29

May

11

Uma noite feliz com os dinossauros

Uns 150 “dinossauros” de várias gerações – incluindo alguns “babyssauros” de safra recente – marcaram presença ontem na churrascaria Meu Cantinho pra celebrar o reencontro dos que trabalharam no extinto jornal O Estado. Foi uma noite maravilhosa, emocionante – falo por mim, mas vi isso refletido em muitos olhos. Nestes tempos em que o sucesso se mede em cifrões e coisas consumidas, em que a desinformação e o entretenimento se embolam no mesmo balaio de negociatas, a energia emanada pelos camaradas que ousaram viver com integridade seus sonhos profissionais é um alento. Foi um privilégio ter feito parte daquele divertido laboratório de jornalismo que foi a redação do “mais antigo”.

Noite mágica, sim. Gente que eu não via há uns 25 anos se materializava na minha frente enquanto eu caminhava pelo salão. Uns vindos de Brasília, São Paulo, Porto Alegre… Outros, vivendo aqui mesmo em Floripa, cidade que já foi pequena e onde está cada vez mais difícil reencontrar as pessoas por acaso. Abraços apertados, beijos, reconhecimentos parciais (“sei que conheço esse rosto, mas o nome me escapa”) e completos.

Frank Maia, que me levou pra revisão do jornal, meu amigo-irmão até hoje. Chico Faganello, então laboratorista e depois repórter de Cultura, que muitos anos depois, se tornou parceiro no cinema. Zurildo, o chefe dos motoristas, um rosto pra não esquecer. Carlão Paniz, editor de Polícia, e Lena Obst, editora de Geral, com quem tanto aprendi. Ademar Vargas de Freitas, meu primeiro copidesque, que me mostrou o caminho das pedras com sua caneta vermelha. Jane Miklasevicius, repórter de Economia, e Raquel Wandelli, de Geral, motivações cotidianas pra eu escrever melhor. Tio Cesar Valente, maestro da redação em belas coberturas. Marco Cezar, Paulo Dutra e Gilberto Gonçalves, ases do fotojornalismo. E tantos outros. Os que subiram pro andar de cima: Bento Silvério, Miro, Beto Stodieck, Ricardo Carle, Almirzinho Casimiro, Carlos Jung… O fantástico Bonson, artista que, se não tivesse existido, precisaria ser inventado. Fui um cara de sorte por ter cruzado com essas pessoas.

Rugas, circunferências abdominais avantajadas e cabelos grisalhos nos lembravam o tempo todo que ninguém passa impune pelo tempo, mas também eram marcas de vida vivida, da felicidade de estarmos juntos. Aqui e ali, estouravam gargalhadas – piadas novas e recordações do anedotário do jornal, recontadas com prazer. Também lágrimas – furtivas ou escancaradas. Em cada humano ali, uma avalanche de lembranças ricocheteaava nas dos outros, num burburinho aconchegante, impossível de abarcar, como água escorrendo dos dedos. A foto oficial de todos juntos também não saiu, pois seria preciso uma lente grande angular gigante. Mas o essencial estava ali, sem precisar de palavras, manchetes ou fotos: a sensação de pertencimento.

Como é que se consegue reunir um grupo como este depois de tantos anos de afastamento? O esforço da comissão organizadora da festa foi fundamental, sem dúvida. O Facebook deu grande ajuda. Mas pra que esse evento tivesse acontecido com tanta intensidade, era preciso algo mais. Arrisco um palpite. O idealismo com que tocávamos o dia-a-dia do jornal o fazia uma extensão das nossas casas. Assim, sem alarde nem formalismos, fez-se uma irmandade. Às vezes conflituosa, é verdade, mas também generosa, solidária, amiga e amorosa – que o digam os casais formados na redação e adjacências. Irmandade cimentada no calor do trabalho de contar a história catarinense de cada dia; na admiração pelo talento uns dos outros; no aprendizado da arte de contar; nas aventuras e riscos compartilhados de viagem. Nas confidências de bar, no suor das sextas-feiras e das coberturas especiais.

Passei só dois anos trabalhando no jornal O Estado, 1987 e 88. Primeiro como revisor, depois como repórter das editorias de Polícia e Geral e colaborador eventual do suplemento infantil O Estadinho. Foram suficientes pra me marcar. Com certeza há outros que têm muito mais a dizer. Espero que, no devido tempo, essas saborosas histórias sejam recontadas, até como forma de compensar o melancólico fim do jornal, em que boa parte de seu acervo fotográfico foi jogada no lixo.

Obrigado, colegas dinossauros, por uma noite feliz.

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