13
Sep07
A função da arte
Recebi da Adriane Canan:
Diego não conhecia o mar.
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!
[Eduardo Galeano, em O livro dos abraços]
~
Tou ajudando o Miguel a olhar. A piscina
13
Sep07
Uma viagem pela margem do Novo Chico
Caroline e Ticiani, duas estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, resolveram botar os pés na estrada pra fazer o trabalho de conclusão de curso. Elas estão percorrendo de carro, por um mês, a margem pernambucana do Rio São Francisco. Serão ao todo 500 quilômetros e dez municípios. Seu objetivo é contar sobre as pessoas que vão ter suas vidas afetadas pela obra. A aventura jornalística pode ser acompanhada no blog Às margens da transposição.
Fiquei encantado com a ousadia e a relevância da proposta. Esta pauta estava “caindo de madura”, como se diz entre os coleguinhas. O Brasil é um mundo de histórias a serem contadas, de gente simples e anônima que rala de sol a sol pra sobreviver e criar a família – neste caso, bote sol nisso! Quando essas pessoas vivem no entorno de um polêmico megaprojeto de engenharia, o registro de seus depoimentos ganha uma dimensão social e histórica importante.
Acho bacana a narrativa em primeira pessoa. Elas se colocam na história, com suas inseguranças, expectativas e o frescor de jornalistas em princípio de carreira – com os naturais escorregões que a falta de experiência possa trazer, mas com a vantagem de estarem livres dos vícios dos profissionais calejados pelo cinismo do dia-a-dia. As descrições do cotidiano da viagem, com seus estranhamentos e choques culturais, são saborosas. No dia 12, em Lagoa Grande, por exemplo:
(…) deparamos com uma espécie de mirante no Velho Chico. Não hesitei. Parei o carro e desci para ver aquela imensidão. A Carol me seguiu no primeiro instante, mas logo pediu para que saíssemos dali, se sentia ameaçada. Um bando de meninos, entre 13 e 15 anos chegavam no local. O que inibiu a Carol, me tranqüilizou. Eram apenas guris de ‘cueca’ indo tomar banho no rio. Eles usavam o mirante como trampolim. Numa tentativa de aproximação, não fomos bem recebidas. Tentamos puxar papo com duas meninas e elas não nos entendiam ou não sabiam lidar com a situação. Percebendo que não teríamos retorno, nos afastamos e ficamos só observando a movimentação. (…)
As impressões sobre a comida, o trânsito e o clima:
É difícil uma gaúcha e uma catarinense de São Joaquim admitirem, mas o vento também nos fez passar frio.Sombra? Que sombra?
As bicicletas acham que são motos.
Farofa é onipresente.
Baião de dois não é uma refeição que dá pra dois. É uma mistura de arroz, feijão, calabresa, bacon e o que mais se quiser por dentro.
A cobertura é multimídia, com textos, fotos e vídeos – estes últimos, por enquanto, ainda não estão no blog. Gostei da apresentação de fotos com a ferramenta slide. Senti falta do RSS e de uma variedade maior da tags – acho que o critério de classificar os posts só em “editorias” subutiliza o recurso, que possibilita entradas mais intuitivas. Encontrei uma referência a “não-cultura” associada à miséria e à seca que vão encontrar pela frente. A redefinição do conceito trivial de cultura pode ser uma surpreendente descoberta das viajantes…
Uma coisa maravilhosa nesse mar de histórias é que ele oferece várias continuações possíveis, a serem feitas por elas mesmas ou por outros. Um próximo passo seria visitar locais que vão receber a água da transposição. Outra abordagem possível é fazer esses dois caminhos daqui a alguns anos, numa viagem comparativa – se possível, revisitando os personagens que apareceram na jornada anterior.
Boa viagem, meninas! Desejo que esta viagem abra portas pra muitas outras. Abraços de um pernambucano na Ilha de Santa Catarina.
p.s.: “Transposição do rio São Francisco” tem 187 mil referências no Google.
12
Sep07
Brasiiiiiiil!
Passei o dia sem ler notícia. Aí abro o uol e leio que Renan Calheiros escapou da cassação. Em seguida: a pedido da Nestlé, que queria participar duma licitação, a Prefeitura de São Paulo piorou a qualidade nutricional de uma sopa pra escolas. Putaqueopariu!
12
Sep07
Dois irmãos

Olha só o mimo que o Julio mandou de brinde pro Miguel e pro Bruno junto com a encomenda dos ímãs de geladeira.
12
Sep07
Flores universitárias

Quando eu tirava esta foto no campus da UFSC, um cara passou e comentou pra si mesmo, alto o bastante pra que eu ouvisse: “Mas que bobagem…”. Quero crer que ele lembrava do verso da canção de Cartola, “…as rosas não falam/simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti”. Mas também pode ser que tenha achado bobagem fotografar flores quando eu podia documentar coisas politicamente mais relevantes. Ri pra ele, mostrando as minhas rugas de preocupação e continuei clicando. Esta aqui vai de presente pros meus amores.
11
Sep07
Meu 11 de setembro de 2001
Laura e eu morávamos no Rio. Os filhos ainda eram um sonho, a bolha da internet tinha estourado e nos deixado numa roubada. Eu ganhava a vida com frilas – entre eles o de resenhista de livros pra Editora Rocco, um trampo mal pago, mas delicioso de fazer. Tínhamos como hóspedes em nosso apê de Botafogo um simpático casal de cientistas franceses, Jéròme e Véronique. Tomávamos café da manhã quando o Marques Casara me ligou de São Paulo: ” – Liga a tevê!”. Ligamos e vimos o horror. Como tantos outros no mundo inteiro, acompanhamos ao vivo um avião se espatifar contra a segunda torre, imaginando que era uma reprise do primeiro. A campainha tocou. Era David, um amigo taxista nascido no Colorado, morador do Texas e apaixonado por música brasileira. Chegou transtornado. Todos ficamos suspensos num sentimento de quase irrealidade diante das novas notícias – o avião no Pentágono, o avião derrubado, os boatos. Não me lembro muito bem, mas acho que tomamos uma bebida forte. E tentamos continuar o dia na maior normalidade possível, mas com a plena consciência de que nada mais seria igual. Peguei um táxi pra Gávea e fui resolver uma burocracia de segunda via do certificado de dispensa militar, pra conseguir renovar o passaporte. Com o taxista troquei palavras de perplexidade. Lembrei de comprar os jornais no dia seguinte e guardar como documento histórico. Um mês depois nos mudamos de volta a Floripa.
11
Sep07
11
Sep07
Miguelices: novas descobertas no planeta água
Hoje Miguel foi à primeira aula de natação. Fiquei emocionado, lembrei muito do seu primeiro dia de aula. A princípio ficou assustado, chorou um pouco e grudou em mim. Sentei na borda da piscina e fiquei batendo os pés. Ele aos poucos foi se soltando, ajudado pelos coleguinhas e pelo talentoso professor Fernando, que Laura e eu já conhecíamos de antigas braçadas. A brincadeira de jogar água nos outros com uma meia garrafa PET furadinha foi a deixa pra ele se aproximar. Fernando aguardou, paciente, o momento ideal, e logo o Migo já estava nos braços dele dentro d´água. Medo e fascínio, insegurança e curiosidade. Essa confusão de sentimentos é o começo de uma aventura cheia de descobertas maravilhosas.
10
Sep07
Anotação de leitura sobre infância
…pensar a criança como um outro, ir ao seu encontro como alguém diferente de nós, adultos, diferente de nossas expectativas, daquilo que projetamos para ela, como alguém que rompe com as nossas certezas, que coloca o presente numa situação crítica, provocando a mudança do nosso olhar e a possibilidade da transformação.
Texto de autoria desconhecida, citando Larossa (1999).
10
Sep07
A boa ação do domingo
Salvei a vida de uma rolinha. Ela já estava com a cabeça inteirinha dentro da boca do Branquito, que se preparava pra completar o serviço. Segurei por trás do pescoço dele, forcei sua mandíbula e a peguei com cuidado, ante o olhar frustrado do felino. Mal se recuperou do susto ela voou, deixando umas penas de recordação. Faltou fotografar. Mas outra hora eu faço isso – a primavera tá só começando.








