Posts de 2009

12

Apr

09

Trabalhadores da cana (3)

Terceira parte da série de reportagens e entrevistas sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil.

Convenções e acordos coletivos

Os cortadores de cana estão entre os trabalhadores rurais que mais conseguem firmar convenções e acordos coletivos, mas nem sempre isso garante o cumprimento dos seus direitos.

Por Dauro Veras

Existem no Brasil cinco milhões de trabalhadores assalariados rurais, estima a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Eles são o contingente mais explorado e marginalizado entre as pessoas que trabalham na agropecuária. Desse total, em torno de 2 milhões têm postos de trabalho fixo, em que o contrato é por tempo indeterminado. Um milhão e meio de pessoas trabalham pelo menos uma vez por ano entre quatro e oito meses, no período da safra – contrato de safra. Outro 1,5 milhão trabalha em culturas de curta duração, como feijão, milho, tomate, hortifrutigranjeiros e café. Desses, a grande maioria não tem carteira de trabalho assinada e a duração de sua atividade é de no máximo 15 dias. Muitos trabalham em três ou quatro estados ao longo do ano, mudando-se conforme a disponibilidade de vagas em diferentes lavouras.

Nos tratos culturais e na colheita da cana-de-açúcar são empregados em torno de um milhão de assalariados no Brasil, segundo fontes empresariais . É difícil precisar esse número, porque parte dos trabalhadores é empregada de forma clandestina e temporária. Também há variações conforme fatores climáticos, mudanças de remuneração nas demais lavouras e outros fatores. Levantamento de 11 federações vinculadas à Contag nos 11 principais estados produtores apurou cerca de 779 mil trabalhadores empregados nas safras e entressafras.

Paradoxalmente, apesar das frequentes violações de direitos a que estão sujeitos, os cortadores de cana estão entre os poucos segmentos de trabalhadores rurais que conseguem conquistar acordos coletivos. (…)

Continua

Parte 1
Parte 2

Cortador de cana em Guariba, SP. Foto: Dauro Veras

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11

Apr

09

Trabalhadores da cana (2)

Segunda parte da série de reportagens e entrevistas sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil.

São Paulo:
modernização e dilapidação

A evolução da tecnologia sucroalcooleira tem provocado efeitos contraditórios; se por um lado traz divisas ao país, por outro tem contribuído para a precarização do trabalho

Por Dauro Veras

A modernização da cultura canavieira no Brasil atinge diversas fases do processo produtivo. Desde a década de 1970, pesquisas na área da biotecnologia têm levado ao aumento nos teores de sacarose, a um melhor controle de pragas e ao prolongamento da vida útil da planta. Grande variedade de produtos químicos também passou a ser utilizada no controle de pragas, doenças e ervas daninhas. Várias empresas aplicam esses produtos utilizando aviões. (1)

Tudo isso tem permitido a elevação da produtividade em torno de 20% por hectare. Alterações genéticas fizeram com que a média passasse de 70 toneladas por hectare para 86,6 em São Paulo. Estima-se que na safra 2007/2008 essa produtividade chegará a 89,5 toneladas por hectare no estado [texto redigido em 2007].

Essa modernização tem provocado efeitos contraditórios, segundo os pesquisadores do setor. Ao mesmo tempo em que gera divisas para o país, também tem pressionado os salários, enfraquecido o movimento sindical e contribuído para o agravamento das condições de trabalho. As mudanças também têm causado efeitos negativos nas condições de saúde – em casos extremos, levando trabalhadores à incapacidade e à morte.

Outros efeitos incluem exclusões de gênero e idade: mulheres e idosos estão sendo eliminados da força de trabalho nos canaviais. O tempo de vida útil de um cortador de cana hoje é de 12 anos – inferior ao do período da escravidão, segundo alguns estudiosos do tema. (2) A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), afirma que o fenômeno está diretamente ligado à busca de maior produtividade pelas empresas do setor.

Para conseguir ganhar o suficiente, os trabalhadores se obrigam a colher até 15 toneladas por dia e andam até nove quilômetros na jornada. O esforço físico extenuante e repetitivo, a alimentação deficiente e as condições precárias de saúde e segurança no trabalho levam os trabalhadores a ter sérios problemas de coluna, tendinite, câimbras nas pernas, braços e pés. Há denúncias, no estado de São Paulo, de pelo menos duas dezenas de casos extremos, em que ocorreram mortes ligadas ao esforço físico. (…)

Continua

Parte 1

Foto: Trabalhador da cana no interior de São Paulo. Dauro Veras

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10

Apr

09

Trabalhadores da cana (1)

Começo a publicar hoje uma série de reportagens e entrevistas que fiz a partir de 2004 sobre os trabalhadores da cana-de-açúcar, como parte de um estudo coletivo sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil. Esse estudo, realizado por iniciativa da Oxfam e do Instituto Observatório Social, teve circulação limitada. Em função da relevância crescente do tema, decidi compartilhar na internet a parte que me coube, ressalvando que fiz as últimas atualizações em meados de 2007. As opiniões expressas não são necessariamente endossadas por essas duas entidades, às quais sou muito grato pelo apoio.

Os migrantes da cana

Estudos da socióloga Maria Aparecida Moraes Silva, da Unesp, com trabalhadores nos canaviais paulistas, mostram que as indústrias sucroalcooleiras do estado não têm responsabilidade social

Por Dauro Veras

“Zé Pretinho amava a cana. Ele tinha uns 25 a 27 anos. Era um monstro, o melhor cortador da região. Ele chegava a cortar mais de 30 toneladas [por dia] e, no fim, dava um beijo na última cana antes de passar o facão. Um dia ele tava trabalhando e teve um ataque. Vi ele morrer abraçado num feixe de cana. Aquele ali era apaixonado.”

(Cortador de cana baiano em uma pensão de Guariba, SP) *

“Um dia, no canavial, tive uma câimbra tão forte que caí. Meus braços ficaram retorcidos de dor. Vomitei e não veio nada, o estômago estava vazio. Fui levado ao hospital pra tomar soro. Depois da terceira dose melhorei e fui pra casa. No dia seguinte ainda estava muito fraco e não fui trabalhar. Mais um dia e eu já estava de volta no canavial.”

(Walter, maranhense, corta cana em Guariba, SP. Vive com a mulher e duas filhas em uma casa alugada de 15 metros quadrados, sem água encanada). *

Eles vêm do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, do norte do Paraná e de vários estados do Nordeste. São homens entre 16 e 25 anos, com pouca ou nenhuma escolaridade e sem qualificação profissional. Todos os anos, na safra da cana, milhares – mais de 70 mil na safra 2006, segundo estimativas empresariais – se deslocam de seus municípios de origem para trabalhar por cerca de oito meses no estado de São Paulo. Alguns se deslocam com suas famílias, mas boa parte viaja sozinha, deixando mulher e filhos nos municípios de origem.

Deste do início de 2004 a Pastoral do Migrante da diocese de Jaboticabal (SP) vem realizando trabalhos de apoio aos migrantes temporários em São Paulo. Membros da entidade estiveram em 72 alojamentos encravados em canaviais e mais de 4 mil pensões nas cidades dormitórios. Foram visitados mais de 62 mil migrantes.

Em decorrência da terceirização da mão-de-obra, 64% dos trabalhadores rurais migrantes se encontram em péssimas condições de vida e trabalho, denuncia entidade da Igreja Católica. Mais de 56% dos que chegam ao interior de São Paulo são aliciados por “gatos” – intermediadores de mão-de-obra – em seus locais de origem. Trinta e dois por cento deles receberam adiantamento do “gato” para poderem viajar. Isto é, já chegam aos locais de trabalho com uma dívida.

Há uma ligação estreita entre o processo de modernização e a mobilidade espacial de milhares de pessoas. É o que mostram os estudos desenvolvidos pela socióloga Maria Aparecida Moraes Silva, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos-SP). Há quase três décadas ela trabalha com a temática do trabalhador rural na cana, laranja e café. Ela identifica uma redefinição da cartografia migratória: (…)

Continua

* Depoimentos ao repórter.

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08

Apr

09

La mirada de Doña Carmen

A Dadivosa já está em Madri, onde vai passar um ano. Agora nós leitores vamos ter o privilégio de acompanhar suas narrativas gastronômico-filosóficas direto da velha Espanha. Num dos primeiros posts ela nos deixa com água na boca ao relatar a visita à Casa Benigna. Adorei essa foto que ela tirou de Doña Carmen, proprietária do restaurante artesanal, com seu olhar perdido no fim de noite.

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08

Apr

09

Túnel do tempo: 13 de novembro de 2007

Um mergulho no baú pra marcar os cem anos do nascimento de John Fante.

À procura da frase perfeita

“Era fim de tarde quando acordei e acendi a luz. Eu me sentia melhor, menos cansado. Fui para a máquina e me sentei diante dela. Minha idéia era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se pudesse escrever uma frase boa, escreveria duas, e se pudesse escrever duas, escreveria três, e se pudesse escrever três, escreveria para sempre. Mas e se eu falhasse? E se eu tivesse perdido meu belo talento? (…) Tinha dezessete dólares na carteira. Dezessete dólares e o medo de escrever.”

Arturo Bandini em “Sonhos de Bunker Hill” (John Fante, 1983)

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08

Apr

09

Relato do terremoto e o quadro que não caiu


Foto milagrosa de Chico Canhão.

Meu amigo Ayres, paulistano de nascimento e natalense por paixão, mora há alguns anos em Loreto, na Itália, com a mulher Gigliola e a filha Marina. Ele contou ao Diário de Natal como foi sua experiência de encarar o terremoto, que teve o epicentro não muito longe da sua cidade. A família mora no sexto andar de um edifício.

… Estávamos dormindo e fomos acordados pelo terremoto. Pensei que o prédio inteiro fosse desabar. Deu para sentir que os movimentos iam em duas direções. De um lado para o outro e de cima para baixo. Os quadros que estavam pendurados na parede caíram. A mesa da cozinha saiu do lugar e terminou encostada em uma das paredes. As luzes se apagaram. Vidros se quebraram. Móveis trepidaram. Chamei minha mulher e minha filha para escapar. Foram eternos trinta segundos. …

Pra mim, Ayres fez um relato mais informal:

Sempre tive horror a terremoto, por isso em 1984 decidi voltar pro Brasil. Cheguei lá e a terra tremeu em Baixa Verde (RN) destruindo um monte de casas. Fui morar perto do Morro do Careca que antigamente se chamava Morro do Estrondo. Uma noite ouvimos um barulho danado. Mas o mar estava calmo: era o velho Morro do Estrondo. Fizemos as malas e viemos pra Itália. Depois de um período tranquilo a terra não para de tremer. Estou pensando em aceitar o convite de uma querida amiga pra ir viver na Califórnia. Penso que lá encontrarei mais estabilidade. Tá decidido. Califórnia ou Japão.

Ele também contou que, no segundo tremor, todos os quadros da parede caíram, exceto um com uma foto de Chico Canhão em um terreiro de umbanda. Ao ouvir minha sugestão de deixar o sexto andar e se mudar pra uma casa, respondeu na lata: “Só quando todos os quadros caírem”. E garantiu que pra casa da sogra ele não vai.

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07

Apr

09

A elegância da imperfeição

There is an anecdote, told and retold through translated Japanese literature, of a Zen master who is staying with a priest at a temple close to Kyoto. The priest is having guests over that evening, and he has spent much of the day in the garden-shaping the moss, plucking weeds, and gathering up the leaves in tidy arrangements, all in order to achieve the state of perfection the temple builders had originally designed.

“Isn’t it beautiful,” the priest asked the master…

The master nodded. “Yes…your garden is beautiful; but there is something missing…”

The old gentleman walked slowly to a tree growing in the center of a harmonious rock and moss combination. It was autumn and the leaves were dying. All the master had to do was shake the tree a little and the garden was full of leaves again, spread out in haphazard patterns.

“That’s what it needed,” the master said.

-Janwillem van de Wetering, The Empty Mirror

[via A List Apart, dica de Fabrício]

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06

Apr

09

Pra que nojo?

Como “a que tarda, mas não falha” está sendo tema recorrente de hoje, me veio à lembrança um episódio bizarro que presenciei no carnaval de 1982 em Barra de Maxaranguape, RN.

A moça comia um sanduíche quando descobriu um cabelo dentro do pão. Reclamou indignada. E o balconista, uma flor de delicadeza nas relações humanas, saiu com esse consolo filosófico:

- A senhora tá cheia do nojo aí, mas quando morrer vai levar uma pá de terra na cara.

Ela saiu sem dizer nada e eu era o próximo da fila. Desisti do lanche, peguei uma cerveja e fui atrás do trio elétrico, pensando na vida.

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06

Apr

09

"Vida a qualquer preço? Não vale pra mim"

Um belo perfil de uma ciclista que morreu atropelada na avenida Paulista no dia 14 de janeiro. O autor é o jornalista Fausto Salvadori Filho. Seu blog Boteco Sujo traz a versão integral do texto que saiu condensado na revista Criativa.

[ dica do @inagaki ]

UPDATE 8/4: Fausto faz uma retificação:

Na verdade, o post não é “a versão integral que saiu condensada na revista”, é o texto da revista com alguns acréscimos pessoais. Eu sei que parece a mesma coisa, mas só não quero dar a impressão de que usei o blog para “vazar” uma versão não editada da matéria.

Ok, Fausto, tá feito o registro. Parabéns pelo texto.

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06

Apr

09

Smile


Smile, Charlie Chaplin , Modern Times, 1936.

Recebi este vídeo agora há pouco do amigo Ayres, que mora em Loreto, não muito longe do epicentro do terremoto que atingiu a Itália na noite passada. Já são mais de 50 mortos.

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