19
Oct08
Chuva e sol
- Filho, que tal ir brincar no quintal?
- Não quero.
- Aproveita que parou de chover. Depois, quando chover, você vai querer ir pra fora e vai ter que ficar dentro de casa.
- E você, por que não pára de trabalhar e vai brincar no quintal? Aí quando chover você trabalha.
- Mas preciso entregar um texto até as cinco horas.
- Às duas você trabalha.
- É… Faz sentido. Vou ali com vocês um pouquinho.
~
- Taí a chuva de novo, bem que eu disse.
- Eu brinquei.
- Eu também.
30
Sep08
Trezentas árvores
Eu caminhava pelo quintal com Miguel. Comentei que lá nos fundos nós vamos, um dia, construir uma edícula pra instalar um pequeno escritório e uma área de serviço. Pra isso, íamos ter que sacrificar duas ou três árvores do nosso bosquezinho. Ele olhou pra elas e começou a chorar.
Por um instante me senti um ser abominável. A vontade que me deu foi dar um abraço apertado nele e dizer “é mesmo, filho, quem precisa de escritório e de área de serviço?” Mas segui com minha lógica de adulto utilitarista.
Expliquei que às vezes é preciso derrubar árvores pra usar a madeira ou construir. E que podíamos compensar replantando. Ali mesmo já tínhamos plantado várias, como o nim e o pé de araçá. Mas ele não se convenceu. Aí eu disse que, pra cada árvore derrubada, vamos plantar dez.
- Dez não. Cem!
- Tá bom. Cem.
Ele enxugou as lágrimas e continuamos o passeio. A conversa reforçou meu sentimento de que há esperança pra humanidade. Quem virá depois será muito melhor que nós. Então deixo registrado aqui o meu compromisso com o planeta e com meu fiote: plantar no mínimo trezentas árvores.
17
Sep08
Primeiras letras
Miguel começou a escrever. Ele pede pra gente dizer uma palavra e soletrar. Vai então colocando letra por letra no papel, em maiúsculas, com capricho. Parece que tou me vendo: era bem assim que eu fazia aos cinco anos de idade, em Manaus, num pequeno quadro-negro que meu pai fez pra mim e pro meu irmão. Um universo de maravilhas se abre pra esse menino lindo que um dia desses era um nenenzinho recém-nascido. E agora já consegue redigir cavalo (“é com k?”), ovo, borboleta, gato, azul, mar…
Enquanto isso o Bruno, com a curiosidade de seus dois anos e meio, pega papel e caneta e tenta imitar o mano maior. Uma revista, uma mesa ou uma parede também servem. Aos poucos a casa ganha hieroglifos infantis que os dois espalham com espontaneidade. As canetas desaparecem como que engolidas por um buraco negro. Lembro vagamente de plantar árvores pra compensar o papel consumido nesses momentos mágicos. E rio feito bobo. Emoção de pai que vive das letrinhas, luta com elas, é apaixonado por elas.
19
Aug08
Carros e carros
A vó conversava sobre o desvirtuamento de uma creche beneficente, voltada pra população pobre do bairro, mas cheia de crianças cujos pais iam buscá-las de carro. Miguel emendou:
- E os pais que vão de fusca?
31
Jul08
Miguelices: do pergaminho à invenção de Deus
A conversa era sobre pergaminho, que foi substituído pelo papel.
Ele: – Quem inventou o papel?
Eu: – Os chineses.
Ele: – E quem inventou os chineses?
Eu: – Os pais e mães deles.
Ele: – E quem inventou os pais e mães deles?
Eu: – Os avós deles.
Ele: – E quem inventou os avós deles?
Eu: – Deus.
Ele: – E quem inventou Deus?
Eu: – Os chineses?
Ele: – E quem…?
24
Jul08
Natal em Natal
Laura me conta que teve uma discussão com Miguel:
- Ele disse que em Natal é Natal todo dia. Que o Natal tá acontecendo em Natal. Aí eu falei que a cidade se chama Natal porque foi fundada no dia de Natal. Ele disse que não. É porque todo dia é Natal. Ficou bravo!
19
Jun08
Teatro de animação
Hoje Miguel vai ao teatro com a turma numa atividade extra-classe: o Fita Floripa, Festival Internacional de Teatro de Animação. Eles já tinham ido antes às casas das professoras, mas numa excursão ao centro é a primeira vez. Fiz as recomendações de praxe e depois marquei a altura dele no muro, pra gente acompanhar o crescimento. Saiu todo orgulhoso
p.s.: Pais e mães, ainda dá tempo, o Fita vai até 22 de junho!
15
Jun08
Domingueiras de quase inverno
A tainha na brasa que fiz no quintal ficou perfeita. O segredo? Fogo baixo, sem pressa, e assador regado a vinho.
~
Definitivamente, não sou homem de vinho branco. Mas aceito contra-argumentos líquidos e certos.
~
Levei Miguel pra brincar na casa de um colega de escola. Não se entenderam, o pai do menino veio trazê-lo. No caminho fizeram as pazes e o menino ficou brincando aqui em casa
~
Miguel: – Pai, qual é a aula preferida da vaca?
Eu: – Sei não.
Miguel: – Múúúúsica!
~
Traje deste dia outonal de sol e vento frio: camiseta e suéter, bermuda e chinelos. A cara de Floripa praiana.
~
Que futebolzinho peba o de hoje, hein?
14
Jun08
Uma de menos
Idéia aleatória ao barbear: ninguém salva ninguém.
Também lembrei de um personagem de Fernando Sabino, pai do protagonista no romance Encontro Marcado. Sempre que se barbeava, dizia: “Uma de menos”.
(Miguel acaba de chegar do meu lado. Disse que era do elemento água e que seu poder era um chicote, e fingiu me chicotear com a manga da camiseta comprida. Também pediu pra eu comprar uma prancha de surf)
Devo deixar a barba crescer e comprar uma prancha no próximo verão?
11
May08
Jogos de palavras no café-da-manhã
EU: – Coma aí uma fruta, filho. E o leite é pra beber.
MIGUEL: – Ah, é? Se é pra bebê, então é pro Bruno.







