21
May08
Anotação de leitura: Sobre o amor, etc.
Trecho de uma bela e melancólica crônica de Rubem Braga, escrita há exatos sessenta anos, sobre o que há de irremissível nas separações. O tempo perdido na distância nos transforma em outros.
Dizem que o mundo está cada dia menor.É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
…
É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia.
…
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma loura que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, mas de necrológio.Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.
Maio, 1948
20
May08
Agenda cheia
Um poeminha cometido na sala de espera do dentista, há três anos e pouco.
Agenda cheiaDezesseis de fevereiro
dia de broca e agulha
dentista de manhã cedo
e à tardinha acupunturaNão carece espernear
nem adianta ter medo
o que tem que bater bate
o que tem que furar furaTenho é que agradecer
os avanços da ciência
que conserva meus molares
pra roer a rapaduraGraças à odontologia
e à medicina chinesa
ganho bônus na disputa
com aquela que não tem cura.Fevereiro de 2005
20
May08
Moon River e Audrey Hepburn
Ontem vi Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961, dirigido por Blake Edwards), com Audrey Hepburn no papel de garota de programa sofisticada que se apaixona por um vizinho, escritor sustentado pela amante. Das musas clássicas do cinema, ela é minha preferida. Magrinha e miúda, sem o tipo da beleza de Hollywood, tinha uma elegância incomparável. Movia-se com a sutileza simples de uma gata, com uma mistura de feminilidade e jeito moleque. Fez a fama dos vestidos e acessórios da grife Givenchy e até hoje tem uma legião de fãs. Um ponto alto do filme é Moon River, de John Mercer (letra) e Henry Mancini (música), que em 1961 ganhou o Oscar de melhor canção original. Nesta cena antológica, a garota canta e toca violão na janela.
p.s.: Este é um dos casos em que o título do filme em português ficou melhor que o original.
20
May08
Estado está ausente em região que desmata
Um dos grandes nós do desmatamento da Amazônia é abordado nesta ótima reportagem de Yan Boechat que saiu ontem e hoje no Valor Econômico: a ausência do Estado. Ele esteve em Rondônia e entrevistou diversos atores sociais da atividade madeireira, entre eles as famílias de colonos que prosseguem com a derrubada ilegal da floresta por falta de opções.
Em Rondônia, um terço da cobertura de florestas já desapareceu. Em 1983, pouco depois de ser transformada de território em estado, a área desmatada era de 5,7%. Em 2004, já eram 31,2%, contando apenas as indústrias de transformação de madeira. Rondônia é o estado amazônico que desmatou em maior velocidade e intensidade. Com a bênção do Estado, que nos anos setenta estimulou a derrubada como parte da política de ocupação da região.
Pra quem está num grande centro urbano (às vezes sentado num sofá de mogno sob um telhado de angelim-pedra), não é fácil compreender a complexidade do tema. Há a tendência de rotular de vilão todos os que derrubam árvores e exigir soluções à la Capitão Nascimento. Uma questão levantada durante reunião de representantes do governo com os agricultores sintetiza o dilema:
No turbilhão de comentários desencontrados, Delano pediu a palavra e fez uma pergunta quase inocente, quase sarcástica: ‘O doutor pode explicar como vamos viver da terra com as árvores em pé?’. Não teve resposta.”
Enquanto o Estado não conseguir dar reposta adequada a isso, a derrubada continua, e não adianta chegar de metralhadora naquelas operações espalhafatosas que a mídia tanto gosta de mostrar. Em recente entrevista à BBC (reproduzo aqui citação do boletim eletrônico Alerta Científico e Ambiental), o ministro Mangabeira Unger foi questionado sobre o que o desenvolvimento sustentável realmente significa e do que necessita. A resposta dele vai ao encontro dos anseios identificados na reportagem do Valor. Mas do diagnóstico à solução dos problemas – entre os quais a complicadíssima questão fundiária – há uma distância amazônica:
Há três pré-condições fundamentais. A primeira é a questão da propriedade da terra. Temos que esclarecer a titulação e a posse da terra. O segundo pré-requisito é que se faça um zoneamento ecológico e econômico da Amazônia, que possa definir uma estratégia para a Amazônia sem floresta, não só a que foi desflorestada, mas também aquela parte que nunca teve floresta, e outra para a Amazônia com floresta. A terceira pré-condição é a construção de um regime regulatório e fiscal que garanta que a floresta em pé valha mais do que a floresta cortada. Uma vez que essas pré-condições estejam satisfeitas, podemos tocar os quatro principais pontos de trabalho que nos foram dados para dar um conteúdo prático à idéia de desenvolvimento sustentável. (…)
Ele prossegue falando dos quatro pontos: a tecnologia apropriada para a floresta tropical; a organização de serviços ambientais avançados na Amazônia; o regime de propriedade sob o qual a floresta será gerida, e o desenvolvimento da ligação entre a floresta e as indústrias. Como o próprio ministro reconhece, é mais fácil falar do que fazer.
19
May08
19
May08
19
May08
18
May08
Pequenas delícias das noites de outono
Noite linda, estrelada e com lua cheia. A vó abriu a porta da frente da casa dela e o Bruno, aspirando o jardim arborizado, foi logo dizendo:
- Cheiro de floresta.
18
May08
Arte e mitologia romana, p.s.
Ivan corrige:
OpaA exposição “Mitologia Greco-Romana e as Representações Artísticas ao Longo do Tempo” já está acontecendo.
O que vai rolar na terça, 20 de maio, às 19h, é uma palestra com a professora de História da Arte Eliane Veras da Veiga e também com Julia Iguti. E é o último dia de exposição (portanto, não é a abertura).
Abraço!
18
May08
Arte e mitologia romana
Convite do Ivan Jerônimo:
A arquiteta e artista plástica Julia Iguti (que também é minha mãe) vai abrir a exposição Mitologia greco-romana e as representações artísticas ao longo do tempo junto com a professora de História da Arte Eliane Veras da Veiga.
Na abertura, a professora fala sobre o tema, com projeção de representações de personagens mitológicos e leitura pública da narrativa mítica O Rapto de Prosérpina.
Abre dia 20 de maio, terça, às 19h, na Casa da Memória. Rua Padre Miguelinho, 58, Centro, em Florianópolis.











