06
Jan08
Leia o Mundo, p.s.
Republiquei o post anterior porque eu tinha errado no título e no texto o nome do projeto: é Biblioteca Leia o Mundo, e não Veja como tava escrito. O link permanente pra vocês passarem o recado adiante passa a ser este aqui.
06
Jan08
Leia o Mundo e a magia dos livros
Ontem visitamos a Biblioteca Leia o Mundo. É um projeto social desenvolvido no bairro Bom Jardim pela Afeerm – Associação das Famílias, Educadores e Educandos de Rolim de Moura (Rondônia). A iniciativa nasceu em 2001 como biblioteca itinerante que percorria comunidades pobres pra despertar nas crianças e adolescentes o gosto pela leitura (na época o material foi transportado várias vezes por meu sogro Augusto na carroceria da sua Pampa). Chegou a ser premiada pela revista Nova Escola e saiu numa reportagem da Folha de S. Paulo. Os cinco mil reais do prêmio e as doações de livros deram fôlego à pequena biblioteca, que há dois anos ganhou espaço fixo em um salão da prefeitura.
Esta semana chegou luz elétrica, importante avanço na estrutura precária – faltam banheiro e água encanada, o acervo é limitado, não há gente suficiente pra abrir as portas por mais tempo. Mesmo assim, Leia o Mundo já faz diferença no cotidiano de Bom Jardim, onde as opções de lazer e acesso a livros são quase inexistentes.
O bairro é a cara do Brasil esquecido pelo país oficial: um conjunto de casas-caixotes de alvenaria, concebidas com recursos federais pela mente de algum arquiteto sádico – muitas têm puxadinhos nos fundos pra suprir a falta de espaço. Ruas esburacadas de barro vermelho, nada de saneamento. Jovens desempregados nas esquinas, mulheres com bebês no colo, crianças brincando por aí enquanto os pais tentam ganhar a vida. Fomos recebidos com muita simpatia pelos moradores.
Assim que a Valdete, presidente da Associação, abriu as portas da biblioteca, a criançada foi chegando como se atraída por mágica. Logo o ambiente era de festa. Uns meninos sentavam em banquinhos pra ler revistas em quadrinhos. Dois irmãos tentavam decifrar palavras: – Olha, tio, ele já sabe ler a palavra osso. E o pequeno, orgulhoso: – Eu tenho quatro anos, mas já vou fazer cinco. Outros mexiam nas estantes e brincavam de se esconder entre os livros. Os menorzinhos pediam papel pra desenhar – papel é material escasso aqui – e enfeitavam os braços com carimbos. Um miúdo fazia a percussão, batendo com uma colher numa panela vazia. Três adolescentes montavam um jogo de palavras cruzadas com peças móveis.
Leia o Mundo é fruto de vontade e idealismo de muita gente. A Afeerm ainda está em processo de formalização como OSCIP, pra que possa receber recursos públicos. O pessoal tem planos de melhorar o acesso à casa, construir um sanitário, instalar tevê e computador, catalogar as obras. A cada dia é adicionado um tijolinho a mais. Entre as obras encontrei Garcia Marquez, Agatha Christie e Julio Verne. Esses escritores iam gostar muito de saber que podem ser lidos no interior de Rondônia.
Na sua casa tem algum livro ou revista pra passar adiante? Pode ser leitura pra adulto, adolescente ou criança. Que tal dar uma força nesse projeto? É muito pouco pra quem dá e tem valor enorme pra quem recebe. Você pode colaborar enviando doações de livros e revistas pra
Biblioteca Leia o Mundo (a/c Valdete ou Ivone)
Rua das Violetas, 6744, Bom Jardim, Rolim de Moura-RO
CEP 78987-000
05
Jan08
Nota sete
Augusto foi submetido nesta sexta-feira a uma traqueostomia para facilitar sua respiração e não prejudicar as cordas vocais. Continua assistido por um ventilador mecânico, mas esse pequeno procedimento cirúrgico – a abertura de um buraquinho na traquéia – lhe dá mais conforto. Ainda não há condições de prever quando vai ser o despertar. Estamos preparando o espírito pra uma espera que pode ser demorada e vai demandar da família o revezamento das atenções no hospital. É cedo para prever se houve sequelas e que tipo de reabilitação vai ser necessária. Tudo isso é lucro diante do estado em que ele chegou à emergência há duas semanas e meia.
Embora a angústia e a incerteza nos apertem o peito em vários momentos, temos apoiado uns aos outros pra manter o astral elevado. Cultivar tristeza não ajuda ninguém, muito menos meu sogro, homem espirituoso, de bem com a vida e que nunca perdeu tempo sentindo pena de si mesmo. O exemplo dele nos guia no enfrentamento desta crise. É preciso se fortalecer para ajudá-lo a ficar forte outra vez. Enquanto escrevo, leio aqui na mesa da casa dos cunhados Ana e Luimar uma frase desenhada num enfeite de margarida sorridente: Na nossa família somos todos loucos: uns pelos outros!
Vamos levando a vida com a leveza possível diante das circunstâncias – aquela serenidade que brota do prazer das pequenas coisas, como ver as crianças se divertindo, brincar com os animais, preparar uma boa comida e fazer piada com coisas do cotidiano. Essa serenidade surge também da descoberta de que é preciso aceitar o que não se pode mudar. Assim enfrentamos o tempo e driblamos o sofrimento, cada um à sua maneira – com um IPod, uma partida de sinuca, um livro, um vídeo, trabalhos manuais ou intelectuais, sonhos alvissareiros, correntes de oração… A mim, blogueiro de plantão e “testemunha ocular da história”, coube informalmente fazer a crônica desses dias. A idéia é informar a família e os amigos e também fazer um registro pra que meu sogro, ao despertar, recupere mais rápido esses dias de coma.
Ontem foi feriado em Rondônia, aniversário de 26 anos de criação do estado. Levamos a criançada – ao todo nove primos, uma escadinha entre 15 anos e 1 ano e 9 meses – ao Cacoal Selva Park Hotel, ou “Sítio do Nério” para o pessoal daqui. É uma reserva privada do patrimônio natural. Lugar muito agradável com chalés, trilhas pela mata, piscinas de água corrente, lagos com pedalinhos e um incrível percurso de arvorismo. Entre pancadas de chuva equatorial e umas brechas de sol entre as nuvens, curtimos uma tarde bonita. Termino hoje com a lembrança de um cumprimento recorrente que o pessoal da família Tuyama e agregados têm com o marido-pai-sogro-avô-amigo:
- E então, seu Augusto? Tudo bem?
Ele abre aquele sorriso e responde, preparando a tainha pra assar no quintal:
- Nota sete. Que vida sacrificada essa aqui…
03
Jan08
Mais agradecimentos
Um agradecimento especial aos irmãos desconhecidos. Vocês apareceram pra nos ajudar nas horas mais difíceis, desde os primeiros instantes depois do acidente de Augusto e Nilza na estrada, passando pelo resgate, hospitalização e recuperação em andamento. Bombeiros, paramédicos, policiais, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, motoristas de ambulância, neurocirurgiões, psicólogos, fisioterapeutas, cozinheiras, recepcionistas e faxineiras de hotéis, ombros amigos surgidos do nada em cidades que não conhecíamos. De alguns de vocês guardamos o nome e o telefone; de outros só o rosto ou vultos anônimos. Quando recordo os momentos terríveis do dia 18 de dezembro e os seguintes, por instantes chego a imaginar que tivemos o apoio de anjos. Um deles sentou do meu lado no carro enquanto eu dirigia transtornado em Pontes e Lacerda à procura do hospital dos primeiros socorros; me guiou até o lugar certo e desapareceu discretamente. Uma mulher sorridente que conhecemos numa praça em Cáceres disse coisas belas sobre as ações de Deus se manifestarem através das pessoas. Houve uma série de coincidências curiosas que me levam a afirmar com certeza: devemos a vida do casal Tuyama à presença e às ações de vocês nos momentos e lugares em que era preciso. Definitivamente, não estamos sós neste mundo.
03
Jan08
Agradecimento
Irmãos, amigos, conhecidos, parentes, colegas de Augusto e Nilza: em nome da família, muito obrigado a vocês todos pelo pensamento positivo e pelas orações! Podem acreditar, o otimismo das mensagens e telefonemas tem sido uma grande força pra todos aqui, nos ajuda a suportar as longas horas de espera. Alguns de vocês não faziam contato há anos, por motivos diversos que não interessa especular. O que importa é o momento presente. É muito bom que vocês estejam unidos com a gente em pensamento.
Podemos tirar bons aprendizados desse desastre. Um dos principais é que sempre é tempo de diminuir as distâncias e buscar o entendimento. De dizer o que ainda não foi dito, dar os abraços adiados. A vida é curta demais pra perder oportunidades assim. Cada movimento nessa direção, seja pra uma pessoa amada ou pra um completo desconhecido, contribui pra harmonia do universo. Dizem também que deixa o cabelo mais bonito, a pele mais saudável, o rosto rejuvenescido. E contribui pra paz mundial. Amor faz bem.
03
Jan08
Mais fotos de Cáceres
| De Cáceres |
Pôr-do-sol no rio Paraguai. Restaurante flutuante Kaskata.
Barco Titanic II. O dono tem senso de humor.
02
Jan08
Notícias de Cáceres, boletim de 2 de janeiro
Hoje os médicos retiraram o aparelho de respiração artificial por uma hora e meia durante a manhã e uma hora e meia à tarde. Augusto conseguiu respirar bem. Está começando o “desmame”, como diz o pessoal da área em relação aos pacientes em coma que estão se preparando pra despertar.
01
Jan08
Enquanto isso, em Cáceres
Médicos e fisioterapeutas estão otimistas. Os olhos dele estão se movimentando mais.
01
Jan08
Slow Down Now
Uma fonte de inspiração pra 2008: slowdownnow.org, websaite oficial do International Institute of Not Doing Much.







