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Feb08
Lembranças de Augusto
Hoje me despeço pra sempre do homem que tanta importância teve na minha vida: pai da minha amada, avô dos meus pequenos, amigo, vizinho, colega de ioga, companheiro de viagem e dos almoços de domingo. Digo adeus ao meu segundo pai.
Augusto Tuyama foi uma das pessoas mais fascinantes que já tive a honra de conhecer. Homem de caráter reto. Generoso, espirituoso. Apaixonado pela liberdade e pelos espaços abertos, sempre fez o que quis. No começo dos 80, deixou uma vida confortável de pequeno empresário de automecânica em SP pra desbravar Rondônia, primeiro sozinho em seu Toyota, em seguida com a família. O japonês era voluntarioso, tinha imensa confiança no próprio tino. Viveu com intensidade. Desapego e bondade foram suas grandes marcas. Tinha satisfação em ajudar os outros, participar de movimentos comunitários. E coragem pra recomeçar. Há poucos anos, ele e Nilza resolveram pegar de novo a estrada e se mudaram pra Florianópolis. Assim, Laura, os meninos e eu tivemos o privilégio de um convívio intenso com esse lindo casal.
Ele tinha um senso de humor finíssimo e raros momentos de irritação. Curtia as coisas simples, o trabalho ao sol com as plantas, o bate-papo com os amigos e conhecer gente. Estava sempre plantando sementes e maquinando idéias novas – dispositivos mecânicos e hidráulicos, negócios, viagens.
E foi num acidente estúpido de viagem em Mato Grosso, seguido de sete semanas de coma, que o perdemos. A estrada era sua praia, essa fatalidade podia ter ocorrido na esquina de casa. Por quê?, por quê?, tenho me perguntado. Assim foi. Tinha de ser. Ele não esperava ir tão cedo – nem nós. Tinha só 67 anos, muitos planos e vitalidade de um rapaz de 40. No meio da nossa dor e da saudade imensa, fica o consolo de que o Tuyama era um homem realizado. A missão dele foi cumprida de maneira exemplar. Ficamos agora com a nossa: preservar sua memória; viver e passar adiante seus ensinamentos; e cuidar bem das sementes, pra que virem belas árvores, homens e mulheres de olhinhos puxados que enxergam longe.
67 lembranças de Augusto:
1. o assobio ao chegar
2. sashimi de anchova
3. bastante arroz branco no prato
4. salada no fim do almoço
5. sesta deitado no chão
6. kawai kawai = carinho em animais
7. a árvore da montanha (música)
8. tá na hora de dormir (canção de ninar)
9. “nota sete” (bem humorado, sobre a vida)
10. “ô vidinha sacrificada” (enquanto abria uma latinha e assava peixe no quintal)
11. a piada do homem que trocou o remédio da mulher pelo da vaca
12. relato sobre a paranormalidade da mãe, que trocou Nagasaki pelo Brasil
13. passeios com o Fanto, o buldogue que era o seu xodó
14. catando mariscos no costão; catando sementes de palmeira no aterro do Flamengo
15. falando entusiasmado da árvore indiana nin e do potencial da andiroba
16. conversas inspiradas sobre plantas e gente
17. história amazônica: a carga de banana pra Manaus
18. história amazônica: o caminhoneiro egoísta
19. história amazônica: o caminhoneiro solidário
20. história amazônica:
a carga de peixes
21. infância: fábrica de saquê
22. infância: pescaria com as mãos/natação na represa
23. infância: leiteiro
24. infância: caçada de rãs e jantar
25. juventude: o fiasco do negócio de alisamento de cabelo
26. acampamentos no litoral paulista com os filhos (e o caranguejo dentro do carro)
27. pescarias em alto mar
28. o plano de ir a Portugal, trocado por uma inesquecível pescaria no Pantanal
29. aventuras rondonienses na Toyota, transportando todo tipo de gente: garimpeiros, posseiros. jagunços, policiais, corpos
30. histórias da Juventude Operária Católica: debate com o agitador que pregava a luta armada; os amigos presos, torturados e desaparecidos
31. o encontro com Nilza num evento do hotel Quitandinha, em Petrópolis
32. “90% é pensamento lógico” (dica básica pra resolver problemas)
33. a idéia de fazer um ofurô a energia solar
34. histórias da floricultura e do viveiro de plantas
35. explicando como fez sozinho a drenagem do terreno
36. caçoando do medo de voar: “Eu olho pra minha malinha, olho pro avião e penso: se cair, o prejuízo deles vai ser bem maior”.
37. a lembrança mais forte de Miguel: o vô o buscando na escola
38. vendo comigo um filme de terror na madrugada
39. comentando as pechinchas que conseguiu em compras e negócios
40. seus vasos, placas e bolas de cimento
42. sua discriçäo como confidente
43. sua sabedoria como conselheiro
44. congratulações aos genros e nora: “Parabéns pelo sogro que você tem”.
45. cumprimento maroto: “Deu pra sarar?”
46. para a neta quando era pequena:”Camilinha, eu gosto muito do vô, e você?” E ela: “Também!”
47. o desapego
48. jogo de paciência no computador
49. palavras cruzadas
50. “anjas”, “fìotas” (as netas)
51. um sonho de viagem: descer o rio Madeira até Manaus
52. um projeto da fábrica caseira: banquinhos de cimento
53. as aulas de ioga: ohmmm…
54. uma caminhada na praia e o inusitado convite pra passear nas dunas
55. nossos passeios de barco pela Lagoa da Conceição
56. almoços na praia do Pântano do Sul
57. ele e eu num trapiche do Ribeirão da Ilha comendo peixe no fim de tarde e tomando uma cachacinha artesanal
58. as histórias da Apae
59. as histórias do cooperativismo
60. dica: comer alho antes de entrar na mata pra evitar malária
61. dica: trilha na mata com um saquinho de açúcar e um de sal pra fazer soro
62. as vezes em que tirou meu carro velho do prego
63. passeio com a criançada nas dunas da Joaquina (um fim de tarde feliz)
64. música: “Deve haver um lugar bem distante/outra terra, outro céu, outro mar…”
65. quando eu chegava em sua casa: “Uma cerveja, mestre?”
66. os sorrisos de felicidade imensa no verão de 2007, quando a família se reuniu um mês inteiro em Floripa
67. a preparação da viagem, vendo mapas comigo, e os encontros que tivemos pelo caminho, até o último almoço no restaurante flutuante em Cuiabá (p.s.: a última vez que o vi consciente foi um pouco mais adiante, no portal turístico de Cáceres; papeamos sobre a cidade das pescarias, comemos sirigüelas, encontramos um besouro gigante e ele colocou um carrinho de brinquedo dos meninos ao lado do bicho pra eu fotografar).
Vá em paz, Augusto! O perfume da sua presença fica com a gente pra sempre.








Dauro, puxa… sinto muito pela ida dele. mas que fiquem sempre com essas belas lembranças, desse homem que, pelo seu relato, parece ter dividido com vcs o prazer de estar na Terra, caminhando lado a lado.
abração!
Que maravilha esse texto, igual ao seo Augusto – irreparável. Acrescentaria um ítem:
1) O estalar de dedos acompanhado de uma gargalhada, quando ouvia o final de uma história que gostasse muito.
Poxa, que bonito Dauro. Mesmo, de verdade. Me emocionei.
oi dauro.. te mandei um email no flickr, de uma olhada la.. e me responda .. um abraco..
Nao conheci o Seu Augusto…mas lendo suas historias e atraves da Ana no Flickr tenho certeza que foi um grande homem. Obrigada por celebrar a sua vida e compartilhar com a gente tantas lembrancas boas.
Um forte abraco a toda familia.
Sentimos muito. Força para a Laura e família.
Maravilhoso texto e linda e merecida homenagem ao Seu Augusto.
Tomo a liberdade de acrescentar às 67 lembranças, duas que tenho guardadas desde a infância e que permanecerão comigo:
1. “Sabon ou saboa?” – perguntando como estávamos.
2. “Este Gurgel é como coração de mãe, sempre cabe mais um.” – Quando ia recolhendo a garotada ao longo do caminho da escola, pra dar carona.
Texto maravilhoso sobre uma pessoa maravilhosa, Dauro. Sou um pouco menos por não tê-lo conhecido. Força aí pra você, pra Laura e pras crianças. Abração!
Dauro, pelas tuas palavras teu sogro e amigo era mesmo um espírito brilhante e superior! Seu Augusto está olhando por vocês. Agradeçam a vida com ele, isso é o que pode ser mais consolador pelas circunstâncias… Beijos na Laura!
Lindo texto, Dauro.
Força aí pra vocês!
abs
Zé
Dauro, so por esse textinho tao emocionado e emocionante ja da pra ver que as sementes do seu Augusto ja brotaram. Beijos pra vcs
Ô, Dauro, que coisa triste! É sempre muito difícil aceitar a perda de uma pessoa ainda tão jovem, e certamente, pelo retrato que você nos traz, tão cheia de vida, tão especial. Mas certamente Seu Augusto deixou um legado imenso a toda a família, e caberá a vocês mantê-lo vivo, coisa que você já vem fazendo muito bem.
Um grande abraço e meus sentimentos.
Lendo as 67 lembranças vejo o sujeito bacana que Augusto foi durante sua passagem na Terra.
Aquela do “parabéns pelo sogro que vc tem” é demais.
Que Augusto descanse em paz, e força pra tua pra família, Daurito.
Que felicidade e que benção passar por essa vida e conhecer Augusto Tuyama, Dauro. Pelo teu relato de quem ele era e de que tipo de admiração nutres por ele dá pra ver que vocês ganharam um grande presente pro resto da vida. Ou seja, pra sempre.
Um abraço,
n
Que tristeza, amigo.
Emociono com suas lembranças!Dói no fundo d’alma.O mundo perde um grande Ser Humano!
Dauro, fazia tempo que não te visitava e cheguei num dia triste para ti. Só me resta deixar meu abraço solidário e dizer que foi muito bonita a homenagem que vc deixou escrita ao seu sogro. Que descanse em paz.
ricardo
Dói muito!!! Meus queridos amigos, Seu Augusto está tão presente como no dia em que fizemos aquele churrasco, em casa, e é dessa forma que lembramos dele ,feliz, muito feliz!
É lugar comum, mas não existem palavras que amenizem a dor de perder alguém que amamos, mas existem gestos que transmitem imenso consolo: deixo aqui um grande e forte abraço para a família, em especial para a Ana. O tempo que é senhor da vida irá tranformar a tristeza em doce lembrança. Que Deus vos abenções.
dauro, laura, meninos. que o amor, a graça e retidão do seu augusto possam sempre acompanhar vocês. sinto muito mesmo. um abraço apertado de longe.