee

O ovo frito, o caviar e o cozido
A buchada e o cabrito
O cinzento e o colorido
A ditadura e o oprimido
O prometido e o não cumprido
E o programa do partido
Tudo vira bosta

O vinho branco, a cachaça e o chope escuro
O herói e o dedo-duro
O grafite lá no muro
Seu cartão e seu seguro
Quem cobrou ou pagou juro
Meu passado e o meu futuro
Tudo vira bosta

Um dia depois
Não me vire as costas
Salvemos nós dois
Tudo vira bosta

Filé ‘minhão’, ‘champinhão’, ‘Don Perrinhão’
Salsichão, arroz, feijão
Mulçumano e cristão
A Mercedes e o Fuscão
A patroa do patrão
Meu salário e o meu tesão
Tudo vira bosta

O pão-de-ló, brevidade da vovó
O fondue, o mocotó
Pavaroti, Xororó
Minha Eguinha Pocotó
Ninguém vai escapar do pó
Sua boca e seu loló
Tudo vira bosta

Um dia depois
Não me vire as costas
Salvemos nós dois
Tudo vira bosta

A rabada, o tutu, o frango assado
O jiló e o quiabo
Prostituta e deputado
A virtude e o pecado
Esse governo e o passado
Vai você que eu ‘tô cansado’
Tudo vira bosta

Um dia depois
Não me vire as costas
Salvemos nós dois
Tudo vira bosta

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20

Dec

06

Bem-vindo, verão

Sol, música arisca em pele ardida
disjuntor de neurônios fatigados,
gerador de sombra companheira,
fogaréu chucro que azeita xacras,
criador de sutileza no ocaso,
ofuscador de tant(r)a quando a pino,
aquecedor de águas e almas frias,
contato imediato com a praia,
insumo das imagens na retina,
insuperável bateria fotovoltaica,
caprichoso construtor de arco-íris,
certeza da manhã pros seres vivos,
ponto de interrogação para os astrônomos,
fonte de inspiração pros vagabundos,
alimento de tudo que se move,
bem-vindo, amigão dos sorveteiros,
neste verão que nos ensopa de suor.

~

Este é o primeiro escrito no novo blogger, que vem com um monte de novidades. A começar pelas tags – ou rótulos, ou palavras-chave, ou marcadores, como esse aí embaixo.

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