05
Mar09
A degradação da cidade dos remendos
Recebi por e-mail do Fabrício Boppré, leitor do blog que está vivendo no exterior, esse desabafo sobre a degradação de Floripa. Sua indignação tem minha total simpatia e expressa o sentimento de muita gente que vive aqui.
Todo dia agora eu leio duas ou três notícias assim, ocorridas aí na nossa cidade. Destaco essa porque aconteceu ali nas ruas onde passei uma infância tranquilíssima e maravilhosa, e onde a partir de agosto volto a caminhar diariamente. Ou não.Enquanto isso, nossos governantes (que NóS elegemos) só falam na copa, no congresso de turismo, no evento de mágica… 1 bilhão para isso, 15 milhões para aquilo. É como se Fpolis fosse Amsterdã, não há problemas de ordem HUMANA, então façamos da vida uma celebração. Quando algum problema que não pode mais ser empurrado com a barriga exige ação, então cria-se um viaduto remendado aqui, direciona-se um esgoto para uma praia menos famosa ali, aumenta-se um imposto acolá, cria-se uma comissão para estudar como os presos de um cadeião super-lotado escapam pela porta da frente, e toca o barco, dá de enganar o povo na boa. E a cidade REAL, lentamente, vai se transformando numa miniatura de São Paulo (pelo caos urbano) com Rio de Janeiro (pela insegurança).
Aqui do exílio, tenho saudades da cidade à beira-mar e da ilha onde cresci, mas pelo visto, é uma saudade que eu, ou nós, carregaremos pelo resto de nossas vidas… (sou pouco afeito a sentimentalismos, mas dada a variedade de pessoas que receberão este e-mail, melhor dizer isso do que o que eu realmente queria dizer, “somos um bando de otários que adora eleger aqueles que têm a maior capacidade possível de nos FODER e de DESTRUIR a médio prazo nossa cidade”).
abraços,
Fabricio








Seus comentários são muito benvindos, Fabrício. A porta tá aberta. O mesmo pro seu irmão, que não creditei porque não sei o nome. abs
Por fim, antes de pedir desculpas por monopolizar o espaco aqui do teu blog [risos], queria acrescentar um trecho de um comentario que meu irmao me enviou, em resposta ao meu e-mail. Eh um bom complemento, aborda outro lado da noticia original, da execucao do rapaz la na avenida central do Kobrasol. Segue. E a vida continua!
(…) O que eu sei é que após viver por um tempo num lugar onde o HUMANO é a medida das coisas, fica difícil voltar para um lugar (qualquer que seja, Florianópolis, Rio de Janeiro, Cidade do México, Pequim, etc.) em que o HUMANO é a moeda de troca para outras coisas: corruptelas, estelionatos, sequestros, mais-valia abusiva, etc. E o pior de tudo é ver que a morte está banalizada não só pelos assassinos, mas pela imprensa, pelos leitores, pela polícia que, por exemplo, quando descobre que a vítima supostamente tinha envolvimento com o tráfico, acha que está tudo bem, que não merece a devida investigação, que foi uma limpeza. Isso é eugenia em pleno século XXI. A VÍTIMA FOI MORTA COM UM ANIMAL, EM PLENO CENTRO DE UMA CIDADE, COM DIVERSAS PESSOAS ASSISTINDO O SACRIFÍCIO E, NO OUTRO DIA, ACHANDO NORMAL TOCAR SUAS VIDAS COMO OUTRORA. Perdemos a dimensão do HUMANO. Isso eu não tenho dúvida. Agora o que eu não quero é assumir que somos todos BESTAS.
(comentario propositalmente sem acentos) Dauro, valeu pelo espaco, foi um debabafo que pode parecer um desses emitidos pela classe media que vive sossegada e alheia num mundo paralelo de conforto e civilidade, mas fica horrorizada e esperneia quando ve acontecer algo na porta de sua casa (e isso eh cada vez mais frequente). Nao eh o caso, pode acreditar. Essa degradacao a gente acompanha faz tempo, a cada eleicao gritamos e apontamos, mas sempre somos miseravelmente sufocados pelo sucesso que os caras tem na arte de iludir o povo, em cultivar seu eleitoradozinho que nao ve muito alem de uma obrazinha na sua rua as vesperas das eleicoes aqui, um viaduto ali, uma ligacao de luz ilegal sendo legalizada acola. Sem contar as outras incontaveis politicagens nojentas que garantem no poder sempre essa gente que nao pensa nas nossas cidades a medio/longo prazo, que acha que cultura deve ser subordinado a turismo e esporte, que nao se importa que uma cidade tenha uma unica biblioteca (tem ainda?) mas acha importante que ela tenha um festival de fogos de meia hora para os turistas verem no fim do ano. E fora ressaltar essas coisas todas, muito pouco de efetivo podemos fazer, pois os tenataculos dos caras sao longos, as manobras sao sagazes…
Escrito nessas condicoes de pressao (raiva) e temperatura (frustracao), acho que ali pelo meio perdi um pouco o foco da coisa, falei dos remendos e dei uns exemplos quaisquer, coisas que nos lemos diariamente no Cesar Valente, no Damiao, esse pessoal que faz esse trabalho fabuloso de denuncia da inepcia de nossos governantes. Dai nao sei se me fiz entender, mas a questao eh que uma coisa leva a outra, a falta de empenho nas questoes humanas, nas questoes estruturais da cidade, leva a degradacao, que leva a perda do espaco urbano, que leva a violencia, aos acertos de contas entre os marginais (nao no sentido preconceituoso do termo, mas no sentido de quem esta a margem da sociedade mesmo) em plenas avenidas principais de nossa cidade, e por ai vai.