Posts de 2007

18

May

07

Miguelices: coisas da vida

- Pai, o que é mais forte: fogo ou água?
- Depende, filho. Se for muito fogo – por exemplo, um incêndio – ele ganha. E a água dos canos evapora.
- Vira nuvem?
- É. Mas se jogar uma tocha no mar, a água ganha.
- O que é mais forte: água ou lama?
- Também depende. Muita lama suja a água, muita água lava a lama.
- Quem é mais forte: gavião ou águia?
- Águia, acho. Nunca vi eles brigando.
- Quem é mais forte: cachorro ou lobo?
- Lobo. Mas se os cachorros se juntarem, botam o lobo pra correr. Ele vira bolo.

- Eu gosto muito de ar no calor.
- Vento?
- É, vento.
- Eu também. E no frio, com uma roupa bem quentinha.
- Já pensou se a gente voasse?
- Aí era só bater as asas e ir pra escola. A ponta da minha asa ia tocando a ponta da sua.
- E a gente pousava lá na quadra.

- Onde fica a cabeça do tatu-bola quando ele vira bola?
- Dentro da bola.
- E as unhas?
- Dentro também. Acho.
- Já pensou se a gente vivesse embaixo d´água?
- A gente ia nadando da sala pra cozinha.
- Nossa casa ia ser um submarino.

- Pai, o que significa desafio?
- É uma coisa bem difícil de conseguir, mas a gente tenta.
- E o que significa odiar?
- É detestar alguma coisa ou pessoa.
- E detestar?
- É não gostar.

- A gente pode tirar os próprios braços?
- Não, ninguém pode.
- Nem Deus?
- Hmm, acho que Deus pode.
- Deus tem braço?
- Sei não. Agora cê me pegou!

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18

May

07

Por um acaso

A revista piauí deste mês traz obras da poeta polonesa Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Seu texto me encantou instantaneamente. Segue um poema que recebi por e-mail da Nilva Bianco e um trecho do discurso à academia sueca quando ela ganhou o Nobel.

POR UM ACASO

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.

Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.

Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.

Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.

Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

~

(…) O mundo – o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo – ele é assombroso. (…)

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17

May

07

Respostas para driblar o telemarketing

Comentário por e-mail da Anacris sobre um dos avisos ranzinzas:
A do banco me lembrou um episódio de quando eu ainda era casada. O camarada do Santander ligou oferecendo cartão e eu respondi um categórico não.
- Mas senhora, ouça pelo menos que os juros são muito mais baixos que o dos outros bancos…
- São? Que pena. Quem paga minha fatura é meu ex-marido. Quanto mais altos os juros melhor.

Ele pediu desculpas por incomodar, desligou e nunca mais ligou.

Outra boa de um conhecido pra recusar oferta de cartão de crédito:

- Bem que eu queria, mas tou na condicional…

O Marques Casara tem outra:

Pararam de me ligar faz alguns meses. Desenvolvi uma técnica infalível:

___ Gostaria de falar com o Sr. Marques.
___ Quem gostaria?
___ É a Mirtez, da empresa tal.
___ Olha, Sra. Mirtez, infelizmente o Sr. Marques faleceu na semana passada.
___ …….. Ah, sim….então…. bom. Me desculpe.
___ Não tem nada não, senhora Mirtez. A Sra só faz o favor de colocar um aviso ai no cadastro, sobre esse terrível falecimento, já que ele não está mais entre nós.
___ Pode deixar que vamos providenciar.

As ligações foram diminuindo e pararam por completo. Nada como uma morte para nos deixar viver em paz.

Está aberta a temporada de respostas criativas pra driblar os chatos do telemarketing. Você tem alguma?

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17

May

07

Dez avisos ranzinzas

Baixou o espírito de Seu Lunga em mim hoje.

  1. Não quero assinar o BRTurbo!Não quero assinar o BRTurbo! Não quero assinar o BRTurbo! (me ligaram três vezes esta semana).
  2. Não quero abrir conta no Santander. Nem em qualquer banco.
  3. Deleto sem abrir todas as mensagens com powerpoints anexos.
  4. Deleto sem abrir as mensagens sem nada escrito no assunto.
  5. Piadas? Que sejam curtas, no corpo do e-mail e… engraçadas.
  6. Não passo adiante correntes, pirâmides, fotos de crianças desaparecidas, advertências sobre vírus terríveis e coisas do gênero.
  7. Não assino petições em defesa ou contra nada.
  8. Não compro nada que me ofereçam pela internet – eu mesmo sei do que preciso.
  9. Não faço intercâmbio de links. Linco e deslinco quem eu quiser.
  10. Eu já disse que não quero assinar o BRTurbo? Então digo de novo!

Hmpf!

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16

May

07

Da série Meus clássicos favoritos: A Doce Vida

A doce vidaLa dolce vita é um dos motivos por que sou apaixonado por cinema. Vi pela terceira vez – sempre encontrando novidades, me admirando com a escolha dos atores, com as sutilezas dos diálogos e o humor peculiar do grande Federico Fellini. Formado por uma série de historinhas aparentemente desconexas, conta o cotidiano de um jornalista de notícias sensacionalistas em Roma. Ele cobre a visita de uma estrela de cinema, pula a cerca, briga com a namorada e faz as pazes, reencontra o pai a quem mal conhece, caminha a esmo pela noite, se isola pra escrever, filosofa sobre o tédio e o sentido na existência, toma porres e participa de festas malucas. Marcello Mastroiani – um dos cinco melhores atores de todos os tempos na minha opinião – está encantador. A cena do banho com Anita Eckberg na Fontana di Trevi é antológica. Amo esse filme.

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16

May

07

Lidos

Terminei O Grande Gatsby. O clássico de F. Scott Fitzgerald se passa na América dos anos vinte, embalada ao ritmo de jazz, festas e prosperidade. Em meio à abundância, o melancólico amor frustrado do protagonista por uma antiga namorada, casada com um milionário. Livro fininho e fácil de encarar. Gatsby é um personagem marcante, mas o livro é bem menos do que eu esperava. Em definitivo, não é “o segundo melhor romance do século 20″ como diz a resenha da Biblioteca da Folha.

Li também O Afegão, de Frederick Forsyht. Historinha descartável de espionagem moderna: um agente do serviço secreto britânico se infiltra na Al Qaeda pra tentar descobrir um grande atentado. Forsyht continua com sua fórmula inconfundível de frases curtas e roteiro envolvente de suspense baseado em muita pesquisa. Mas esta é uma obra menor em comparação com outras suas, como os ótimos O Dia do Chacal e O Dossiê Odessa.

Esta frase de Oscar Wilde continua valendo:

“É absurdo ter regras absolutas sobre o que precisamos ler e o que não precisamos ler. Mais da metade da cultura moderna repousa sobre aquilo que não precisamos ler.”

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16

May

07

O cavalinho de Santarém

Eu tinha cinco anos e descíamos o rio Amazonas de navio, de Manaus a Belém. No porto de Santarém, meus pais compraram pra mim um lindo cavalinho de borracha de seringueira. De volta a bordo, brinquei brinquei brinquei. Aí larguei o cavalinho sobre um bote salva-vidas e fui fazer outra coisa. Quando voltei pra pegar, tinha virado uma gosma disforme. Derreteu no sol. E a correnteza do Amazonas já nos levava em direção ao mar, sem chance de marcha à ré. Foi minha primeira lição sobre a impermanência :)

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15

May

07

Onde estão os comentários?

Tuca, do Fiapo de Jaca – um blog saboroso como a fruta – conta quais são os cinco tipos de pessoas que deixam de comentar no seu blog: 1. O ressentido; 2. O sensível; 3. O crítico; 4. O que arranjou trabalho e 5. O preguiçoso. Pra quem tá sentindo a falta dos meus comentários, pode crer que me enquadro na quinta categoria. Na maior parte das vezes eu leio, aprecio e mando meus parabéns telepáticos ;)
~
Cheguei ao Fiapo de Jaca por meio dum post do Inagaki.

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15

May

07

Caminhos das Américas: Colômbia

Depois de um tempinho sem atualizar o blog, Serginho Severino volta a dar sinal de vida. Está na Colômbia, se preparando pra botar o carro num navio até o Panamá. Ele relata como foram os dias recentes também no Equador. Já são mais de 50 dias na estrada a bordo dum Land Rover.

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14

May

07

Mude

Em fevereiro de 2003, republiquei neste blog um poema chamado Mude, que recebi por e-mail com a informação atribuindo autoria a Clarice Lispector. Nunca é tarde pra corrigir um erro. O autor é Edson Marques, que o registrou na Biblioteca Nacional e está travando uma batalha judicial para ter seu direito reconhecido. A confusão começou quando a agência publicitária Leo Burnett fez um comercial em 2001 comemorando os 25 anos da Fiat no Brasil e apresentou o poema. O release à imprensa dava crédito a Clarice. Foi reproduzido em jornais e os versos caíram no gosto do povo através da internet. O caso foi parar na Justiça e envolve os herdeiros de Clarice, de quem a agência alega ter comprado os direitos de uso. Edson Marques chegou a publicar anúncio oferecendo 10 mil dólares a quem provasse que o poema era de Clarice. Ele criou um blog sobre a polêmica, Desafiat, em que explica toda a história em detalhes. Quanto a mim, contrito por ter involuntariamente ajudado a ampliar a marola do equívoco, peço desculpas ao autor, agradeço pelos versos inspiradores – já deletei do blog – e saio desta polêmica para sempre.

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