Posts de 2008

29

Jan

08

Revisão de uma lista de modestas intenções

Escrevi esta lista em 3 de janeiro de 2007. Hora de revisar.

Tenho uma só resolução para esse período que convencionamos chamar de ano novo: me tornar uma pessoa melhor. Isso garante tudo o mais. A lista abaixo não é de resoluções, e sim de modestas intenções.

1. Brincar mais com Miguel e Bruno.
Ok. Passei a trabalhar em casa e isso ajudou bastante.

2. Colocar Miguel na natação.
Ok. Foi uma das grandes conquistas do ano passado.

3. Voltar a nadar.
Em vez disso, comecei a praticar ioga. Nota dez.

4. Fotografar mais.
Ok. Comprei um câmera digital simples, mas que dá pro gasto.

5. Estudar Photoshop.
Pouco avanço. Em compensação passei a usar um ótimo editor de imagens gratuito, o Gimp.

6. Plantar mais árvores.
Plantei poucas, reguei muitas.

7. Fazer mais trilhas.
Falhei miseravelmente. Intenção renovada pra 2008. Comecei light, aqui em Rondônia, com uma trilha de 1 km pela floresta em Cacoal.

8. Reencontrar mais amigos.
Ok. Aliás, hoje acabo de reencontrar via Orkut o Atamir, amigo de adolescência lá de Natal, com quem eu não conversava há uns bons 15 anos.

9. Ler no mínimo 50 bons livros.
Não cheguei a contar quantos, mas acho que cumpri.

10. Concluir pendências de 2006.
Que pendências eram essas mesmo? Nada de importante, pelo visto.

p.s.1: Quanto a me tornar uma pessoa melhor, deixo essa avaliação pra quem convive comigo.

p.s.2: Fiz também cinco modestas intenções culinárias, mas o resultado ficou abaixo do esperado: consegui tomar menos café e comer mais verduras, mas não da nossa horta do quintal, que era muito pequena pra atender a demanda e terminou sendo tomada pelo mato.

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26

Jan

08

Mil tsurus

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26

Jan

08

Impressões sobre a angústia da madrugada

Um dia de cada vez. E uma noite no meio. Algumas são bem difíceis, principalmente quando a insônia ataca. Esta madrugada tive mais um flashback do acidente – às vezes isso me vem em sonho, às vezes acordado. O som da freada e do impacto, meus passos enquanto corria pro local, o resgate, as respirações ofegantes – naquelas horas críticas senti a audição ampliada e o tempo em exasperante câmera lenta. Tenho evitado comentar isso, mas o desabafo me ajuda a exorcizar a angústia. Ao olhar direto pros meus medos (= escrever sobre eles), me fortaleço. Espero que assim ajude os que também estejam precisando.

Fui pra sala. Eram três da manhã e abri o livro O carrasco do amor e outras histórias de psicoterapia, do psiquiatra Irvin D. Yalon (autor do excelente Quando Nietzsche chorou). Na introdução, ao abordar as dificuldades do duplo papel de observador e participante, ele cita uma frase que me chega como uma resposta de oráculo:

Ao escolher entrar completamente na vida de cada paciente, eu, o terapeuta, não somente fico exposto às suas mesmas questões existenciais como também devo estar preparado para examiná-las com as mesmas regras de investigação. Devo aceitar que conhecer é melhor do que não conhecer, aventurar-se é melhor do que não se aventurar; e que a magia e a ilusão, por mais magníficas e fascinantes que sejam, no final enfraquecem o espírito humano. Eu encaro com profunda seriedade as poderosas palavras de Thomas Hardy: “Se existe um caminho para o Melhor, ele exige uma visão completa do Pior”.

Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente tagarelar com simpatia e exortar os pacientes a se debaterem corajosamente com os seus problemas. Nós não podemos dizer a eles vocês e os seus problemas. Ao contrário, devemos falar de nós e de nossos problemas, pois nossa vida, a nossa existência, estará sempre presa à morte, do amor à perda, da liberdade ao temor e do crescimento à separação. Nós, todos nós, estamos juntos nisso.

As madrugadas insones, os sonhos e também o sono profundo que se segue a eles nos são dados pra que a gente possa lidar sozinho com nossos fantasmas. Sem essas pausas de aguda percepção e também de esquecimento, talvez a realidade se tornasse insuportável.

Depois de um tempo voltei pro quarto e fiquei no escuro, olhando os meninos. Ri sozinho, tinham invertido as posições: Miguel, que adormecera no lado esquerdo do colchão, agora estava no direito, e Bruno tinha passado do lado direito pro esquerdo. Deitei, apaguei e acordei às oito me sentindo bem mais leve. Estamos no caminho para o Melhor.

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24

Jan

08

Informe de Cáceres, 24 de janeiro

Como eu já tinha dito antes, Augusto teve alta da UTI, mas permanece lá aguardando vaga na enfermaria do hospital. Continua inconsciente. Nos últimos dias ele expeliu bastante secreção, mas as radiografias não indicam lesão nos pulmões. Hoje a quantidade de secreção é bem pouca – bom sinal, o corpo está fazendo a limpeza interna. A neurologista que cuidava do caso, doutora Olga, passou mal esta semana: teve um problema cardíaco e até precisou ser internada. Ela entrou de licença e foi substituída pelo marido dela, doutor José Roberto. Espero que ela se recupere logo. Ambos têm excelente reputação profissional e somos muito gratos ao apoio que têm nos dado. Uma nova tomografia foi solicitada pela médica de plantão.

Update 15h: uma segunda cirurgia para drenar o líquido que está sob a membrana dural vai ser realizada entre domingo e terça-feira.

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24

Jan

08

11 metas para jornalistas ainda não conectados

Fiz uma tradução resumida deste artigo de Howard Owens com sugestões de 11 objetivos para os jornalistas ainda pouco familiarizados com as novas tecnologias de comunicação buscarem em 2008. Os links que indico nem sempre coincidem com as dicas dele.

  1. Torne-se blogueiro(a). Comece com seu tema favorito, alguma coisa pela qual você tenha paixão. Tente escrever diariamente por pelo menos seis meses.
  2. Compre uma pequena câmera digital que também faça vídeo. Abra uma conta em um site de compartilhamento de fotos, como o Flickr.[ou o Picasaweb]. Tire fotos e publique. Se necessário, use tutoriais online para fotografia digital.
  3. Com a mesma câmera, faça pelo menos três vídeos. Edite-os no software gratuito que vem no seu computador. Publique-os no youtube e em pelo menos outro site de compartilhamento de vídeos. Sua meta não é fazer um grande vídeo, apenas aprender o que está envolvido na produção de um.
  4. Passe pelo menos duas horas por semana no youtube, por seis semanas. Busque temas de seu interesse. Preste atenção aos mais populares do dia e veja o que outras pessoas estão vendo. Veja tanto vídeos amadores quanto profissionais.
  5. Inscreva-se num site de relacionamento. [1, 2, 3, 4, 5]
  6. Use o bookmark social. Crie uma conta no del.icio.us e use-a todos os dias. Aprenda sobre tags.
  7. Comece a usar RSS para acompanhar as notícias do dia e os blogs que você agora está lendo diariamente. Certifique-se que seu blog tem um feed de RSS.
  8. Se o seu celular não envia SMS (mensagens de texto), consiga um que envie. O SMS funciona melhor quando você tem amigos que o usam.
  9. Aprenda a usar o twitter. Observe como essa tecnologia pode mudar a disseminação da informação.
  10. Crie um mashup no Google Maps. Se você não sabe o que é isso, pesquise no Google. Se você não sabe o que fazer ou como começar, pesquise no Google. Há muitos tutoriais disponíveis.
  11. Depois de fazer essas dez coisas, documente o que você aprendeu – em um artigo para seu editor ou no seu blog. Discuta como a tecnologia transformou a mídia e aonde essa mudança pode levar. Como será seu trabalho daqui a dez anos? Como as notícias vão chegar aos leitores jovens em uma geração? Amanhã?

p.s., 25.01: Duas informações complementares que ficaram de fora da tradução resumida.

A primeira é de contexto. Howard Owens escreveu o artigo com sugestões para editores de empresas jornalísticas que têm programas de aperfeiçoamento dos seus profissionais. É uma proposta de plano de MBOmanagement by objectives [gerenciamento por objetivos]. A idéia é recompensar as pessoas cujo trabalho ajude a empresa a avançar em suas metas estratégicas.

No item 1, sobre tornar-se blogueiro, deixei de fora uma sugestão que me pareceu dispensável: a de que, antes de começar a escrever um blog sobre seu tema de interesse, você passe três meses lendo outros blogs sobre o mesmo tema. Pensando melhor, talvez não seja assim tão óbvia pra todo mundo a importância de conhecer o “estado da arte” de determinado tema na blogosfera antes de pôr a mão na massa.

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24

Jan

08

Álcool nas estradas

Rogério Christofoletti faz um comentário lúcido sobre a decisão do governo de proibir o consumo de bebidas alcoólicas nas rodovias federais brasileiras.

Tenho visto e ouvido muita besteira nos últimos dias sobre a medida do governo que proíbe o comércio de bebidas em estradas federais. Tem chiadeira dos comerciantes, lei da mordaça entre os patrulheiros e algumas manifestações de motoristas. …

O governo está certo? Está. E a medida demorou. Deveria ter sido implementada antes, bem antes. O governo tardou em atuar. E agora, faz apenas o necessário, nada mais que isso. …

A proibição da venda de bebidas em estradas federais não é populista, nem moralista. As mortes no trânsito são questões de saúde pública. As estatísticas são suficientemente claras e trágicas. …

Concordo 100%. Não se trata aqui de uma lei que restrinja o direito individual de colocar a própria vida em risco, como pular de body-jumping ou tomar uma garrafa de uísque todas as noites na varanda de casa. É uma questão de saúde pública em que os infratores colocam em risco direto a vida de outras pessoas.

Não é preciso ser especialista em trânsito – basta ser brasileiro de estatura mediana – pra perceber um detalhe fundamental: só a lei, sem uma campanha forte de educação, periga não pegar. Uma campanha assim precisa ser sistemática (de longo prazo), de abrangência nacional (não só nas estradas federais, como bem coloca o Rogério) e com linguagens diferenciadas pra diversos públicos – motoristas, comerciantes, crianças e adolescentes.

As abordagens também precisam ser diferenciadas e complementares. Meu palpite é que informação sobre os riscos e sobre as punições aos infratores – ou mesmo a estratégia do choque, como outdoors mostrando carros esmagados – tem efeito limitado se não vier acompanhada de mensagens que incentivem comportamentos positivos. Por exemplo, o orgulho de contribuir para a fama do brasileiro como bom motorista (tou delirando?).

Tudo isso só caminha com a vontade política de todas as esferas de governo, o apoio maciço da mídia e o comprometimento coletivo. Mas o tamanho do desafio não deve desanimar. Um passo de cada vez. Espero que as estatísticas pós-carnaval possam indicar um avanço.

p.s.: Botelho, no comentário, toca num ponto fundamental: pra que a lei pegue, é preciso ter como fiscalizá-la. O efetivo da Polícia Rodoviária Federal no país é ridículo.

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23

Jan

08

Mil tsurus


O tsuru – cegonha em japonês – é uma ave associada à juventude e à longevidade. É uma das figuras mais conhecidas da antiga arte do origami – dobradura de papel. Diz uma lenda que quem fizer mil tsurus, com o pensamento voltado para aquilo de deseja alcançar, vai alcançar seu desejo.

Uma história mais recente conta que em 1955, Sadako Sasaki, uma menina japonesa de 12 anos, teve leucemia por causa da radioatividade em Hiroshima. Sua amiga lhe contou a lenda e no hospital ela fez muitos tsurus, mas não conseguiu chegar a mil e morreu. Seus colegas de escola completaram o número e decidiram fazer uma campanha pra levantar um monumento em homenagem às crianças feridas ou mortas pelo efeito da bomba. Em 1958 foi construído em Hiroshima o Monumento das Crianças à Paz, também conhecido como Torre do Tsurus. Todos os anos, milhares de tsurus vindos de vários países são colocados no local.

Há uma semana a família Tuyama se inspirou na lenda e resolveu dobrar mil tsurus pela recuperação do marido, pai, avô e genro Augusto. Dobrar um tsuru não é coisa do outro mundo, mas também não é exatamente um trabalho fácil (colaborei mais nas primeiras fases da linha de produção, que requerem o mínimo da habilidade motora). Só que o entusiasmo com a tarefa foi tão grande que em poucos dias as mil aves de papel estavam prontas. Nem foi preciso seguir a sugestão do Carlos de fazer tsurus enormes valendo por dez cada um. :) Agora eles estão sendo enfileirados em cordões e a energia gerada nesse esforço coletivo vai fazer seu efeito.

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23

Jan

08

Meias vermelhas & histórias inteiras

Li de uma só tacada Meias vermelhas & histórias inteiras, de Marcos Donizetti. Em 73 páginas, o autor do blog Hedonismos demonstra – sem se exibir – que tem domínio sobre a narrativa curta, aquela em que o escritor precisa vencer por nocaute, como lembra o Inagaki na introdução, citando Cortázar. As histórias fluem como conversas ao som de música. Júlia, Lurdinha, Laura, Fernanda, Débora, Ana Lúcia… Lucas, Júlio, Rodolfo, Jorge, João, Álvaro. Os personagens podiam ser nossos vizinhos, namoradas, maridos. Podiam ser nós mesmos em nossas vidas banais ou extraordinárias, dependendo do ângulo em que se veja.

Doni conhece o ofício. Ele lida bem com a passagem do tempo e com a reversão de expectativas – às vezes só pra confirmar o que o leitor já intuía. As histórias são temperadas com humor discreto, fetiches e sexo gostoso, mas o mote mesmo é amor. Com suas possibilidades e impossibilidades, palpitações, euforias e, quando acaba, seus efeitos devastadores. Quem já deu ou levou pé na bunda, quem guarda recordações agridoces de paixões da infância e adolescência vai se identificar. O livro também é flecha certeira pros que descobriram a mulher ou o homem de suas vidas.

Gostei muito do primeiro e do último conto, Júlia e A estrela é morta, que a gente lê ouvindo na cabeça a linda música de Lennon. Débora, com as pausas do narrador pra encher o copo, tá redondinho e divertido. A menina aborda a paixão platônica de uma maneira inusitada; tem uns ecos de Allan Poe. Vingança quente, conto de cinco parágrafos, é muito engraçado; pras mulheres captarem a essência, precisam se imaginar homens. Beijos foi esculpido com memória e arte; é talvez o meu favorito. Umas poucas histórias eu achei dispensáveis, dão a impressão de terem saído da incubadora antes do tempo. Mas elas não prejudicam o todo.

Guarde o nome de Marcos Donizetti. Ele ainda vai mostrar belas surpresas em forma de letra impressa (enquanto isso, dá pra apreciar o estilo do cara no seu ótimo blog). Meias vermelhas & histórias inteiras pode ser comprado pela internet na Editora Os Viralata, de literatura independente. Custa 19,90 dinheiros, já incluído o frete do correio. Você pode conferir aqui outras opiniões sobre o livro. Tem também uma comunidade no Orkut.

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23

Jan

08

Anotação de leitura: Leminski e a impermanência

Levantei os olhos devagar para o carnaval de luzes em minha volta. Tudo parecia idêntico. As mesmas pessoas. As mesmas gargalhadas. Os gestos todos certos. A certeza.

Só que tinha uma coisa errada. TUDO tinha mudado.

Por segundos girei numa vertigem, sem saber o quê, em quê, por quê. Ah, por quês?, como atingir a sabedoria sem vocês, porquês, por quês, porquês, diabólica máquina das causas e efeitos. O que tinha mudado? Nenhum POR QUÊ?, por favor. TUDO.

Paulo Leminski, Agora é que são elas.

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21

Jan

08

Informe extra!

Augusto teve alta da UTI. Ele permanece em coma, mas já não precisa daqueles aparelhos todos. No momento não há vaga na enfermaria, então a transferência deve ser feita amanhã.

Update 23/1: Ainda à espera da transferência pra uma enfermaria.

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