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Jan

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Carta ao pai na UTI

Pai, escrevo esta carta sem considerar a remota hipótese de que você possa compreendê-la. Há vários meses a doença de Alzheimer lhe tirou o prazer da leitura e está passando uma borracha no seu cérebro. Mas as epístolas são um recurso de estilo adequado no nosso caso, pois fluem espontâneas. Tratamo-nos por “você” (alguns filhos lhe chamam de “senhor”, mas nunca me habituei), sem perder a reverência entre filho e pai. Presto tributo às nossas décadas de troca de correspondência e ao milagre da palavra contada, que você sempre admirou. Aproveito para informar os amigos, parentes e agregados que gravitam de maneira amorosa em nosso entorno e estão ansiosos por novidades. É um texto público que fala de um assunto privado e nada agradável à maioria dos paladares: doença e risco de morte. Natural a aversão ao tema: as pessoas tendem a fugir da dor e fingir que ela só acontece com os outros. Só vão ler minhas palavras as três dúzias de pessoas que tiverem interesse genuíno no João Camillo da Silva Filho e esbarrarem neste blog por acaso ou boca-a-boca. Os amigos, os conhecidos e os desconhecidos com quem você brindou a alegria de viver.

Aliás, abre parêntesis, vou lhe fazer uma confissão tardia: quando eu era um adolescente tímido e íamos a restaurantes e botecos, eu ficava envergonhado quando você se levantava e ia puxar assunto com gente desconhecida nas mesas vizinhas; hoje tenho vergonha de ter tido vergonha. Só as pessoas de personalidade cativante conseguem fazer o que você fazia sem serem chatas. Então, que uma vergonha cancele a outra. Fecha parêntesis.

Chegamos ontem de Fortaleza, depois de dez dias difíceis. Encontrar você em uma UTI, com pneumonia e em estado grave, foi bastante penoso pra nós todos da família. Especialmente quando a gente sabe que você sempre abominou a ideia de vegetar numa cama de hospital. Cheguei num momento crítico, em que, depois de muitas horas de espera, meus irmãos tinham conseguido vaga na UTI da Uniclinic. Era o possível no momento. Mas, em pouco tempo, informando-nos com diversos profissionais de medicina e observando a rotina hospitalar, percebemos que o lugar estava muito aquém das exigências mínimas de tratamento humanitário. Somos gratos a alguns profissionais de lá, que fizeram o possível com as condições que tinham; quanto aos arrogantes e despreparados, a gente lamenta que insistam numa profissão tão nobre como a de saúde. Movemos mundos atrás de outra vaga e finalmente conseguimos duas vitórias: a sua transferência para o Hospital São Carlos – um lugar de excelência que respeita a dignidade das pessoas, como deviam ser todos os hospitais brasileiros – e a contratação de um ótimo médico pneumologista para acompanhá-lo.

Posso afirmar sem muita chance de erro que essas duas mudanças salvaram sua vida, pai. Quando você chegou lá no São Carlos, estava nas últimas, com a infecção quase tomando conta e a pressão muito baixa. O doutor Plínio e sua equipe atuaram de imediato, mudando a medicação, introduzindo alimentação venosa, pedindo exames, combatendo uma infecção nos rins… Enfim, atacaram o caso com uma abordagem holística. Nos vários boletins que ele fez oralmente para nós, pudemos perceber seu extremo profissionalismo e respeito humano. Voz pausada, olhos nos olhos, descrição honesta e sem firulas sobre o seu estado. A possibilidade de sua morte estava ali delineada, palpável. Começamos a nos preparar para a aceitação do que fosse melhor e representasse menos sofrimento, com o consolo de que, até agora, foram 85 anos muito bem vividos (no vídeo que gravei aos seus 83 anos, você me respondeu como era ficar velho: – A vantagem é que a gente morre bem sabidinho).

Os dias se passaram e seu estado, que era “gravíssimo”, passou para “grave”. E, no momento em que escrevo, é inspirador de cuidados. A infecção nos pulmões e nos rins está cedendo. Nas palavras do médico, houve “importante melhora” (opinião de leigo: atribuo isso não só aos cuidados profissionais, como também ao seu proverbial vigor físico de ex-paraquedista e à vontade de viver). Mas ele lembra que a falência total dos órgãos ainda é uma possibilidade a rondar, pois a pressão arterial está instável e a pré-existência da doença de Alzheimer (degenerativa e irreversível) não pode ser esquecida. É importante a gente ter isso em mente pra evitar o auto-engano. Lembro que você brincava com as mentiras piedosas que as visitas costumam contar às pessoas desenganadas pela medicina: “Você está com uma ótima aparência! Vai logo ficar bom!”, enquanto o sujeito estrebuchava. Fique tranquilo. O que eu lhe disse na visita de ontem é a verdade do momento. A batalha está sendo ganha, por ora. O futuro? Quem sabe?

Miguel e Bruno passaram esses dez dias em Fortaleza sem poder lhe visitar, pois não é permitida a entrada de crianças na UTI. Fizemos o possível para entretê-los nos intervalos das duas visitas diárias e em meio à chuva que castigou a cidade por vários dias. Eles adoraram a Sorveteria 50 Sabores. Encontramos também um restaurante legal perto do apartamento da prima Abélia: tem uma área pra crianças com labirinto e cama elástica. Nos poucos dias em que o sol deu as caras, fomos duas vezes à Praia do Futuro (na segunda vez, Miguel comentou que estávamos indo “de volta para o futuro”, referência a um filme dos anos 80 que você nunca viu, pois detesta cinema). Bruno se divertiu com objetos de papelão que ele pedia pra gente recortar e depois desenhava: celular, pen-drive, cartão de memória, carteira de cédulas, carteira de identidade, volante de carro. Perguntei se ele não era muito novo pra dirigir com quatro anos. Ele respondeu: “Eu tenho 19 anos, é que sou anão”.

Pai querido, meu grande abraço.

Florianópolis, 29 de janeiro de 2010 (aniversário de Lubélia)

Outra carta ao pai, em julho de 2010

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10 Responses:

  1. Em 23/02/11, 09:44, Ayres disse:

    Dauro, amigo querido, somente agora leio esta sua carta a seu paizão, gente fina como você. Tava com saudade. Sinto-me muito próximo de você. Gostaria de poder-lhe dar um abraço apertado. Ayres

  2. Em 09/02/11, 13:11, Samuel disse:

    Emocionante…no mínimo.

  3. Em 01/02/11, 09:57, Jade disse:

    Dauro! Linda carta.
    Tudo de bom pra vocês e toda sorte do mundo.
    Um beijo grande,

  4. Em 31/01/11, 13:44, ligia disse:

    Linda carta Dauro!!!Abraços!

  5. Em 30/01/11, 20:58, Alexandre Inagaki disse:

    Obrigado pela leitura, Dauro. Um abraço para você, para o seu João Camillo e para toda a sua família!

  6. Em 30/01/11, 19:36, Rafaela disse:

    Um beijo, Dauro.

  7. Em 30/01/11, 14:17, Ana Paula disse:

    Sigo aqui em silêncio, Dauro, torcendo por todos vocês.

    Beijos!

  8. Em 30/01/11, 13:53, marques casara disse:

    João Camillo, teus filhos herdaram tua mais nobre linhagem, a dos guerreiros que amam a vida com alegria e sobriedade. Parabéns, meu caro.

  9. Em 29/01/11, 22:53, Rogério Christofoletti disse:

    A carta ao pai transborda de ternura, de amizade, de cumplicidade e amor. Mais uma carta belíssima, mas desta vez corajosa como nunca. É a franqueza, a honestidade do coração quem manda.

    Não fosse nada disso, não fosse verdade, a carta já seria um grande texto. Usar de epístolas para contar ao pai como ele mesmo esteve nos últimos dias – e com isso, nos avisar e nos informar disso – foi coisa de gênio.

    Forte abraço, meu amigo. Força e fé.

  10. Em 29/01/11, 19:33, Diógenes Botelho disse:

    Dauro,

    Deu pra ver que o seu João Camillo, seus filhos e parentes são paraquedistas duros na queda. Eu sou daqueles que não sabe muito o que falar nessas horas. Por isso, sem delongas, desejo força e saúde para todos.

    Um abração do Botelho


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