15

Jul

02

Pura sorte

1.

Chega a pé. Sol quente, uma e meia da tarde. Casas geminadas sem jardim. Ninguém por ali, só o menino brincando com bolas de gude na calçada.

- Seu pai tá em casa?

- Tá.

Mão no bolso. Nota de cinco.

- Tome. Pra comprar de bala.

O garoto pega o dinheiro, corre para a venda e some de vista.

Sobe o degrau e empurra devagar a porta da frente, entreaberta. Na sala, um homem vê tevê sentado numa cadeira de balanço de plástico trançado. Sorri para o desconhecido, meio sem saber por quê, e se levanta.

- ‘Dia. Posso ajudar?

- Licença. O senhor é Joaquim dos Prazeres, do sindicato?

- Eu mesmo.

- Vim lhe trazer uma encomenda.

Dois tiros certeiros. Um no coração, outro na cabeça. Guarda o revólver e sai caminhando sem pressa.

2.

Demorou, mas um dia falhou. Munição velha. O sujeito reagiu, foi preciso usar arma branca. Confusão, gritaria, fuga rápida. Levou rasteira na esquina e foi algemado pelos soldados de polícia. Na prisão, o pão que o diabo. Quebraram-lhe os dedos da mão direita com cabo de fuzil, um a um. Meses depois, grade serrada e rua.

3.

Sol quente, duas da tarde. Dois meninos batem bola no campinho. Faz sinal e eles vêm.

- Conhecem Mané das Dores?

- É meu pai. Tá em casa, aquela verde ali, ó.

Duas cédulas de cinco, eles pegam rápido. O mais novo aponta a atadura na mão do homem:

- Que foi isso?

- Acidente de trabalho. Mas dei sorte. Sou canhoto.

Os meninos saem correndo para a venda. Ele caminha em direção à casa verde e empurra a porta em silêncio.

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