Posts com a tag ‘natal’

25

Jul

08

Pérolas do passado

Nesta quinta, abri uma caixa de slides que meu irmão André guarda em sua biblioteca. São mais de 500 fotos de família, a maior parte do tempo em que vivemos no Amazonas – finalmente vou poder provar com imagens aquela minha história de que criamos um bicho-preguiça em casa. Há também muitos momentos cotidianos da minha infância e da dos irmãos: escola, casa, viagens de barco, festas juninas na nossa rua em Natal, Copa de 1982… Uma preciosidade, mergulho em cores na história familiar das últimas quatro décadas. Selecionei umas cem fotos pra primeira fase do esforço de digitalização.

À noite saí pra jantar com dois grandes amigos do tempo de colégio Marista, Henio e Jodrian. O tempo voou enquanto secávamos duas garrafas de vinho tinto e degustávamos pastéis de camarão com arrumadinho. Muitas lembranças comuns de fatos triviais e importantes, umas complementando as lacunas das outras. Em certo momento, Jodrian me surpreendeu com um envelope. Lá de dentro, tirou um conto datilografado por mim em 1981 (“O caso Ernesto”) e dedicado a ele, com um agradecimento pelas sugestões de mudanças no enredo. Fiquei surpreso, eu não me lembrava mais de ter escrito aquilo. Pelas linhas que li rapidamente, na época eu estava influenciado por Allan Poe. Em breve vou publicar o conto aqui na íntegra.

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25

Jul

08

Turismo, sexo e intercâmbios culturais

Na quarta-feira fui conferir os botecos descolados da “rua do Salsa”, no conjunto Alagamar (em Ponta Negra), também conhecida como “rua das putas”. Nunca tinha visto tanta garota de programa por metro quadrado. De nosso privilegiado posto de observação na mesa de plástico duma calçada de estacionamento (cerva mais barata), víamos os táxis parando pra desembarcar mulheres dos mais variados matizes: das vestidas de vadia, com maquiagem berrante e metade da bunda de fora, às discretas e elegantes, com ar recatado e fivelinha no cabelo. Música dançante e público variado: natalenses, turistas europeus, turistas brasileiros – pra cada perfil, um valor diferente na tabela informal.

No dia anterior, um amigo comentava como seria interessante se uma ong qualquer oferecesse cursos de gestão financeira pras putas. Muitas gastam até R$ 150 por dia com táxi. Se investissem esse dinheiro na compra de um carro em prestações, teriam condição de contratar um motorista pra levá-las pra cima e pra baixo. E ainda sobraria dinheiro pra poupar e ajudar a família. Algumas têm mais tino. A filha de uma ex-empregada nossa, por exemplo, virou garota de programa. Ultimamente passou a manter relação estável com um italiano (agosto é o mês deles aqui). Já viajou à Itália e está estudando o idioma pra se virar melhor por lá. Assim como ela, diversas garotas natalenses que trabalham na noite estão estudando italiano, inglês ou espanhol. Nem sempre o motivo é pecuniário. Também há casos de paixão mútua, choro em despedida e casamentos.

Nesses dias todos que passei em Natal, não percebi um único caso de exploração sexual de crianças e adolescentes. Não digo que não exista, mas o fato é que as campanhas de advertência em hotéis, bares e no aeroporto, somadas à repressão policial, ajudaram a pôr limite na esbórnia. No pico do movimento turístico de estrangeiros, com 20 e tantos vôos semanais vindos da Europa, ocorriam situações constrangedoras. Um homem não podia mais ir ao banheiro e deixar a namorada sozinha na mesa do bar, especialmente se ela tivesse pele escura. Um xopin center precisou tomar medidas duras contra os europeus que assediavam garotas adolescentes na fila do cinema e na praça de alimentação.

A pressão social, o encarecimento do turismo externo e as operações policiais contra quadrilhas estrangeiras que lavavam dinheiro contribuíram pra limitar o turismo sexual a espaços tolerados pela comunidade. Houve também alguns efeitos positivos nesse intercâmbio cultural com os europeus, observou meu amigo durante o passeio pelo calçadão de Ponta Negra. A sociedade natalense largou muitos hábitos conservadores, como o preconceito contra homossexuais. Hoje, dois homens se beijando dentro de um ônibus são encarados com naturalidade pelos natalenses, o que não ocorria até há pouco tempo. Em certo sentido, é o que ocorreu quando as tropas americanas se instalaram aqui durante a segunda guerra: Natal foi uma das primeiras cidades brasileiras onde as mulheres passaram a mascar chicletes, fumar e usar calças compridas.

Uma conclusão inevitável: a profissionalização e a globalização do turismo deveriam ser acompanhadas pelo reconhecimento dos direitos dos profissionais do sexo. Medidas como a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, os programas de apoio socioeducativo, o combate rigoroso à exploração infanto-juvenil, ao lenocínio e à violência contra as mulheres precisam se tornar rotina no planejamento de qualquer cidade turística que leve a atividade a sério. É a atitude mais inteligente a ser tomada pelos gestores de políticas públicas, já que combater a prostituição é como querer agarrar a chuva com os dedos.

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24

Jul

08

Natal em Natal

Laura me conta que teve uma discussão com Miguel:

- Ele disse que em Natal é Natal todo dia. Que o Natal tá acontecendo em Natal. Aí eu falei que a cidade se chama Natal porque foi fundada no dia de Natal. Ele disse que não. É porque todo dia é Natal. Ficou bravo!

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24

Jul

08

Paris, Natal

Terça à noite saí com quatro amigos dos tempos do jornalismo da URFN: André Alves, Luís Benício, Geider e Solino. Tomamos cerveja de trigo e comemos arrumadinho num bar de Petrópolis, perto da Cultura Inglesa, meu primeiro emprego. Muito legal rever essa turma.

Benício foi com a mulher, Joelma. Ele trabalha no TRT e edita um programa de gastronomia na tevê. O casal tem dois filhos. O mais velho, de 19, mora em Floripa e estuda na UFSC. Isso quer dizer que vamos nos encontrar mais vezes. Fazia mais de dez anos que a gente não se via.

André, poeta e contista de humor peculiar, também é funcionário público. Contou histórias engraçadas sobre o nepotismo e a vagabundagem nas repartições. Desde que saí de Natal a gente tem mantido contato esporádico por correio e e-mail. Foi com a mulher e a sogra (acho).

Geider viveu anos na França, casou com uma francesa e separou, tem dois filhos e mora num sítio na zona sul de Natal. Ele é editor e apresentador do telejornal do almoço na TV Cabugi, afiliada da Globo. Combinamos de um dia desses invadir seu sítio pra fazer festa.

Solino era da chapa de oposição do C.A. quando fazíamos política estudantil. Mas sempre tivemos um relacionamento civilizado, lembra. Chargista talentoso, largou o traço pra se dedicar à publicidade. Ah, o homem estuda japonês e tem dois blogs.

Falamos de muita gente, do rumo que tomaram nossas vidas ali e cá, de carecas e cabelos grisalhos, de ex-professores, de academia e mercado, dos espigões à beira-mar e o dilema natalense “desenvolvimento sustentável versus especulação”, semelhante ao de Floripa…

Eles lembraram de um pacto que tínhamos combinado na faculdade em 84, de nos encontrarmos no ano 2000 ao pé da torre Eiffel em Paris (eu já tinha esquecido essa, mas não importa o lugar, sempre é tempo de se encontrar). Noite agradável embalada pela brisa. Preciso vir mais a Natal.

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23

Jul

08

O coco nosso de cada dia (2)

Manta no xopin de artesanato: 55 reais. Manta negociada direto com o fornecedor que traz a mercadoria de Pernambuco: 40 reais. Sobram 15 pra tomar de água de coco. Do ambulante na praia.

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23

Jul

08

O coco nosso de cada dia

Água de coco de vendedor ambulante na praia: cinquenta centavos. No quiosque: dois reais. Descobrir isso depois de tomar água de coco no quiosque tem preço sim: três cocos não tomados.

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22

Jul

08

Aventura indoors em Natal

Acabo de escapar de uma armadilha no apê do meu irmão. Eu tinha entrado na área de serviço pra lavar roupa quando o vento bateu a porta, que não tem trinco por dentro. Fiquei 40 minutos trancado junto com a cachorrinha salsicha deles. Ninguém em casa, celular inacessível, não havia como chamar ajuda. Tive que arrombar a janela basculante do banheiro da sala que dá pra área, usando um pedaço de madeira como alavanca. Depois sustentei aberta a armação de alumínio com um pequeno quadro negro, subi num cercadinho de criança apoiado por vassouras (o quarto de brinquedos foi bem útil), consegui enfiar uma perna e fui descendo devagar, de costas, até passar o corpo todo. Fora alguns arranhões na armação da janela, saí intacto. Agradeço às aulas de yoga (preciso voltar) e ao seriado McGyver pela minha fuga perfeita.

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22

Jul

08

Encontro feliz no calçadão de Ponta Negra

Dia feliz! Eu caminhava com Flávio e João Augusto pelo calçadão de Ponta Negra. De repente ela se materializou na minha frente com um sorriso lindo. Nem sabia que eu estava em Natal e a procurava, com pouca esperança de encontrar seu rastro. Foi uma emoção forte, depois de tanto tempo sem contato – a última vez que falamos tinha sido há um ano e nove meses, por telefone, uma conversa áspera e triste. Pedi pra meus amigos continuarem a caminhada. Descemos pra areia, tomamos água de coco e botamos as pendências em dia – assuntos complicados de família que não interessam aos leitores. Minha irmã me pareceu bem. Mais amadurecida e confiante. Liberta. Combinamos de amanhã ou depois nos encontrarmos de novo, ela vai levar os três meninos à praia. Segui a caminhada com meus amigos, me sentindo leve. Pensando em como é inútil julgar os outros ou pretender que se pode viver a vida pelos outros. Pensando nas voltas que a vida dá pra que as pessoas encontrem seu lugar no mundo.

p.s.: Hoje fiz as pazes com o calçadão de Ponta Negra :)

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22

Jul

08

Amigos

Tou há 35 horas em Natal e três amigos já me convidaram pra caminhar no calçadão da praia de Ponta Negra. Ok, adoro caminhar, mas não deixa de ser engraçada essa preocupação dos quarentões com a saúde: nos velhos tempos, me chamavam era pra tomar cana :)

Pensando bem, a gente suava. Dançando forró (no meu caso, tentando, pelo menos), correndo pra pegar ônibus, fazendo trilhas pra chegar em praias desertas e acampar… As histórias de empurrar carro quebrado dariam um capítulo inteiro da minha fase natalense.

Ontem andei no calçadão com Flávio, amigo-irmão, um dos caras mais zenerosos e desapegados que conheço. Tomamos açaí e falamos de tudo um pouco. Nem parecia que nosso último encontro tinha sido há cinco anos. Com Marcello, no domingo à noite, o mesmo.

Voltar a Natal é um reencontro com minha juventude, com tempos risonhos em que a gente se sentia imortal, em que as amizades eram absolutamente desinteressadas. Tanto é que alguns amigos daquele tempo são os grandes Amigos com letra maiúscula.

A gente olha uns pros outros, se sacaneia (“E aí, gordo? Fala, careca!” “Digaí, tiozinho!”), comenta do colesterol e triglicerídeos, se congratula por sobreviver. E pela alegria do reencontro, sem a ilusão de que vai ser a mesma coisa. Tudo muda o tempo todo.

Hoje mais um queridão, João Augusto, passa aqui. Ontem ao telefone foi engraçado, ele me confundiu com outra pessoa e queria me vender mel. Depois me ligou de volta e rimos. João tá criando abelha no sítio dele, o CDB (Cu de Burro).

Esses são da turma do bairro. Compas de festas e velórios, viagens e carnavais. Os três cruzaram o Brasil pra me visitar em Floripa. Nos próximos dias vou encontrar a turma da escola e da universidade. Alguns não vejo há 23 anos. Mas vamos dar um tempo de calçadão, tá?

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21

Jul

08

Crônicas natalenses: Ponta Negra

Em Natal desde domingo à tarde. Emoções contraditórias ao rever, depois de cinco anos de ausência e 23 anos de mudança, a cidade onde passei a adolescência. Estou no apê do meu irmão André, perto da praia de Ponta Negra. Nesse lugar tive alegrias imensas e algumas tristezas gigantes. Minha mãe está enterrada no pequeno cemitério da vila. Lembranças agridoces me acompanham a cada passo.

Ontem dei uma longa caminhada pelo calçadão até quase o morro do Careca. Desapareceram aquelas barracas charmosas e anti-higiênicas da beira-mar. Agora há uma fieira de restaurantes, bares, pousadas, casas noturnas, imobiliárias anunciando terrenos em inglês e espanhol, carros da “tourist police” circulando devagar, gringos caçando putas. A parte baixa de Ponta Negra anda decadente, me conta mais tarde o amigo Marcello, entre um uísque e outro. Os natalenses não vão mais lá, preferem outros points. Há uma rua no conjunto Alagamar que hoje concentra os botecos legais.

A antiga Bodega da Praça, na Vila, onde tomávamos cachaça com laranja ao som de violão, hoje é um mercadinho. A casa do saudoso centro cultural Babilônia, onde viveram meus amigos Ayres e Gigliola – hoje na Itália – está abandonada e depredada (passei momentos muito bons ali, a cena me impactou). A Vila dos pescadores, que já foi bucólico refúgio de bichos-grilos, viveu um período de violência ligada ao tráfico. Hoje, pelo que relata a cunhada Andréia, está mais tranquila – os bandidos foram se matando uns aos outros e os estrangeiros continuam comprando terrenos num dos lugares mais bonitos de Natal. Enfim, tudo mudando o tempo todo, como manda a lei da vida.

Em duas décadas a ingenuidade provinciana deu lugar ao turismo internacional, ultra-profissional (“faça sua reserva e entregamos sua encomenda no hotel”, anuncia cartaz na loja de cachaças finas). Já foi bem maior o movimento. O turismo estrangeiro em Natal caiu 75% por causa do real forte, diz um jornal local. No alto de Ponta Negra, prédios de vinte e tantos andares rasgam a paisagem. Dezenas de pousadas, hotéis, locadoras de carros. Um xopin com sete cinemas. Um xopin só com “artesanato potiguar” – boa parte trazida do Ceará, que eu sei. Pra onde vai toda essa merda de tanta gente? Pelo que me contaram, há uma estação de tratamento de esgoto no bairro, mas em dias de chuva forte, a bostarada toda escoa pro mar.

Ah, o mar de Ponta Negra… Continua lindo, verde claro em dias de sol, cor de esmeralda em dias nublados de “inverno” como ontem. A brisa que sopra do oceano continua presente, deliciosa, perene. Os barquinhos de pesca continuam ali, ancorados perto da enorme duna de areia, cartão postal que resiste ao tempo. Já são mais de 10h30 e o dia está claro desde as cinco da manhã. Vou andar mais por aí.

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