Posts com a tag ‘brasil’

05

Dec

08

Jornalismo, mangaba e direitos humanos

Dia de comemoração! Acabo de saber que a reportagem Tradição Dizimada, escrita por Paola Bello e fotografada por Tatiana Cardeal, ganhou o Prêmio Especial de Direitos Humanos da OAB/RS e do Movimento Justiça e Direitos Humanos. O texto, sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres catadoras de mangaba de Sergipe, foi publicado em novembro na edição 14 de Observatório Social Em Revista [pdf, 4,3 MB], que tive a honra de editar.

Começa assim a matéria:

Quando as primeiras flores da mangabeira começam a desabrochar na restinga sergipana, não é somente uma nova estação que se aproxima. A cada safra, a incerteza e a angústia de três mil famílias se multiplicam. Liderada por mulheres de pele negra e causas nobres, a catação ou colheita da mangaba é a razão pela qual toda uma comunidade tradicional nordestina está com a existência ameaçada.

A árvore símbolo de Sergipe já foi eliminada em 90% dos territórios nativos no Estado. Nos 10% que restam, a coleta da mangaba é um cabo de guerra onde estão, de um lado, o poder público e grandes investidores, e do outro, comunidades de baixa escolaridade, sem terras ou reservas econômicas, cuja maior riqueza é a tradição que carregam há gerações.

Há anos, os governos estadual e federal constroem discursos sobre os investimentos feitos na região. São milhões aplicados na construção de pontes e rodovias, na monocultura e no incentivo à vinda de grupos estrangeiros de turismo e criação de camarão. Ao mesmo tempo, a modernidade ameaça de extinção atividades que ajudaram a construir a identidade brasileira. (…)

Fico contente que o Observatório Social tenha acreditado no talento da Paola, minha substituta quando encerrei o vínculo formal com a organização em outubro de 2007. Graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela é daquelas profissionais em início de carreira que considero uma jóia rara, pelo talento em farejar boas histórias e contá-las com sensibilidade. Paola tem outros atributos preciosos: humildade, generosidade e coragem. Seu trabalho de conclusão de curso, realizado no ano passado aos 23 anos de idade, foi uma grande reportagem independente sobre refugiados de guerra em Uganda e no Sudão – países pra onde viajou sozinha. Aliás, A lei do mais fraco, publicada na revista Galileu em fevereiro, também ganhou prêmio neste concurso gaúcho (terceiro lugar na categoria Reportagem).

Tou duplamente feliz. Minha amiga Tatiana Cardeal é uma fotógrafa independente com um trabalho admirável na área de direitos humanos, em especial retratando comunidades indígenas, quilombolas e sem-teto. A química entre Tati e Paola, pelo que vejo, funcionou muito bem, e espero que renda mais histórias bonitas no futuro.

Observatório Social Em Revista é um caso singular entre as publicações jornalísticas de organizações do terceiro setor. Em apenas 14 edições, conquistou um Prêmio Esso de Jornalismo Ambiental, dois Prêmios Herzog de Anistia e Direitos Humanos e agora mais este. Tudo isso com recursos limitados e equipe enxuta, mas afiada. E com respaldo (= coragem, um dos atributos a que eu me referi acima) do IOS para mexer em temas polêmicos que envolvem interesses de empresas multinacionais, como foi o caso das reportagens-denúncia sobre trabalho escravo, trabalho infantil, contaminação ambiental e tantas outras. Fui um privilegiado por ter participado desse projeto por cinco anos, e agora, mesmo que a distância, por ter a chance de continuar editando a publicação. Valeu, Paola e Tati, vocês merecem!

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24

Nov

08

No meio da tragédia, o cordão dos puxa-sacos

Botelho, em seu Botelheco, chama a atenção pra uma manifestação repugnante de puxa-saquismo: enquanto a tragédia atinge Santa Catarina, a Defesa Civil nacional publica manchete em seu sítio sobre entrega de medalha ao presidente Lula. E mais: as três notícias abaixo da manchete ignoram o fato: abordam um “seminário internacional”, “a Defesa Civil na mídia” e o lançamento de um “selo comemorativo”. Mortes? Desabrigados? Queda de barreiras? Detalhes pra pé de página.

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19

Nov

08

Três links sobre cibercultura

Este livro de Ronaldo Lemos (FGV, 2005) se propõe a investigar os desafios propostos ao direito em decorrência da internet e da tecnologia digital. Está licenciado em Creative Commons, é só clicar e baixar.

“O Overmundo é um site colaborativo. Um coletivo virtual. Seu objetivo é servir de canal de expressão para a produção cultural do Brasil e de comunidades de brasileiros espalhadas pelo mundo afora tornar-se visível em toda sua diversidade. Para funcionar, ele precisa da comunidade de usuários sempre gerando conteúdos, votando, disponibilizando músicas, filmes, textos, comentando tudo e trocando informações de modo permanente.”

Criado em 2008 como resultado do saite Overmundo, visa estimular iniciativas para a criação de “novos canais de difusão e oportunidades para a produção cultural de todo o Brasil; a exploração das novas possibilidades de criação, compartilhamento e circulação de cultura e conhecimento geradas pela internet e pelas tecnologias digitais; e o incentivo a modelos inovadores de gestão da propriedade intelectual e de negócios nas áreas da cultura e da comunicação que confiram sustentação legal e econômica às duas vias anteriores”.

[tks Felipe Obrer]

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19

Nov

08

Acesso a medicamentos

Saiu hoje no Valor Econômico uma matéria minha sobre acesso a medicamentos que é uma boa notícia pra quem sofre de doenças como câncer, hemofilia e aids. A partir de 2011 o Brasil conquista a autosuficiência em cinco hemoderivados, que vão ser fornecidos de graça ao Sistema Único de Saúde (SUS). A matéria também aborda os genéricos, que desde o lançamento em fevereiro de 2000, já representaram uma economia de R$ 9,6 bilhões no bolso dos brasileiros; e o avanço dos medicamentos fitoterápicos no país – aqueles fabricados a partir de plantas medicinais.

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19

Oct

08

Ao som dos clarins de Momo…

Esse frevo-canção me traz belas lembranças. Xi, tamos em outubro e eu já pensando em carnaval… :)

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16

Oct

08

Mais um amigo premiado com o Herzog

O Botelho acaba de dar o furo: nosso amigo Lúcio Lambranho, repórter do Congresso em Foco, em Brasília, ganhou menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Ele fez uma série de reportagens sobre um acidente que matou 14 agricultores piauienses na Bahia. Prêmio merecido. O Lambra é um cara aplicado e gosta de ir a fundo nas histórias. Na apuração dessas matérias, me contava ele outro dia, teve que encarar muitas horas de ônibus até o interior do Piauí, com orçamento ultra apertado. Imagina o que ele não vai fazer se lhe deram melhores condições… Parabéns!

As matérias:

Corrente (PI): 13 anos de uma tragédia ignorada
(9/jul) Acidente rodoviário com 79 trabalhadores rurais revela uma face escondida do trabalho escravo no país. O repórter Lúcio Lambranho visitou sobreviventes e familiares dos 14 mortos para contar, na série que começa hoje, o drama dos catadores de feijão esquecidos pela Justiça.

Corrente (PI): famílias acusam advogado de ficar com o seguro
(10/jul) Familiares de oito dos 14 mortos em acidente no Piauí denunciam defensor que sacou R$ 40 mil do seguro obrigatório e não entregou o dinheiro aos parentes das vítimas, como Norato Nunes (foto). Processo criminal continua engavetado na Justiça baiana.

Carvoarias impulsionam trabalho escravo no Piauí
(11/jul) Na última reportagem da série sobre a tragédia de Corrente, o Congresso em Foco mostra como a expansão da fronteira agrícola levou o estado a se tornar um dos principais exploradores desse tipo de mão-de-obra no país.

O resgate de uma tragédia
Após 13 anos, autoridades de Direitos Humanos vão investigar a tragédia que matou 14 trabalhadores rurais no interior da Bahia

Transporte de alto risco
Falta de fiscalização e sucateamento de veículos foram principais causas dos 6.486 acidentes no transporte de trabalhadores rurais entre 2004 e 2006

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16

Oct

08

Prêmio Herzog pra Hermínio Nunes

O repórter fotográfico Hermínio Nunes, do Diário Catarinense, recebeu menção honrosa no Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, pela foto Limpeza da Penitenciária, que mostra através de grades uma “operação pente-fino”. Fiquei muito contente com a notícia. Tive a honra de conviver com o Hermínio profissionalmente e em outras situações que envolviam a categoria – ele já foi diretor do Sindicato – e só tenho elogios a essa figura.

A preLimpeza na Penitenciária. Foto de Hermínio Nunesmiação vai ser às 19h do dia 27 no Tuca -Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O Herzog, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em conjunto com outras entidades, é um dos prêmios mais conceituados do país. Sua trigésima edição ocorre no marco do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para comemorar a data, no dia 10 de dezembro a ONU vai lançar um saite com o acervo de todas as reportagens premiadas nessas três décadas.
~
Outros textos que publiquei aqui sobre o Prêmio Herzog.

Quem foi Vladimir Herzog e por que ele faz parte da história do Brasil.

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15

Oct

08

Amazônia, nome aos bois: vídeo

Este vídeo traz a íntegra da apresentação sobre as empresas envolvidas no desmatamento da Amazônia, ocorrida ontem no seminário “Conexões Sustentáveis: São Paulo – Amazônia”. É uma aula de Brasil real, que devia ser vista nas escolas, parlamentos e outros fóruns de debate. Os jornalistas Leonardo Sakamoto e Marques Casara relatam alguns estudos de caso que realizaram na região do Xingu sobre as conexões de cadeias produtivas da ilegalidade com a cidade de São Paulo – e, por extensão, com o restante do Brasil e com outros países. Essa relação é bastante próxima e consistente. No caso da carne, por exemplo, os principais supermercados e restaurantes do país compram de frigoríficos que adquirem gado criado sem licença ambiental.

O caso da madeira é semelhante. Madeireiras sistematicamente multadas por fazer derrubada ilegal de árvores vendem madeira “esquentada” para grandes empresas como a Tramontina e lojas de alto padrão como Louis Vuitton e Empório Armani. O produto chega ao consumidor final, no Brasil e em outros países, como “madeira certificada”. A Sincol, com sede em Caçador, Santa Catarina, é a maior exportadora de portas e janelas da América Latina. Embora afirme em seu site que vende madeira certificada, ela é dona de uma madeireira no MT que está sendo processada por invasão de terra indígena, grilagem de terras, derrubada e armazenamento ilegal de árvores. Procurada pelos repórteres, a empresa preferiu não se manifestar. Uma informação que causou surpresa no público: a Pampa Exportações, uma das grandes compradoras de madeira ilegal no Pará, é presidida por um membro do Conselho de Sustentabilidade do Banco Real.

Chamam a atenção na palestra as desculpas para justificar a participação nessas cadeias predatórias. Algumas empresas alegaram que não tinham conhecimento sobre a conduta de seus fornecedores, embora as informações sobre autuações do Ibama e a “lista suja” do trabalho escravo estejam disponíveis ao acesso público. Houve caso em que os repórteres constataram informação falsa no balanço social. Casara exortou o governo a assumir seu papel fiscalizador e as empresas citadas a romper relações com os fornecedores de produtos ilegais. Sakamoto chamou a atenção para a responsabilidade dos consumidores: “Comprar algo é um ato político”. Depois da palestra deles, o gerente do Ibama em Altamira (PA), Roberto Scarpari, explicou como funcionam os processos de esquentamento de madeira.

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14

Oct

08

A destruição da Amazônia: nome aos bois

Vou lhe passar o link pra um estudo que dificilmente terá o espaço que merece na grande mídia, por um motivo simples: suas conclusões são incômodas, contrariam interesses comerciais milionários. As 43 páginas de Quem se beneficia com a destruição da Amazônia (pdf, 9,35 MB), divulgadas hoje à tarde em São Paulo no seminário Conexões Sustentáveis, trazem informações estarrecedoras sobre a voracidade predatória das corporações. Também nos fazem refletir sobre nossa responsabilidade como consumidores. Várias dessas empresas que lucram fortunas às custas do desmatamento ilegal fabricam produtos que provavelmente usamos no cotidiano.

O estudo é iniciativa do Fórum Amazônia Sustentável e do Movimento Nossa São Paulo. Foi realizado pela ong Repórter Brasil, coordenada pelo jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto, e pela Papel Social Comunicação, do amigo jornalista Marques Casara. Eles e uma equipe de colaboradores fizeram uma minuciosa investigação de meses para desvendar alguns elos de diversas cadeias produtivas, que na ponta amazônica têm atividades ilegais em Mato Grosso e no Pará. Esse processo de ocupação predatória, que desrespeita a legislação trabalhista e ambiental e em muitos casos viola direitos humanos, também tem sido financiado pelo Estado brasileiro – por exemplo, através de empréstimos do BNDES.

Segue um brevíssimo resumo com alguns nomes que pincei do texto (a íntegra dos estudos de caso traz preciosas informações de contexto e também as versões das empresas que quiseram se manifestar):

Quatro Marcos. Com sede em MT, é um dos maiores frigoríficos do Brasil. Um terço de sua receita vem das exportações.
O problema: Unidades de abate apresentaram graves problemas ambientais e trabalhistas. A empresa comprou gado de empregador que figura na “lista suja” do trabalho escravo. Por fim, o nono maior desmatador da Amazônia, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente, pertence à família que controla o frigorífico.

Friboi. Com sede em São Paulo, é o maior frigorífico do mundo. Tem cerca de 40 mil empregados e faturou R$ 4,7 bilhões no ano passado.
O problema: A unidade do Friboi de Barra do Garças (MT) adquiriu gado de um pecuarista que teve área de sua fazenda embargada pelo Ibama por desmatamento ilegal.

Tramontina. Nascida no RS, fabrica utilidades domésticas. Tem dez fábricas no Brasil e centros de distribuição em cinco países.
O problema: A Tramontina manteve relações comerciais com empresas multadas diversas vezes por beneficiamento e transporte de madeira ilegal.

Sincol. Com matriz em Santa Catarina e filiais em São Paulo, Paraná, Miami (EUA) e Porto Rico, está entre as maiores empresas do setor madeireiro no país.
O problema: A empresa controla a madeireira Sulmap Sul Amazônia Madeiras e Agropecuária, com sede em Várzea Grande (MT), autuada por crimes ambientais e acusada de envolvimento em “grilagem” de terras.

Mahle. Multinacional de origem alemã com sede em Mogi-Guaçu (SP), desenvolve e fabrica peças para a indústria automotiva.
O problema: Um de seus fornecedores utiliza matéria-prima oriunda de garimpos localizados em Altamira (PA) que funcionam sem licença ambiental e não respeitam a legislação trabalhista.

Bunge. Multinacional holandesa, atua no Brasil na produção de insumos e na fabricação de produtos para consumo final na indústria alimentícia. Também fabrica fertilizantes.
O problema: A Bunge adquiriu soja de fazenda com área embargada pelo Ibama.

ADM do Brasil. Terceira maior trading de soja em atuação no Brasil, a Archer Daniels Midland Company exporta grãos e farelo de soja, fabrica biodiesel e produtos alimentícios.
O problema: A empresa manteve relações comerciais com produtor autuado por crimes ambientais na Floresta Amazônica.

Caramuru. Maior empresa no setor graneleiro no país com capital 100% brasileiro.
O problema: Foi identificada adquirindo girassol de produtor autuado por desmatamento em diferentes propriedades.

Esse estudo terá continuidade e trará surpresas nos próximos meses.

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13

Oct

08

Quem se beneficia com a destruição da Amazônia

Um estudo inédito que será divulgado amanhã mostra como a cidade de
São Paulo, principal mercado consumidor brasileiro, também é
responsável pela destruição da Amazônia. A iniciativa é do Fórum
Amazônia Sustentável e do Movimento Nossa São Paulo, realizadores do
seminário “Conexões Sustentáveis: São Paulo – Amazônia”, que ocorre
nesta terça (14) e quarta-feira (15).

Realizada pela ONG Repórter Brasil e pela Papel Social Comunicação, a
pesquisa constatou a existência de uma grande rede de “lavagem de
produtos” da Amazônia, que transforma produtos ilegais em legais para
serem comprados por grandes empresas, pelo poder público e financiados
pelo sistema financeiro. Os setores produtivos analisados são pecuária
bovina, plantio de soja e outros grãos, extrativismo vegetal e
políticas de financiamento para atividades produtivas.

Essas matérias-primas chegam a grandes redes varejistas, indústrias
automobilísticas e à construção civil. “O objetivo não é apontar
culpados, pois estes são muitos e incluem todos nós, consumidores”,
ressalta Marques Casara, da Papel Social Comunicação. “O objetivo é
relacionar exemplos que sirvam de referência para aprofundar o
conhecimento sobre o tema e a busca de soluções”.

A íntegra da pesquisa e os nomes das empresas serão divulgados amanhã
às 14h. Mais informações:
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/1487

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