03
Nov02
Lendo e adorando: Shantala
Comprei este livro de Frédérick Leboyer depois da recomendação enfática de Tomate e Blue, dois amigos que são pais recentes. Valeu cada centavo. Com um estilo simples e poético, ele dá dicas precisas sobre a técnica indiana milenar de massagear bebês. Casamento perfeito entre ciência e tradição. Tenho certeza que o mundo seria um lugar muito mais feliz se todos tivéssemos ganhado massagem da mãe quando bebês.
Editora Ground, 168 páginas, 28 reais
03
Nov02
Banner novo
Tirei a foto na praia de Ponta das Canas. Em geral gosto mais de mar grosso, mas essa é uma das minhas praias preferidas na Ilha quando tou a fim de nadar. Água morninha e tranqüila, visu de cartão postal.
02
Nov02
Água na boca
Hoje matei a vontade de uma das comidas que tenho mais saudade da culinária nordestina: tapioca. O restaurante da Cida Baiana, na Lagoa, abriu um café rural & tapiocaria. Delícias e mais delícias. Minha meta é, aos poucos, experimentar todo o cardápio.
02
Nov02
Loucos
Bernard Shaw, citado por Millôr:
”Todo homem sensato aceita o mundo como ele é. Só os loucos tentam reformar o mundo. Portanto todo progresso depende dos loucos”.
01
Nov02
As Sem-Razões do Amor
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo,
não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
31
Oct02
E o prêmio Paranoid News de hoje vai para o jornal canadense National Post:
Brazil’s leader pledges to build nuclear arsenal
31
Oct02
Bela crônica do amigo Marques Casara:
Os bodes do presidente
Domingo à noite eu estava sentado numa fileira de cadeiras dispostas em um dos auditórios do hotel Intercontinental, no centro financeiro de São Paulo. Umas 200 pessoas esperavam o presidente eleito, a maioria formada por representantes de governos estrangeiros. À direita eu tinha um gringo que não conseguia ficar sentado. Nervoso, olhava o relógio e perguntava o tempo todo:
- Viene el presidente?
- Si, si, viene el presidente, eu respondia.
Meu pensamento estava longe. Pensava: Ele vai levar os bodes? Será que vai mesmo levar os bodes?
Lá na frente tinha um telão retransmitindo a Globo: comentaristas informavam sobre a apuração. Na minha esquerda estava minha mulher, enrolada numa bandeira vermelha e branca. Ao lado dela, uma senhora chorava com abundância. Uns 60 anos de idade, bem vestida, advogada. Repetiu dezenas de vezes a seguinte frase: “fomos muito discriminados, fomos muito discriminados”. Depois contou que é uma pessoa rica e que há 15 anos ficou amiga de Marisa da Silva. Tudo mudou a partir de então. Decidiu abraçar a causa operária. Virou motivo de chacota e preconceito no bairro de elite onde vive.
- Todas as minhas amigas me abandonaram, mas agora nós vencemos.
E chorava lagrimas que contivera durante décadas.
Duas fileiras adiante estava a mulher da América Central, corpo todo marcado pelos combates na selva. Guerra química aplicada pelos americanos, segundo disse, e que deixou sua pele como a de um crocodilo. Ao lado dela tinha um homem muito velho com um desenho estranho no braço.
- O que é esse desenho?
- Não é desenho, filho. É um número. Um dia fui um número no campo de concentração….
Pensei: tem aqui uma turminha bem heterogênea.
Mais a frente tava o Zé Dirceu, o Mercadante, a Marta. Quando a Benedita entrou o auditório quase veio abaixo. Poucos minutos antes,na TV, Lula havia dito que Benedita era a primeira negra a assumir um cargo de governadora, e que isso era tão importante quanto a abolição da escravatura. Disse com as palavras dele, carregadas de emoção e que não consigo reproduzir.
- Viene el presidente? Si, viene!!
E eu com a idéia fixa: será que vai levar os bodes?
Os pasteizinhos haviam terminado e só restavam farelos nas bandejas quando o Lula entrou no auditório. Seus olhos brilhavam de um jeito que nunca vou esquecer. Todos levantaram, bateram palmas, cantaram, gritaram e deram graças. Falou 15 minutos. Não consegui prestar atenção. Pensava nos bodes. Passei o segundo turno inteiro pensando nos bodes do Lula.
Faltava um mês para a eleição quando ele tocou no tema. Estava na chácara que tem São Bernardo, sentado numa grande mesa de madeira ao ar livre, a espera do almoço dominical. Fazia um sol de rachar e era um dos poucos dias de folga do candidato. As 10 da manhã Marisa havia decretado: é proibido falar de trabalho. E ai, é claro, todos ficaram sem assunto. As crianças jogavam bola no quintal, as mulheres preparavam a salada, os homens ajudavam no fogão. Música caipira no 3 em 1. Fiquei pensando se era o mesmo 3 em 1 que o Collor havia dito que era melhor que o dele. Deveria ser, pois a sonoridade era péssima.
O Lula tava sentado na grande mesa. Dia de folga, nem pra cozinha foi.
- Sabe, tem uma coisa que às vezes eu fico imaginando – disse ele.
- São esses meus bodes que eu tenho aqui na chácara, essa meia dúzia de bodes que tão ali naquele cercadinho.
Abriu os braços e fez um movimento amplo, como a libertar os bodes do pequeno curral.
- Eu fico pensando nesses bodes todos pastando naquele gramado que tem em volta do Palácio do Planalto, aquela graminha verde e tenra que tem em volta da casa do presidente.
E riu da própria piada. Pegou um violão que tinha em cima da mesa e caminhou até a rede. Pediu para o filho trazer o outro violão e ficaram lá, ensaiando uma moda.
Segunda feira passada falou na televisão ao meio dia, na condição de presidente eleito. São Paulo parou. As pessoas que caminhavam no centro se amontoaram em frente aos bares para assistir o pronunciamento. Os funcionários deixaram de lado o que faziam e ligaram a televisão, o rádio de pilhas. Os taxistas do ponto deixaram a conversa de lado e aumentaram o volume do rádio.
O que está acontecendo?
É o Lula, o presidente. Está fazendo o pronunciamento.
Não era a final da copa do mundo. Era o presidente agradecendo ao povo. Não falou dos bodes. Mas falou de união, de respeito, de dignidade. Falou de esperança.
Sinto-me um bode libertado.
(por Marques Casara)
28
Oct02
Power to the people: o dia seguinte a um dia histórico
Ontem de noite fui comemorar na rua. E vi a festa cívica mais bonita da minha vida, talvez só igualada aos comícios do movimento Diretas Já. Logo depois que Lula fez seu pronunciamento como presidente eleito, o povão cantou junto o hino nacional. Foi lindo olhar as pessoas nos olhos, falar com elas sem precisar de palavras. De arrepiar! Um personagem, entre tantos, me chamou a atenção: um sujeito vestido com uma roupa engraçada verde colante, com capa e óculos grandes. Na roupa tava escrito: Super-cidadão. Essa fé coletiva numa vida mais justa, por mais ingênua que possa parecer, é poderosa. É energia em estado puro, água jorrando em comportas abertas de milhões de Itaipus. A mudança é inevitável.
*
Hoje vi muita gente rindo “à toa”. Ressaca de festa boa que lavou a alma. De tarde, li a notícia que Lula pretende criar uma Secretaria Emergencial de Combate à Fome, já no dia primeiro de janeiro. Prioridade acertadíssima: um país não vai pra frente com suas crianças de barriga vazia. No Jornal Nacional ele enfatizou essa obsessão: fazer com que todo brasileiro possa ter direito a três refeições por dia. Um dia vou poder mostrar ao meu menino os jornais de hoje e dizer: “Filho, você nasceu num tempo difícil, mas maravilhoso, porque as pessoas não tinham vergonha de sonhar”.
26
Oct02
26
Oct02









