Posts de 2010

03

Feb

10

Navegações da infância

Dauro e André no navio de Manaus a Belém 1972. Meu irmão André (à direita) e eu brincando sobre um bote salva-vidas no navio Leopoldo Peres, que descia o rio Amazonas de Manaus a Belém. Retornávamos a Recife, depois de um período de dois anos em que nossa família morou na capital amazonense. Um tempo intenso que nós, na inocência de seis e quatro anos, não conseguimos captar na totalidade (e quem consegue?). Mas intuímos nos fragmentos de conversas dos adultos, passeios de barco, cheiros de chuva, mato e frutas estranhas, reflexos de luz naquele mundo de mistérios, naufrágios e águas grandes. Arrisco dizer que muito do que sou hoje se deve às experiências vividas na infância amazônica. Manaus, na época, tinha em torno de cem mil almas – uma provinciazinha em comparação com a atual metrópole inchada de 1,7 milhão de habitantes. Os “banhos” – passeios a igarapés que nos encantavam nos fins de semana – foram engolidos pela onda urbana e estão cada vez mais distantes. Mas, na essência, a cidade continua uma ilha humana rodeada de floresta úmida e água por todos os lados. A sensação de pequenez diante do universo, de deslumbre com a enormidade da natureza, foi tão marcante que me acompanha sempre.

Uma cena que se repetiu algumas vezes na viagem me impressionava. Quando ancorávamos em algum porto, caboclinhos com a minha idade ou menos remavam em canoas até o casco do navio e pediam coisas. Os passageiros amarravam roupas, comida e dinheiro em sacos plásticos e os jogavam na água. Os meninos iam nadando como peixes e recolhiam as doações. Outra lembrança: em cima desse bote salva-vidas, ou de outro parecido, esqueci um cavalinho de borracha natural que havíamos comprado no porto de Santarém. Quando dei por mim, o bicho tinha derretido no sol forte e se transformado no que hoje me pareceria uma obra de arte conceitual. Enquanto eu enxugava as lágrimas, o navio descia a correnteza em direção ao mar, me dando as primeiras lições de transformação e impermanência. Desde então, só retornei ao Amazonas uma vez, em 1990, por alguns meses. Já tá quase na hora de ir de novo.

p.s.: Foto de Sara Veras, minha mãe, digitalizada pelo amigo Michel. O slide tinha perdido as cores originais e estava arranhado, então dei uma fotoxopada restauradora e converti pra preto e branco.

p.s.2: O navio Leopoldo Peres naufragou na década de 80, depois de uma colisão com uma fragata da Marinha.

p.s.3: Já leu Milton Hatoum? Recomendo. Literatura amazônica e universal.

p.s.4: Já contei essa história do cavalinho aqui antes, mas só por alto, sem foto. E se tem uma coisa com que não me preocupo é me repetir.

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02

Feb

10

Um upgrade na memória

Este não é um post pago (mas se alguém se interessar, envio o número da minha conta). Quando o produto é bom, tenho prazer em elogiar. Testei o Evernote pela primeira vez em fevereiro de 2009, depois de várias tentativas insatisfatórias com outros softwares organizadores. Logo virei fã, conquistado pela facilidade de uso e algumas funcionalidades matadoras. É a memória acessória mais legal que já encontrei. Em resumo, é uma maneira eficaz, versátil e gratuita de capturar, organizar e recuperar informação. O Evernote permite armazenar notas, fotos, recados manuscritos, textos e páginas da web, números de telefones, lembretes de voz e o que mais você possa imaginar que represente informação audiovisual e escrita. Esse material, arquivado “na nuvem”, pode ser sincronizado entre vários micros e no celular. A facilidade de indexação é um ponto forte: todas as notas podem ser organizadas em pastas por assunto e receber tags. Fica praticamente impossível não achar o que você guardou.

A cereja do bolo é o reconhecimento de caracteres em imagens. Semana passada, por exemplo, dei uma limpa nos post-its que atrolhavam minha mesa de trabalho. Primeiro fotografei um a um com meu celular. Em seguida os transferi pro micro, via cabo – podia também ter enviado direto pra “nuvem” por e-mail. Aí arrastei as imagens pro Evernote instalado no meu HD, e pronto. Fiz o teste: no campo de busca, digitei um dos nomes de contatos que eu tinha escrevido a mão num post-it. Localização instantânea da foto, com o telefone desejado! Outra coisa útil da ferramenta é a possibilidade de compartilhar pastas. Na versão gratuita, a que uso – com grande variedade de recursos, aliás – só é possível compartilhar pastas pra consulta. Na versão paga, os arquivos que você liberar podem ser também editados pelos seus contatos.

O webdesigner Andrew Maxwell, de Portland, Oregon, sugere em seu blog cem usos diferentes para o Evernote. Entre eles: tirar a foto da página do livro que você está lendo e fazer anotações, mantendo assim as páginas limpas; guardar recibos para se organizar quando chegar a hora de declarar imposto de renda; tirar fotos de esboços em guardanapos; salvar fotos das placas e do chassi do seu carro, fotografar e armazenar cartões de visita, clicar ou escanear mapas de viagem para consultar depois, guardar rótulos de vinhos que tomou etc. etc. Depois de um ano de desenvolvimento e testes, foi lançada no dia 21 de janeiro a versão 3.5 do Evernote para Windows, com uma série de melhoramentos bacanas em relação às versões anteriores. Acabo de instalar e é bem boa. O vídeo acima (em inglês) dá uma visão geral.

p.s.: Outra cerejinha do programa é a integração com o twitter.

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01

Feb

10

Domingo das águas

Cachoeira do Salto, em São Bonifácio, SCComemorei 44 anos de um jeito que adoro: junto com os amados, visitando um lugar quase inexplorado, no sossego do mato. Eita cantinho lindo! A Cachoeira do Salto fica no município de Águas Mornas, perto da estrada que dá acesso a São Bonifácio, na subida da serra, a uns 60 km de Floripa.

Quem deu a dica foi o Botelho, nosso correspondente especial para assuntos aleatórios e especialista em líquidos espumosos. Uma hidromassagem dessas remoça a gente.

Na volta, paramos pro tradicional lanche de pamonha, rosquinhas e caldo de cana em Santo Amaro da Imperatriz. Não é preciso de muita coisa pra gente ser feliz.

p.s.: No começo da trilha há uma placa informando que a área está à venda. Checamos o preço: o sítio com aquele pedacinho de paraíso custa R$ 350 mil. Se você comprar, cuide bem!

Foto: Ana Tuyama

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31

Jan

10

Dauro Veras, 1966

Bebê Dauro em 1966, no colo da mãe Sara, com o pai Camillo e a mana Lubélia.

Foto: álbum de família

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28

Jan

10

Frases sobre viagem

The 50 Most Inspiring Travel Quotes Of All Time – um link irresistível pra quem, como eu, adora viajar e colecionar frases inspiradas. Pincei estas cinco:

“Travel is fatal to prejudice, bigotry , and narrow-mindedness.” – Mark Twain

“A journey is like marriage. The certain way to be wrong is to think you control it.” – John Steinbeck

“One’s destination is never a place, but a new way of seeing things.” – Henry Miller

“Like all great travelers, I have seen more than I remember, and remember more than I have seen.” – Benjamin Disraeli

“All journeys have secret destinations of which the traveler is unaware.” – Martin Buber

[do site Brave New Traveler, via @Cacodepaula]

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25

Jan

10

Miguelices: opções do cardápio

Eu: – Miguel, conta aí uma miguelice.

Ele: – Quer uma velha ou um lançamento?

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22

Jan

10

Adeus, Fanto

Fantopantas

Fantopantas. 2004-2010

Fantopantas, o querido buldogue da família, morreu hoje no fim da tarde. Meu sobrinho Pedro o encontrou deitado junto à parede da varanda da casa da dona Nilza, mãe da Laura. Provavelmente teve um infarto provocado por problemas respiratórios – comuns nessa raça, por causa do focinho achatado. Fanto tinha ido ao veterinário anteontem ao passar mal por causa do forte calor. Mas foi medicado, a temperatura ficou mais amena hoje e ele aparentava estar bem. Nos próximos dias, ia tirar radiografias e fazer exames. Não deu tempo, o coraçãozinho não aguentou. Fanto foi enterrado no jardim, ao pé de uma árvore de Nim plantada pelo meu saudoso sogro Augusto Tuyama (que partiu há quase dois anos). Era um companheirão, deixa muita saudade. E mais não digo, porque há coisas que não cabem nas palavras.

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21

Jan

10

S.O.S. Barca dos Livros

Estudantes visitando a biblioteca Barca dos Livros, em Florianópolis.

Estudantes visitando a biblioteca.

Recebi hoje uma preocupante carta aos apoiadores, leitores e amigos da Barca dos Livros. Essa encantadora e aconchegante biblioteca, que fica na Lagoa da Conceição, está desde outubro de 2009 sem patrocínio de órgãos públicos e de empresas privadas. Em dezembro, dispensou todos os funcionários contratados e vem sobrevivendo com o apoio do trabalho de voluntários. Fico estarrecido (mas não surpreso) com o descaso dos donos do poder para com a educação e a cultura, numa cidade que busca ser reconhecida como referência turística internacional. Premiado pelo seu caráter inovador, o projeto da Barca envolve diversas atividades de incentivo à leitura de crianças, adolescentes e adultos. Saraus literários, passeios de barco com contações de histórias… E um acervo com mais de 8 mil livros de alta qualidade à disposição do público, gratuitamente. Tudo isso está ameaçado pela falta de continuidade nas políticas de patrocínio dos governos e das empresas. Alô Eletrobrás, Eletrosul, Tractbel, BRDE, Badesc, Ministério da Cultura, Funcultural, Governo de Santa Catarina! A Barca dos Livros é uma ideia boa demais pra ser abandonada.

p.s.: A administração da Barca dos Livros pede aos apoiadores a doação de R$ 10 para ajudar a manter a biblioteca. Depósitos podem ser feitos no Banco do Brasil, agência 3185-2, conta 13.058-3, CNPJ 06022478/0001-07, em nome da Sociedade Amantes da Leitura.

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21

Jan

10

Miguelices: querer é poder

- Pai, se querer é poder, então eu quero comprar um bumerangue com o seu dinheiro!

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20

Jan

10

A beleza no xadrez: Reti

“Reti was a large, heavyset man, like “a good-natured black bear”. He was happy when he played chess. “Looking at the board, he almost always smiles at it, as a gourmet regards his favorite dish.”

Reti x Tartakower. Viena, 1910. Uma das mais famosas partidas rápidas de xadrez, com brilhante sacrifício da dama branca.

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